22 Mar, 2018

“Vamos lançar a prescrição através do telemóvel e temos projetos na área dos exames sem papel”

A propósito da 2ª edição do Portugal eHealth Summit, uma conferência dedicada à transformação digital na área da Saúde, falámos com Henrique Martins. O Presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde fala dos projetos que já estão implementados e daqueles que serão lançados brevemente. Tudo para aproximar os cidadãos dos cuidados de saúde.

Em que ponto é que está a transformação digital que está a ser levada a cabo na área da saúde?

Neste momento, temos uma situação de grande heterogeneidade. Temos algumas instituições que já estão muito avançadas – alguns hospitais e nalgumas iniciativas dos cuidados de saúde primários. Mas também temos grandes desafios. Ao nível dos cuidados de saúde primários, temos de modernizar o parque de rede de hardware e, também, o próprio software, que é muito antigo. Começámos segunda-feira, dia 19, a substituição do sistema mais antigo do Ministério da Saúde, que o SINUS, o Sistema de Informação dos Cuidados de Saúde Primários. E, ao nível dos hospitais, estamos a dinamizar iniciativas sobre o “chapéu” do SNS sem papel, em que (temos o exemplo conhecido do Hospital de Ovar) vários hospitais estão a desenvolver projetos holísticos, em que toda área – quer clínica, quer administrativa – está abrangida por iniciativas de transformação digital.

Que tecnologias já estão disponíveis?

Estamos numa fase em que já temos muitas ferramentas digitais, como o portal do SNS, a app “My SNS Carteira” (quer para Android, quer para iPhone). Estas são ferramentas que estão disponíveis para o cidadão e que muitos cidadãos ainda não conhecem. Neste momento, temos 1,8 milhões de portugueses inscritos no Portal do SNS, onde podem tirar a referência multibanco para pagar uma taxa moderadora, ver o boletim de vacinas, ver guias de tratamento, etc. E, no entanto, ainda muitas pessoas não conhecem. Para além disso, o facto de as instituições também ainda não explorarem estas ferramentas faz com que não montem processos de prestação de cuidados, utilizando estas ferramentas. Vou dar-lhe um exemplo concreto: se pedirmos a todos os diabéticos para acompanharem através do portal e registarem os seus níveis de açúcar no sangue, essa informação pode ser utilizada, por exemplo, nas consultas médicas, facilitando o trabalho dos médicos e dos enfermeiros nas unidades de diabetes do SNS. Ora é esse desafio da integração das tecnologias na prestação de cuidados que estamos aqui a discutir no Summit e que se pretende, no fundo, dinamizar.

Mas não há também que ter em conta a barreira tecnológica que muitas vezes impede as pessoas mais idosos de utilizaram essas ferramentas?

Temos um desafio com as pessoas com mais idade. Temos um desafio que está a ser vencido por algumas instituições, que já criaram, por exemplo, gabinetes de apoio aos utentes para a inclusão digital. E vamos ter de fazer isto de forma massificada, não só na saúde mas também nas juntas de freguesia, nas universidades seniores. Por exemplo, no distrito da Guarda, queremos iniciar um projeto de inclusão digital envolvendo os agrupamentos de escolas, em que são os alunos a ajudar os cidadãos mais velhos a começar a experimentar o “digital”. Depois, há muitos que, depois de experimentarem, até aprendem – porque têm tempo para explorar a tecnologia.

Há pouco dizia-me que estão inscritas no portal do SNS 1,8 milhões de pessoas. Isso quer dizer que estas ferramentas digitais na Saúde também não chegam a muitos portugueses que têm acesso à Internet e que são digitalmente ativos. Por que é que isto acontece?

Porque é difícil comunicar, é muito caro fazer campanhas. Tentamos utilizar várias estratégias para chegar a mais pessoas. Este evento [Portugal eHealth Summit] é importante, está aberto ao público em geral, para as pessoas também se interessarem. Também temos utilizado canais menos convencionais, como por exemplo “convidar um amigo” – é possível mandar um email a partir do site para convidar outros amigos a inscreverem-se. Também já experimentámos convidar as pessoas as inscreverem-se através das SMS´s das receitas sem papel. Isto é um processo gradual, em que as pessoas vão descobrindo vantagens na participação digital. Ao contrário do portal das Finanças, o Portal do SNS é de inscrição voluntária e é grátis. Mas é pouco ainda. Precisávamos de ter inscritos, pelo menos, todos os portugueses que usam a Internet, que são cerca de 75%.

O que é que gostaria de destacar desta 2ª edição da Portugal eHealth Summit?

Queria destacar o facto de só hoje [terça-feira, dia 20] termos aqui mais de 1500 pessoas – e é o primeiro dia. Tivemos fóruns sobre estratégia, sobre cibersegurança, envolvimento da indústria, procurement [aprovisionamento] digital. Há um grande esforço das instituições do SNS em perceber como é que podem utilizar as várias ferramentas que estão disponíveis. Vamos ter, por exemplo, várias sessões sobre TeleSaúde – é muito importante mostrarmos que é possível prestar cuidados de saúde à distância. No SNS, temos uma plataforma de TeleSaúde grátis para todas as instituições – hospitais públicos e cuidados de saúde primários.

Mas em que consiste exatamente esse serviço de TeleSaúde?

Consiste na utilização de uma ferramenta, que é uma plataforma digital. Permite que dois médicos, ou um médico e um enfermeiro, que estão distantes (em hospitais diferentes, por exemplo), possam ter o doente num dos lados e ambos os médicos estarem a discutir o caso clínico. O que facilita, por exemplo no caso dos especialistas, porque os doentes escusam de se deslocar até tão longe – podem ir até ao centro de saúde e a partir do centro de saúde há então uma teleconsulta com um neurologista ou com um cardiologista. Isto já está a acontecer no SNS mas pode ainda ser muito potenciado.

Em que ponto é que está a informatização da informação que está nos boletins de vacinas?

Neste momento, praticamente toda a informação que tínhamos nos softwares antigos dos centros de saúde – à exceção de um ou dois centros de saúde aqui na região de Lisboa, que tinham um software diferente – foi migrada para o sistema mais moderno, centralizado. E, portanto, a informação que as pessoas consultem online, no portal do SNS (na área do cidadão), é a informação sobre vacinas que existe no “digital”. Isto não quer dizer que não haja informação no boletim em papel que eventualmente não tenha sido passada para os sistemas informáticos – ou porque a pessoa não foi ao centro de saúde entretanto ou porque o boletim é muito antigo e na altura não havia sistemas de informação digitalizados. Quando as pessoas virem que há inconsistências no seu registo de vacinas, devem informar-nos para nós verificarmos se é um erro de integração de software ou se as vacinas nunca foram registadas em formato digital.

E por causa deste surto de sarampo, os serviços do ministério vão alertar, de alguma forma, as pessoas que não estão vacinadas contra o sarampo?

Não, não temos instruções nesse sentido. Temos apenas instruções para continuar a trabalhar, criar ferramentas digitais e, no caso das vacinas, ferramentas que permitem o planeamento e definição de estratégias e de políticas pela Direção-Geral de Saúde.

Que projetos, ao nível da informatização dos serviços de saúde, é que estão na calha para os próximos tempos?

Vamos lançar a prescrição móvel, ou seja, através do telemóvel, com recurso à chave móvel digital, vai começar a ser possível os médicos prescreverem nos seus próprios telemóveis receitas médicas – as chamadas receitas sem papel -, mas já sem a necessidade do cartão do cidadão e do PIN. Portanto, isto introduz mobilidade na prática médica, é muito útil nos pequenos consultórios, nos domicílios, é uma forma de aproximar o “digital do cidadão”. Vamos lançar a capacidade de app “My SNS Carteira”, para além dos cartões que já tem, ter também um cartão de alergias e partir de junho, começar a enviar informação sobre a atividade física do utente para o médico, que desde dezembro, pode fazer a prescrição eletrónica da atividade física – pode mesmo ver o número de passos que o cidadão deu e a evolução.

Temos também projetos na área dos exames sem papel. Vamos avançar no segundo trimestre deste ano com a prescrição sem papel, só com assinatura digital e que vai permitir à pessoa sair do consultório médico apenas com uma SMS. Temos muitos projetos este ano.

Mas não acha que, sem uma divulgação adequada, todos esses projetos acabam por passar ao lado das pessoas?

Tem razão mas, insisto, nós temos feito alguma divulgação nos media. Mas é muito dispendioso para o Estado fazer divulgação e portanto, estamos a apostar muito numa divulgação feita pelas próprias unidades de saúde, o “passa-a-palavra”, utilizando também as vias digitais – todos os emails que temos registados no portal, e sempre que as pessoas autorizem, utilizamos para lhes dar noticia de novas ferramentas ou de novas funcionalidades no portal ou nas apps. Lançámos em Outubro o Facebook do SNS, já temos mais de 140 mil seguidores. Portanto, são os passos que o Estado pode dar. Não temos dinheiro para fazer campanhas de marketing de milhões de euros como fazem as grandes empresas.

Mas será que os profissionais de saúde, os médicos e os enfermeiros, e os funcionários dos centros de saúde, por exemplo, têm formação e conhecem todas estas ferramentas digitais, para depois poderem dar essa informação aos doentes?

O que notamos é que eles precisam de um motivo para começar a falar destas coisas. E é por isso que estamos agora a fazer uma campanha muito agressiva junto dos próprios profissionais, com reuniões dentro das próprias instalações das instituições de saúde. É uma campanha sobre a não-emissão de folhas de papel no ato da prescrição médica. Porquê? Porque, para se não se imprimir uma folha, é preciso que os administrativos se envolvam e recolham os emails e os telemóveis. É preciso que os próprios médicos expliquem que aquela receita fica na mesma disponível, ou na app ou online, no portal. Portanto, queremos que esta divulgação seja feita pelos próprios profissionais. Uma forma de os entusiasmar para isto está a ser um género de competição –chamamos-lhe o “SNS sem papel”, que é uma iniciativa transversal a todo o SNS e que visa puxar pelas instituições. Ou seja, eu diria que os profissionais conhecem as ferramentas mas no dia a dia não há tempo ou motivo para explicar às pessoas.

Há relatos de pessoas que continuam a ter dificuldade em marcar consultas através do portal do SNS – que é uma funcionalidade que já tem alguns anos – porque o sistema ainda tem algumas falhas. Não seria melhor consolidar e aperfeiçoar os serviços que já existem antes de lançar outros?

Estamos a consolidar. Esse serviço, por exemplo, foi objeto de revisão tecnológica nas últimas semanas – aliás, começou há quase um ano a substituição de algumas peças de identificação digital no Portal. Esse é um serviço antigo, chama-se eAgenda, foi montado em 2009, tem vários erros de arquitetura de conceção mas é um serviço que é utilizado por mais de 5 mil pessoas por dia – é um serviço muito útil. Contudo, há relatos de falhas, nós conhecemos essa situação e há depois também relatos de situações em que não é possível o agendamento, não por falha do software mas porque os médicos, em mais de 40% dos casos, ainda não disponibilizam a sua própria agenda à marcação online. Ainda é uma opção, foi assim que o projeto começou. No nosso entender, devia ser generalizado a todos os médicos mas, de facto, ainda é uma opção.

Há pouco tempo ouvimos o Ministro das Finanças dizer que há má gestão na área da saúde. Como é a relação entre os Serviços do Ministério e as Finanças?

A relação é boa. Trabalhamos todos os dias para contribuir para a sustentabilidade do SNS, quer nas compras centralizadas, quer nos sistemas de informação. Vamos agora assinar um protocolo com a Associação Portuguesa de Seguradoras por causa de um software, que é o software de faturação às seguradoras a partir dos hospitais, para garantir a receita do Estado, neste caso, das despesas incorridas nos hospitais e que são faturadas às seguradoras. Portanto, muito do nosso trabalho tem a ver com otimização de recursos e com a centralização de compras – por esta via, conseguimos poupanças de largos milhões de euros para a sustentabilidade do SNS. Portanto, o ministério das Finanças congratula-se muito com este trabalho que fazemos em prol da eficiência do SNS.

Uma das áreas que vão ser abordadas neste Portugal eHealth Summit é a inteligência artificial. Como é que se pode ligar este conceito à área da Saúde?

Estamos na linha da frente nos projetos governamentais que foram anunciados pela Sra. Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa. Vamos fazer um projeto sobre prescrição de antibióticos com o Instituto Gulbenkian de Ciência e achamos que esta é uma área de futuro. Mas também temos de ser realistas e perceber que há muitos desafios, ao nível das infraestruturas e de sistemas antigos. Portanto precisamos de aprender o que realmente são os vários tipos de ferramentas de inteligência artificial e sermos muito criteriosos (escolher duas ou três) áreas, projetos nas quais poderemos ter valor imediato para o SNS.

Mas onde é que se poderia aplicar?

Podia-se aplicar na deteção de fraude, podia-se aplicar na deteção de padrões de antibióticos – que é o que vamos fazer – para pesquisar a emergência de resistências antimicrobianas e ainda, por exemplo, na previsão do risco de internamento num doente complicado, que começa a telefonar várias vezes ao SNS24. Ou seja, há várias áreas onde penso que a inteligência artificial nos vai dar uma grande ajuda. Mas, como digo, devemos escolher uma duas, focar energias e não ir atrás das modas – porque nas tecnologias há muitas modas e nem sempre isso se traduz em ganhos efetivos para o sistema.

Tiago Caeiro/SO

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