12 Out, 2022

Entrevista. “O SNS tem vindo a tornar-se um meio hostil para os seus profissionais”

Ana Teresa Fróis é a presidente da comissão organizadora do 8.º Encontro de Medicina Geral e Familiar de Matosinhos. Interna do 3º ano de MGF na USF Horizonte, alerta para a necessidade de se apostar mais nos profissionais do Serviço Nacional de Saúde.

O que se pode esperar do 8.º ENMGF Matosinhos?

O 8.º ENMGF Matosinhos é um encontro entre profissionais dos cuidados de saúde primários, que decorre entre 13 e 14 de outubro, envolvendo médicos internos e especialistas e enfermeiros, que pretende promover a formação e atualização científica. Este ano, à semelhança dos anos anteriores, a comissão organizadora procurou promover a abordagem de temas transversais à realidade dos cuidados de saúde primários, através de sessões e workshops, que esperamos possam cativar a discussão e reflexão de todos os participantes.

 

No último dia está previsto o “Momento Abel Salazar”. De que se trata?

O “Momento Abel Salazar” é um momento lúdico e cultural, que tem vindo a fazer parte da tradição deste Encontro. Sendo o lema de Abel Salazar ‘Um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe’, procuramos não só cultivar a atualização técnico-científica, mas também ter um componente mais abrangente, que se baseie na inclusão, nas artes … Posso dizer que irá ser um momento agradável, que irá incluir um elemento fundamental da MGF – os utentes! E mais não posso dizer, fica a surpresa para quem puder assistir.

“O que a ULS me proporcionou foi a integração na equipa médica da VMER do Hospital Pedro Hispano”

 

Estando integrados numa Unidade Local de Saúde, quais as mais-valias em termos de formação para os internos de MGF?

Na minha opinião, as mais-valias para os internos são em muito semelhantes às dos especialistas: facilidade de acesso às especialidades hospitalares, existência de oportunidades habitualmente restritas ao contexto hospitalar e um cuidado aos utentes mais integrado – em qualquer momento da nossa consulta, se tivermos dúvidas que necessitemos de opinião de uma especialidade hospitalar, temos contactos telefónicos diretos para médicos dos diferentes serviços que nos aconselham relativamente às dúvidas clínicas.

Podemos aceder a cursos disponibilizados pelo centro de formação; submeter trabalhos à Comissão de Ética para a Saúde do hospital; podemos facilmente ter um seguimento integrado dos nossos utentes que são acompanhados em várias especialidades e fazer planos conjuntos com colegas hospitalares; etc. Especificamente na formação, temos talvez mais facilidade em aceder a estágios nas várias especialidades do hospital, um contacto com internos e especialistas hospitalares mais próximo com eventuais mais-valias na realização de trabalhos, e, no meu caso pessoal, o que a ULS me proporcionou – que penso que não teria sido possível noutro local (pelo menos, não com tanta facilidade) – foi a integração na equipa médica da VMER do Hospital Pedro Hispano.

 

Tendo em conta a atual situação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), como interna, quais são os diferentes rumos da especialidade?

Este é um assunto que nos preocupa a todos, internos e especialistas de MGF, e daí termos decidido incluir uma mesa-redonda sobre esse tópico no nosso Encontro. Procurámos juntar várias pessoas com formação de base em MGF, que estão a trabalhar na investigação científica e docência, medicina privada, intervenção em áreas específicas da medicina (cessação tabágica, emergência pré-hospitalar,…), no estrangeiro, entre outros. Espero que a discussão permita esclarecer os internos e especialistas que assistam à mesma e que eu possa depois responder a esta pergunta com uma maior confiança no futuro desta especialidade.

“… é preciso retribuir, dar aos profissionais as condições para trabalharem e manterem (ou subirem) o nível de cuidados prestados aos utentes”

 

Os internos de MGF ainda acreditam no SNS?

Não posso falar pelos internos de MGF, posso apenas falar por mim. Eu acredito no SNS e nas ideias que estiveram por detrás da sua criação, na prestação dos melhores cuidados de saúde possíveis à nossa população, num serviço universal e tendencialmente gratuito.

Contudo, o SNS tem vindo a tornar-se um meio hostil para os seus profissionais (não só os médicos), com prejuízo da saúde dos utentes que pretende servir. A pandemia foi um desafio no qual o SNS brilhou, tendo garantido um adequado cuidado a todos os seus utentes, mas à custa dos seus profissionais. Agora é preciso retribuir, dar aos profissionais as condições para trabalharem e manterem (ou subirem) o nível de cuidados prestados aos utentes. Acho que é fundamental cada utente poder ter um médico de família, que o acompanhe na saúde e na doença, que o oriente para especialidades hospitalares sempre que necessário, sem barreiras, sem dificuldades, sem limitações. Seja no litoral ou no interior, no Norte ou no Sul, na cidade ou no campo. E espero poder vir a fazer parte desse futuro SNS universal.

SO

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