10 Nov, 2021

“É urgente colocar a One Health na agenda, para que passe de conceito abstrato a boa prática”

A 17.ª edição do Congresso Veterinário Internacional Montenegro teve a One Health como “bandeira”. “Achámos que era a altura certa para ajudarmos a construir e implementar esta tendência”, diz o organizador Luís Montenegro.

Considera que a atual pandemia pôs ainda mais a nu a necessidade da adoção desta abordagem integrada animais-pessoas-ecossistemas?

Sem dúvida. É preciso reforçar a ideia que, de forma alguma, o ambiente pode ser descurado, na medida em que este – e as agressões que lhe fazemos – vai refletir sempre para a saúde humana e para a saúde animal. Daí a necessidade desta abordagem conjunta, que nos impeliu a reunir, neste congresso, um grupo de especialistas de renome nas três áreas com o intuito de debater, refletir e chegar a conclusões que possam influenciar a sociedade e os decisores políticos. É urgente colocar a One Health na agenda sociopolítica, de forma a que passe de conceito abstrato a boa prática.

O facto de até agora termos tido medicinas “egoístas”, com cada setor a trabalhar fechado sobre si mesmo, tem repercussões também em termos económicos, sobretudo num contexto de pandemia.

Em que medida esta abordagem permite otimizar não só a saúde pública, mas também tornar o futuro mais sustentável?

Acaba, sem dúvida nenhuma, por tudo estar mais enquadrado. Nesta edição do congresso teremos, por exemplo, especialistas que nos vão explicar o que teremos que fazer para conseguir continuar a alimentar adequadamente a população mundial, que tem tendência a crescer, mas num formato que não seja demasiadamente agressivo ou destruidor do ambiente.

Todos nós temos de ser reeducados em relação ao consumo de determinados ingredientes, nomeadamente da proteína animal, cuja elevada quantidade que ingerimos é nociva não só para a nossa saúde, como para o ambiente.

Tudo isto terá de ser enquadrado num conceito mais abrangente, cuja adoção na prática será um enorme desafio em que todos teremos que trabalhar com empenho.

Quão sensibilizados para esta questão estão os médicos de saúde humana e os médicos veterinários e que desafios configura a adoção na prática desta abordagem “Uma Só Saúde”, a nível nacional e global?

É um longo caminho e vai ser preciso muito apoio, divulgação e sensibilização. Acredito que Portugal possa ser a candeia e um exemplo a seguir pelo resto do mundo. Estamos conscientes e seguros de que a abordagem One Health é a estratégia a seguir, agora é preciso sensibilizar os profissionais das várias áreas e a população, de forma a implementá-la com sucesso.

Este conceito não é novo… A Organização Mundial de Saúde (OMS) fala nele há 20 anos. A sua implementação efetiva é que seria inovadora e penso que Portugal pode ser essa candeia.

Ainda relativamente à covid-19, pergunto-lhe que lições trouxe esta pandemia à Medicina Veterinária?

Mostrou-nos que se tivéssemos conseguido atuar a montante através de uma boa Saúde Pública, teríamos evitado que o vírus tivesse feito o salto interespécie.

É um vírus que existe na natureza e que por erro humano acaba por saltar de espécies em que é inócuo, para a espécie humana com uma capacidade de infeção e de contágio muito grande, capaz de abalar o mais robusto sistema de saúde.

A emergência desta zoonose reforça a necessidade da política comum/conjunta entre saúde humana, animal e ambiental, de forma a evitar futuras pandemias.

Relativamente ao Congresso, este tem um cariz internacional e também multidisciplinar. Que outras mais-valias confere em termos de formação aos médicos veterinários e também a outros profissionais da área da saúde animal?

A 17.ª edição do Congresso vai funcionar com quatro salas. A nossa “bandeira” é a One Health, porque achámos que era a altura certa para ajudarmos a construir e implementar esta tendência.

Porém, e porque fazemos congressos monotemáticos há 17 anos, a sala principal do evento será a dedicada à Medicina Interna, onde teremos especialistas internacionais que abordarão tudo o que há de novo e as melhores práticas na medicina interna felina e canina. Dentro deste tema central, teremos duas salas: uma mais vocacionada para os médicos veterinários e outra para a enfermagem veterinária, uma classe muito jovem, na medida em que este curso tem 15 anos em Portugal, mas que já incluímos no nosso congresso há 10. Isto porque, temos a obrigação de a ajudar a crescer. E ainda têm um longo caminho para percorrer para serem uma classe estimada e respeitada.

Teremos, como habitualmente, uma forte presença de colegas espanhóis. Temos orgulho de sermos um dos maiores congressos da Europa neste setor. Na Península Ibérica, há três grandes congressos de Medicina Veterinária e nós somos um deles.

s o networking, falta-lhes a interação com o orador, falta-lhes a vontade de intervir na parte da discussão…

Pegando na ideia do pós-covid e pensando num futuro próximo, para além da One Health, que outras tendências intui que venham a marcar a Medicina Veterinária a um nível global?

O que verifico é que a grande mudança não vai ser nos pequenos animais, onde o trabalho feito até aqui tem sido excelente. Como veterinários, decisores políticos e como sociedade conseguimos atingir um patamar de entendimento que fez com que os animais de companhia tenham hoje um estatuto adequado.

Considero que o foco da Medicina Veterinária no futuro próximo será nos grandes animais, nas espécies pecuárias e na Saúde Pública. A discussão sobre formas de produção de proteína animal é incontornável. Um animal continua a ser um animal ou é uma máquina de produção de proteína? O que podemos fazer no sentido de garantir a qualidade de vida e bem-estar do animal a par da sustentabilidade ambiental.

CBM/SO

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