Hepatites virais – o papel de destaque do MF – Proximidade – Oportunidade de intervenção
Membro da Direção Nacional da APMGF
28 Ago, 2026

Hepatites virais – o papel de destaque do MF – Proximidade – Oportunidade de intervenção

No passado dia 28 de Julho foi apresentado no auditório da Assembleia da República o Relatório do Programa Nacional para as Hepatites Virais (HV). As HV continuam a ser uma causa importante de doença hepática crónica, cirrose e carcinoma hepatocelular, sendo os vírus da hepatite B (VHB) e da hepatite C (VHC) responsáveis pela maioria da mortalidade relacionada1.

Portugal encontra-se alinhado com a meta da OMS na eliminação das hepatites virais, enquanto problema de saúde pública, com a redução da sua incidência em 90% e da mortalidade associada em 65%, até 20302. Este caminho, alicerçado em políticas públicas integradas, tem vindo a ser percorrido de forma positiva e sustentada, traduzindo-se em ganhos em saúde e conferindo ao país destaque internacional.

Os progressos constatam-se tanto a nível das intervenções de prevenção, como de diagnóstico e tratamento. A alta taxa de vacinação, nomeadamente para o VHB, bem como o acesso generalizado gratuito a terapêuticas antivíricas altamente eficazes, em particular para a hepatite C, tem contribuído para a redução significativa da carga da doença, com diminuição dos internamentos, da progressão para doença hepática avançada e da necessidade de transplante hepático1.

No entanto, os desafios mantêm-se principalmente relativos ao subdiagnóstico das infeções crónicas, à necessidade de reforço em procedimentos de prevenção secundária (rastreio dirigido), à melhoria do acesso e ligação aos cuidados de saúde, à consolidação e melhoria dos sistemas de vigilância epidemiológica, à notificação em SINAVE pelos profissionais de saúde, e à otimização dos registos clínicos com codificação por tipo de hepatite viral, nos CSP.

Os Médicos de Família (MF), pelas suas competências e características3 exercidas na praxis, detêm, no Sistema Nacional de Saúde, um papel fundamental no combate à eliminação das hepatites virais. Os cuidados que proporcionam, de proximidade, acessíveis (pelo menos, no âmbito do Serviço Nacional de Saúde – SNS), continuados, holísticos e centrados na Pessoa, permitem-lhes identificar as necessidades de saúde de cada indivíduo, tendo em conta o seu contexto ambiental e as suas vulnerabilidades.

Neste contexto, poderão implementar medidas de educação para a saúde, de prevenção primária e testagem dirigida, contribuindo quer para a evicção das HV, quer para o seu diagnóstico, concorrendo, assim, para a diminuição da morbimortalidade. Detêm ainda, a prerrogativa de promover a articulação e cooperação de cuidados no circuito do utente dentro do Sistema e do SNS.

Estando mais próximos do doente e baseado na relação de confiança médico-doente que se vai estabelecendo com a continuidade de cuidados, podem, mais facilmente, identificar precocemente comportamentos de risco, bem como motivar e apoiar o doente com hepatite viral, envolvendo-o no processo terapêutico, potenciando a adesão ao tratamento e melhores resultados em saúde.

Refoquemos, então, a nossa atenção para as hepatites virais.

 

  1. Ministério da Saúde. Direcção-Geral da Saúde. Relatório do Programa Nacional para as Hepatites Virais 2026. Lisboa: Direcção-Geral da Saúde; Julho 2026. (ISBN: (e-book) 978-972-675-399-5)
  2. World Health Assembly. Viral hepatitis. Resolution WHA63.18. Geneva: World Health Organization; 2010. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/3092
  3. A árvore da WONCA: tradução e adaptação cultural para português. (2021). Revista Portuguesa De Medicina Geral E Familiar37(1), 28-35. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v37i1.12943
  4. Core Values and Principles of General Practice/Family Medicine. Disponível em: https://www.woncaeurope.org/file/6bb0f804/ANNEX 3.pdf

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