“É preciso desmistificar o que é a canábis medicinal”
Isabel Maia é enfermeira e é diretora de uma clínica de reabilitação neurológica. Foi precisamente no contacto com doentes neurológicos, inclusive crianças, que se apercebeu do impacto da canábis medicinal na melhoria da qualidade de vida. Integrando o Observatório Português para a Canábis Medicinal (OPCM), realça que é preciso apostar-se na informação e na formação.

“É preciso desmistificar o que é a canábis medicinal, sobretudo junto dos profissionais de saúde para se evitar o seu uso sem prescrição médica”, refere a enfermeira Isabel Maia.
A diretora do CHS – Centro de Reabilitação Neurológica de Braga apercebeu-se que os pais de crianças com epilepsia recorriam ao uso de óleo de CBD para controlar as crises convulsivas ainda numa época em que não tinha quaisquer conhecimentos sobre a terapêutica. “Era desta forma que algumas crianças conseguiam controlar as crises epiléticas, conseguindo, assim, ganhos na reabilitação. Tudo o que se consegue neste trabalho, pode reverter por causa da hipoxia associada à crise convulsiva”, indica.
Além da epilepsia, deparou-se com outros doentes que recorriam a óleo de CBD para outras condições clínicas, nomeadamente espasticidade nas lesões medulares.
Contudo, como não havia qualquer prescrição e orientação clínica, Isabel Maia acabou por procurar mais informação e integrar o OPCM. Atualmente, é membro dos órgãos sociais e do Conselho Consultivo Científico do OPCM. “Já existe alguma evidência científica de que a canábis para fins medicinais é eficaz e segura”, reforça. Mas, tal como em qualquer terapêutica, é preciso existir a prévia indicação por parte de um médico. “No caso das crianças, muitas não conseguem comunicar e expressar-se. Os pais que iniciam o tratamento sem orientação clínica fazem-no por desespero.”
É por esta razão que Isabel Maia vê com satisfação os avanços dos últimos tempos, porque já se começa a ter profissionais que podem prescrever e gerir a terapêutica. Recorde-se que o uso de canábis para fins medicinais foi legalizado em 2018, através da Lei nº 33/2018 e regulamentado em 2019 pelo Decreto-Lei nº 8/2019.
A legislação permite a prescrição médica e a dispensa em farmácias de produtos à base de canábis, desde que tenham autorização para fins medicinais e o paciente tenha indicação clínica adequada. “Tem sido uma luta em várias frentes, mas esta legislação é importante. Na Oncologia, por exemplo, a canábis medicinal já é uma opção para a dor e para alguns efeitos secundários da quimioterapia”, frisa.
Maria João Garcia
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