5 Nov, 2021

Pedro Simas. “É cada vez mais comum que os vírus saltem a barreira das espécies”

O virologista e Diretor do Católica Biomedical Research Center defende uma abordagem “mais holística e global” perante futuras zoonoses.

A pandemia de SARS-CoV-2 que surgiu no início de 2020 surpreendeu-o de alguma forma?

Não. Isto tem acontecido diversas vezes ao longo da história e recentemente temo-nos deparado com várias pandemias, tais como vários vírus da gripe e VIH. Os humanos estão irremediavelmente conectados com os animais, uma vez que partilhamos o mesmo ambiente.

Houve sempre uma interrelação entre humanos e animais, o que levou ao aparecimento de zoonoses e introdução de novos vírus na espécie humana.

Estamos num período em que esse salto da barreira das espécies se tornou mais comum?

Sempre tivemos transmissão de vírus dos animais para os homens. A verdade é que os riscos são cada vez maiores. O que se passa agora é que, com o aquecimento global e com a invasão dos ecossistemas silvestres pelo homem, este fenómeno se está a tornar mais comum. Contudo, não tem de ser necessariamente assim. Temos de aprender com o passado e tentar prevenir estas situações.

E que caminhos se devem considerar para prevenir a transmissão para humanos?

Não há uma solução única. Temos de desenvolver vacinas mais transversais, que sejam eficazes contra várias estirpes virais, por exemplo gripe. Ao mesmo, tempo temos de respeitar o ambiente, percebendo os perigos. Temos de apostar no conhecimento e numa vivência comum mais sustentável, olhando para a natureza de uma forma mais integrada, numa abordagem One Health. Temos de implementar boas medidas relativamente às práticas de exploração dos animais, nomeadamente na forma como lidamos com a indústria pecuária e com os mercados de animais vivos. Temos de trabalhar em conjunto, promovendo a colaboração entre a medicina veterinária, a medicina humana e a saúde pública – de modo a que os especialistas possam olhar para os desafios de uma forma mais holística e global.

Por outro lado, temos de olhar com mais atenção para os animais, que podem servir de sentinelas para possíveis zoonoses. Exemplo disto é a intoxicação dos humanos por mercúrio, que aconteceu no Japão, nos anos 50, e que começou com relatos de alguns gatos com comportamentos neurológicos estranhos. Depois percebeu-se que era uma empresa que estava a contaminar um rio com mercúrio, afetando a cadeia alimentar de animais e humanos. Aqui os gatos poderiam ter servido como sentinela. Claro que há sempre situações que não podemos evitar.

TC/SO

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