Cardiologista || Professor da FMUL || Professor Afiliado da FMUP

DO FUNDO DO CORAÇÃO… || A emergência de novos fatores de risco

Desde os anos cinquenta do século passado, a partir dos dados do visionário estudo Framingham, que se sabe haver um conjunto de fatores associados ao desenvolvimento e   evolução da doença cardiovascular aterosclerótica, nas suas múltiplas expressões e com diferentes pesos relativos conforme os territórios predominantemente afetados. Aos “tradicionais” fatores de risco – colesterol elevado, hipertensão, tabaco, diabetes, juntou-se a obesidade, em especial a obesidade abdominal, com uma meta-análise recente mostrando uma associação forte a constante tanto do índice de massa corporal como do perímetro abdominal com a doença cardiovascular aterosclerótica e a mortalidade.

Além deste, um conjunto de outras situações têm vindo a ser identificadas como potenciadoras ou modificadoras do risco cardiovascular e que têm que ser devidamente tomadas em conta, se queremos individualizar a estimativa do risco. Algumas situações clínicas como a doença renal crónica, as doenças inflamatórias crónicas, a fibrilhação auricular, a insuficiência cardíaca, o cancro, a DPOC e a apneia obstrutiva do sono incluem esse grupo a que igualmente pertencem situações como a enxaqueca, a esteatose hepática não alcoólica, a doença mental (todas as formas), e infeções como a periodontite, a gripe e a infeção por VIH.

O stress psicossocial e em especial a “exaustão vital” é outro importante fator que contribui para o risco. Antes consideradas como doenças que atingiam predominantemente classes economicamente mais favorecidas, sabe-se hoje que não é assim e que o baixo nível socioeconómico se associa ao risco de doença cardiovascular. Do mesmo modo, alguns grupos étnicos são mais vulneráveis incluindo pessoas originárias do sul da Ásia, das Caraíbas e de África.

Algumas situações obstétricas como a hipertensão e a diabetes gravídica e a pré-eclâmpsia, sabe-se hoje não se confinarem ao período limitado da gravidez, mas aumentarem o risco cardiovascular subsequente.

A disfunção eréctil pode ser a primeira manifestação de disfunção endotelial e está igualmente associada a risco cardiovascular.

Uma das situações potencialmente modificadoras do risco cardiovascular é a exposição ambiental a poluentes não só atmosféricos, produzidos especialmente pala combustão de combustíveis fósseis, mas também a poluição da água e solos aumentam a exposição a chumbo, arsénico e cádmio, que se associa a maior risco de hipertensão, doença das coronárias, AVC e mortalidade cardiovascular. Quanto à poluição atmosférica, existem dados que mostram que a diminuição da exposição a partículas aéreas finas (PM25) se associa a melhorias da inflamação, trombose, stress oxidativo e a diminuição da mortalidade por doença cardíaca isquémica.

No presente, não basta controlar os fatores de risco “clássicos”. Se queremos reduzir o risco cardiovascular da comunidade, é igualmente necessário melhorar o nível socioeconómico e criar condições ambientais para uma vida mais saudável. A emergência de novos fatores modificadores do risco cardiovascular é uma realidade a que todos – pessoal de saúde, políticos, ambientalistas – temos que prestar atenção redobrada.

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