Mais de 300 tratamentos contra a covid-19 estão a ser estudados ou testados em pessoas em todo o mundo, incluindo antivirais, anti-inflamatórios e plasma sanguíneo convalescente, anunciou a federação internacional que representa a indústria farmacêutica.

Em comunicado, a Federação Internacional de Fabricantes e Associações Farmacêuticas (IFPMA) adianta que 22 farmacêuticas estão envolvidas em 81 ensaios clínicos de medicamentos – novos ou antigos – para a covid-19, como antivirais, anti-inflamatórios, plasma sanguíneo de doentes recuperados e anticorpos monoclonais (anticorpos produzidos em laboratório).

A IFPMA promoveu, a partir da sua sede, em Genebra, na Suíça, uma videoconferência sobre os avanços na terapêutica contra a covid-19, uma doença respiratória causada por um novo vírus que se tornou pandémica, com a participação dos líderes de algumas das maiores multinacionais farmacêuticas, como Pfizer, Roche, Gilead Sciences e MSD.

 

Usados vários fármacos usados para outas patologias

 

Para o diretor-geral da IFPMA, Thomas Cueni, “dificilmente haverá uma fórmula mágica para todos contra a covid-19”, mas tal não deve servir de “desculpa” para não se aprovar diligentemente “novos tratamentos ou vacinas”.

Até à data, não existe um tratamento específico para a covid-19, apenas medicação dirigida para sintomas, sinais e infeções secundárias desencadeadas pela doença.

Enquanto não surge um fármaco direcionado para a doença, têm-se usado experimentalmente medicamentos que foram concebidos para combater outras patologias, ao mesmo tempo que se atesta a sua eficácia e segurança em ensaios clínicos mais alargados.

Os tratamentos para a covid-19 que estão a ser testados variam consoante a sua atuação no organismo (se têm ação direta sobre o vírus ou sobre o sistema imunitário) e os potenciais benefícios para grupos distintos de doentes, de acordo com o seu estado de gravidade.

Um estudo concluiu que o anti-inflamatório dexametasona, autorizado em Portugal desde a década de 1960, reduz o risco de morte em doentes ventilados.

Na quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a utilização dos corticosteroides (que têm ação anti-inflamatória) no tratamento de doentes com covid-19 graves.

O antiviral remdesivir, desenvolvido pela Gilead Sciences para combater infeções provocadas pelo vírus Ébola e pelo coronavírus da MERS, tem ajudado, segundo alguns estudos, na recuperação de doentes com covid-19 hospitalizados. O seu uso, condicionado, na Europa foi aprovado em julho.

Portugal integra um ensaio clínico a larga escala promovido pela OMS para o uso terapêutico do remdesivir na covid-19.

O antiviral experimental oral ‘MK-4482’ – concebido pela farmacêutica MSD para atacar o vírus da gripe, mas que revelou ter ação contra a replicação do SARS-CoV-2, na origem da covid-19 – começa a ser testado este mês no tratamento de doentes hospitalizados e não hospitalizados.

Usado experimentalmente para tratar a infeção pelo vírus Ébola, o antigripal favipiravir, desenvolvido no Japão, está a ser igualmente testado para a covid-19 em diversos países.

Em contrapartida, os antivirais lopinavir e ritonavir, utilizados no tratamento do VIH/sida, foram testados em doentes com covid-19, mas não provocaram benefícios significativos: não reduziam a morte de doentes hospitalizados e provocavam efeitos indesejáveis graves nos rins. A OMS abandonou os testes clínicos com estes medicamentos.

Os antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina, que se mostraram aparentemente promissores para o novo coronavírus em testes laboratoriais, afinal comportam riscos para doentes com covid-19.

Face às dúvidas sobre a sua eficácia e segurança, a OMS suspendeu os ensaios clínicos com hidroxicloroquina e vários países, como França, Itália e Bélgica, interromperam o seu uso terapêutico em doentes infetados com o SARS-CoV-2. Portugal recomendou a sua suspensão.

O medicamento imunomodelador tocilizumab, fabricado pelo laboratório Roche e indicado para doentes com artrite reumatoide, uma doença autoimune, causou melhorias pouco assinaláveis em pacientes com covid-19 graves, com pneumonia associada. A farmacêutica espera aumentar os seus benefícios na infeção pelo novo coronavírus quando combinado com o antiviral remdesivir.

Várias farmacêuticas estão a testar anticorpos monoclonais que neutralizem o SARS-CoV-2.

A proteína ‘interferon beta-1a’, produzida naturalmente pelo organismo para regular o funcionamento das células e administrada a doentes com esclerose múltipla, está a ser também testada devido aos efeitos positivos que lhe são apontados no tratamento dos casos mais graves de covid-19.

O tratamento, igualmente experimental, com plasma sanguíneo de doentes recuperados tem sido aplicado a outros pacientes, em situações muito específicas e graves, em que as defesas do corpo (sistema imunitário) estão muito debilitadas, mas não é isento de riscos, como a intolerância, segundo especialistas.

Empresas farmacêuticas aliaram-se para desenvolver uma potencial terapia baseada no plasma sanguíneo (que contém igualmente anticorpos neutralizadores) para a covid-19.

A empresa biotecnológica polaca Biomed anunciou em agosto o lançamento da primeira fase de produção de um medicamento experimental contra a covid-19 à base de plasma sanguíneo de mineiros que recuperaram da doença respiratória.

O fármaco começará a ser testado no fim de outubro em vários hospitais.

Numa primeira fase, a empresa Biomed terá capacidade para fabricar cerca de 3.000 doses do medicamento experimental injetável, que assegura poder ser administrado a qualquer doente, seja qual for o seu grupo sanguíneo.

Em maio, o Instituto Português do Sangue e da Transplantação anunciou o arranque da recolha de plasma sanguíneo de doentes recuperados para ensaios clínicos.

Antibióticos têm sido administrados para combater infeções oportunistas provocadas por bactérias.

SO/LUSA

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