Condição Pós-Covid-19 ou Long Covid
Assistente Graduado de Pneumologia e Especialista em Medicina Intensiva Coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Pulido Valente – CHULN Ex-Coordenador do Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos Membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Condição Pós-Covid-19 ou Long Covid

O termo “Long Covid” em inglês (Covid Longo em português) foi usado pela primeira vez pela arqueóloga Elisa Perego, do University College London, a 20 de maio de 2020, como um #hashtag do Twitter. Sem ter consciência das implicações futuras da etiqueta que acabara de criar, Elisa Perego apenas pretendia retratar e alertar para queixas que inexplicável e inesperadamente persistiam por várias semanas ou meses após a infeção inicial por SARS-CoV-­2. De referir, também, que é a primeira vez que uma etiqueta das redes sociais é utilizada para denominar uma nova condição ou doença.

Esta nova realidade clínica e o número significativo de doentes que partilhavam queixas muito duradoiras com consequente impacto na utilização de recursos dos sistemas de saúde levou à progressiva consciencialização desta entidade, de que resultou a publicação de vários artigos nas revistas médicas ainda no decurso de 2020 e, finalmente, com a publicação a 6 de outubro de 2021 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) do documento “A clinical case definition of post COVID-19 condition by a Delphi consensus”.

Segundo a OMS, a condição pós-Covid-19 ocorre em indivíduos com uma história provável ou confirmada de infeção por SARS-CoV-2, geralmente 3 meses após o início da Covid-19 com sintomas que persistem durante pelo menos 2 meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Este documento realizado através de um consenso pela metodologia Delphi contou com a colaboração de várias dezenas de especialistas de todas as regiões e continentes, com destaque para a Europa, América do Norte e Austrália, veio estabelecer uma uniformização de conceitos (linguagem comum) de modo a promover a investigação e a imprescindível comparação dos diferentes estudos e resultados.

Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou a norma 002/2022, de 17/03/2022, intitulada “Covid-19: Condição pós-CovidD-19” com o objetivo de melhorar a identificação destes doentes, estabelecer critérios de referenciação, reabilitação e continuidade de cuidados. Segundo informação disponível no site da DGS, esta norma encontra-se presentemente em atualização.

Ainda não há dados definitivos sobre a incidência da Long Covid em função de diferentes variáveis, tais como o impacto das variantes e, em particular, da Ómicron, bem como da vacinação e das diferentes modalidades terapêuticas, onde se incluem os antivíricos (e.g., nirmatrelvir/ritonavir, remdesivir e molnupiravir) e os anticorpos monoclonais (e.g., sotrovimab, tixagevimab+cilgavimab e bebtelovimab).

Estudos recentes publicados em maio deste ano pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention) apontam para que um em cinco (20%) sobreviventes da CovidD-19 com idade entre os 18 e os 64 anos e um em quatro (25%) sobreviventes com idade igual ou superior a 65 anos mantém, pelo menos, uma manifestação que pode ser atribuído à infeção prévia por SARS-CoV-2.

E, posteriormente, em agosto, um estudo publicado no The Lancet por uma equipa dos Países Baixos, calculou que a Long Covid possa ocorrer em cerca de 13% dos doentes. Se atendermos ao número de doentes infetados, à ausência de biomarcadores específicos, ao desconhecimento dos mecanismos fisiopatológicos e à inexistência de intervenções terapêuticas dirigidas podemos estar perante uma nova e decisiva sobrecarga dos serviços de saúde. Aquilo a que alguns autores já chamam de pandemónio Long Covid!

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