Cerca de 60% das doenças infeciosas humanas podem ser zoonóticas

Segundo a diretora clínica do Hospital Veterinário do Atlântico, a saúde de humanos e animais de estimação está intrinsecamente ligada.

A campanha #protectourfuturetoo quer alertar tutores e médicos veterinários para a importância de proteger os animais de estimação das consequências das alterações climáticas.

As alterações climáticas têm levado a que as estações mais quentes se prolonguem durante mais tempo, criando condições propícias para a vida dos parasitas durante quase todo o ano. Existe algum parasita que se esteja a transformar numa particular ameaça?

Pulgas, carraças, mosquitos, insetos e outros parasitas que anteriormente eram típicos das estações do ano mais quentes, hoje estão ativos ao longo de todo o ano. Por exemplo, as carraças apenas necessitam de temperaturas acima dos 7○C para manterem a sua atividade, o que implica que no nosso país possam, em algumas regiões, estar ativas durante todo o ano.  Um dos grandes problemas do alargamento da atividade dos parasitas é o facto de a maioria dos tutores não estar alerta para a importância de proteger o seu animal de companhia naqueles que são considerados os meses do ano mais frios. Desta forma, os animais acabam por ficar mais expostos a pulgas, carraças, mosquitos e insetos que podem veicular doenças potencialmente graves, como seja a Bartolenose, a Babesiose, a Dirofilariose e a Leishmaniose.

Num evento organizado pela MSD Animal Health, a propósito da campanha #protectourfuturtoo, abordou-se a questão da migração de alguns parasitas dos países europeus do Sul para os países nórdicos. Mesmo estando Portugal no sul da Europa, existe algum fenómeno de migração que lhe mereça destaque?

Existe pouca informação sobre esta questão, no entanto os movimentos migratórios dos parasitas e as viagens cada vez mais frequentes dos animais de companhia para locais fora da sua área de residência aumentam a probabilidade de surgirem no nosso país novos parasitas com os quais teremos de nos preocupar. Por exemplo, sabemos que a Doença de Lyme, uma doença transmitida por carraças com maior incidência nos países do Norte e Centro da Europa, tem vindo a ganhar cada vez mais importância nos países do sul da Europa.

Alguns desses parasitas podem provocar doenças em animais que são transmissíveis aos humanos, as ditas zoonoses. Pode dar alguns exemplos?

Existem parasitas que são transmitidos diretamente por contacto, por exemplo, de um cão ou gato. Há também parasitas que são adquiridos por ingestão acidental de ovos presentes no ambiente, como a Toxocarose com risco de infeção em humanos. Depois há as zoonoses transportadas por vetores – a Leishmaniose é um bom exemplo de uma doença provocada por um protozoário [um tipo de microorganismo unicelular] transmitido tanto a cães, como a gatos e a humanos, através de flebótomos [tipo de inseto] e com uma considerável distribuição endémica em Portugal. A Leishmaniose afeta mais de cinco milhões de cães no sul da Europa. Podemos também pensar em Dirofilariose, uma doença provocada pelo parasita dirofilaria, sendo que a Dirofilaria repens coloca um sério problema em alguns países. A Doença de Lyme (Borreliose), também uma zoonose, é a segunda doença de propagação mais rápida nos EUA. A Organização das Nações Unidas alerta para o facto de cerca de 60% das doenças infeciosas humanas poderem ser zoonóticas e que novas doenças infeciosas potencialmente zoonóticas continuam a surgir.

E tendo em conta as alterações climáticas, que cuidados com os animais de companhia devem existir ao longo do ano?

É fundamental estimular a vigilância ativa. A desparasitação deve ser efetuada todo o ano, utilizando os tratamentos desparasitantes adequados às proteções que se pretendem. É importante também pesquisar a presença de carraças após cada caminhada, nos cães e em si próprio, promover a escovagem regular, identificar habitats chave – áreas de floresta e vegetação são particularmente atrativas para as carraças que aqui permanecem a aguardar que os animais passem, e locais quentes com poças de água são muito apreciados pelos mosquitos para se reproduzirem, por exemplo –, reforçar a importância da higiene e limpeza dos locais de maior permanência dos animais, removendo detritos que podem fornecer abrigo aos parasitas e drenando pequenas poças. Os tutores devem manter padrões de higiene junto dos seus animais de companhia, incluindo lavagem regular das mãos. Também é importante alertar para os riscos das viagens – quando os tutores desejam viajar devem estar conscientes dos potenciais riscos.

E como podem as alterações climáticas também impactar no comportamento animal, nomeadamente na reação às temperaturas mais elevadas durante todo ano ou às tempestades cada vez mais fortes?

O aumento do tempo extremamente quente pode representar maior risco de stress associado ao calor e insolação. Os animais de companhia podem ser vulneráveis a estas condições em temperaturas tão baixas como 20○C e o risco torna-se maior quando as temperaturas passam os 30○C. O risco aumenta em raças com pelagem longa, normalmente adaptadas a temperaturas mais baixas, e animais braquicéfalos [conhecidos pelo focinho achatado] que têm dificuldade em dissipar o calor através do estreito trato respiratório superior. Mesmo quando as temperaturas não são particularmente elevadas, a alteração das estações do ano obriga os nossos animais a desviarem-se das suas rotinas. Muitos gatos e cães, particularmente animais mais velhos, lutam para se adaptarem à mudança e isso pode representar um desconforto considerável. Considerando o exemplo do exercício físico, à medida que as temperaturas aumentam, os tutores podem ter menos probabilidades de passear os seus cães, aumentando o risco de obesidade.

Outro desafio é colocado pelos eventos extremos, como trovoadas, que se estão a tornar mais frequentes devido às mudanças no clima. Estas trovoadas podem causar ansiedade entre os animais de companhia e agravar ou desencadear outras condições. As mudanças nos padrões do clima podem alterar significativamente o humor dos animais, como é visível pelo aumento dos casos de perturbações afetivas sazonais (podendo originar ansiedade). Em cães e gatos, a disfunção cognitiva, ansiedade, medo e fobias, podem estar relacionadas com as alterações do clima. Também não devemos menosprezar o efeito das mudanças da sazonalidade nos padrões e reprodução. Isto nota-se na população felina, que geralmente se reproduz durante os meses mais quentes. Atualmente, os gatos continuam a reproduzir-se no Inverno, o que pode significar mais gatinhos errantes.

A que sinais devem os tutores estar atentos?

Os tutores devem manter-se atentos a sinais como letargia, tosse, dificuldade em andar, relutância ao exercício, apetite reduzido, mucosas pálidas, fadiga após exercício ou alterações na cor das fezes ou urina e devem contactar o seu médico veterinário. Mesmo que o animal pareça simplesmente um pouco em baixo, esta é uma boa razão para contactar o médico veterinário que saberá a melhor forma de proceder. Tendo a noção de que as alterações climatéricas também têm impacto no comportamento do animal, o tutor, conhecendo o animal melhor que ninguém, deve estar alerta para alterações de comportamento como a apatia, miar ou ladrar excessivo, limpeza compulsiva, irritabilidade ou comportamento agressivo.

A pandemia causada pelo novo coronavírus pode ser uma boa oportunidade para abordar as questões de Saúde Pública e o conceito de “Uma Só Saúde”, para humanos e animais de companhia?

“Uma Só Saúde” pode ser definida como o esforço multidisciplinar – trabalhando local, nacional e globalmente – para alcançar a melhor saúde para as pessoas, animais e o nosso ambiente. A nossa saúde e a saúde dos nossos animais de companhia estão intrinsecamente ligadas. Há muitas doenças que passam dos parasitas para os animais de companhia que também podem passar dos parasitas para as pessoas. A saúde das pessoas, dos animais e do ambiente está interligada. A comunidade científica estima que mais de seis em cada dez doenças infeciosas que afetam o homem podem ser disseminadas a partir dos animais.

RV/SO

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