5 Nov, 2021

AVC. “Metade dos indivíduos com 50 anos já apresenta, pelo menos, três fatores de risco”

Segundo o vice-presidente da SPAVC, Vítor Tedim Cruz, "rever o controlo destes fatores, anualmente, com o seu médico de família é um passo crucial" na prevenção de eventos como o AVC, ou enfarte agudo do miocárdio.

Assinalou-se a 29 de outubro o Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral (AVC), a principal causa de morte em Portugal, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC), Vítor Tedim Cruz, reforça a necessidade de evitar os principais fatores de risco, através da adoção de um estilo de vida saudável.

 

O fenómeno dos acidentes isquémicos transitórios (AIT) é ainda desconhecido pela maioria dos portugueses. Quais são as principais diferenças entre AVC e AIT?

Um AIT corresponde habitualmente a um défice neurológico transitório, de menor duração e menor gravidade do que um AVC. De um modo simples, num AIT, a resolução completa dos défices (falta de força, alteração de linguagem, outros défices cognitivos, motores ou sensitivos), do ponto de vista clínico, também se acompanha da ausência de lesões identificadas no cérebro, através da tomografia computorizada do crânio cerebral, mas também através de uma ressonância magnética cerebral.

No entanto, um acidente isquémico transitório é em tudo semelhante a um AVC. Os fatores de risco são os mesmos, a fisiopatologia é em tudo semelhante e os riscos de recorrência ou de ocorrência de um AVC são também idênticos. O risco de doença vascular cerebral e demência vascular também está presente em ambos. Os AIT não podem, por isso, ser encarados como um “pequeno AVC” ou “AVC minor”.

 

Quais os dados mais atualizados de que dispomos, relativos a episódios de AVC e AIT em Portugal?

Tendo em conta que os estudos de incidência e prevalência de AVC e AIT são muito exigentes, do ponto de vista científico, é difícil que haja uma atualização anual dos dados.

Desta forma, reforço dois estudos cientificamente robustos, realizados na população portuguesa pelo grupo de investigação do Professor Manuel Correia. Podemos de um modo simples dizer que para cada quatro episódios de AVC, existirá um AIT em Portugal.

Uma publicação interessante de 2020, baseada em dados do Global Burden of Disease no contexto europeu, assinala que em Portugal poderá existir uma ligeira redução de incidência nos próximos anos, apesar do envelhecimento, face a outros países europeus, muito graças ao sucesso no controlo do tabagismo.

 

Enquanto vice-presidente da SPAVC, que medidas acha que devem ser tomadas de modo a diminuir a incidência de AVC a nível nacional?

A redução da incidência de AVC na população é um dos objetivos mais difíceis de atingir. Os principais fatores de risco vascular modificáveis são muito frequentes e dependentes de estilos de vida – e.g.: hipertensão arterial (HTA), colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo – sendo que metade dos indivíduos, quando atingem os 50 anos de idade, já apresenta pelo menos três destes fatores.

Rever o controlo destes fatores, anualmente, com o seu médico de família é um passo crucial. Um outro aspeto importante é garantir o acesso a prevenção secundária a todos os doentes identificados como de elevado risco vascular, muitas vezes depois de um evento como um AIT, AVC ou EAM que motiva uma avaliação vascular mais extensa.

Todas as oportunidades para reduzir o risco individual e coletivo são cruciais nesta luta permanente contra o AVC.

 

No que consiste a campanha “Fast Heroes 112” criada pela SPAVC?

A campanha tem como principal missão transformar crianças entre os cinco e os nove anos, em todo o mundo, nos “super-heróis” lá de casa, essencialmente, através de atividades educativas e interativas realizadas com o apoio dos professores e das escolas. Desta forma, as crianças têm como missão educar pelo menos dois “Grandheroes” (“Avós Heróis”), através de diversas atividades programadas.

A iniciativa conta com uma gama de atividades para serem implementadas nas escolas e em casa que giram à volta de quatro super-heróis: Francisco (a Face), Fernando (a Força) e Fátima (a Fala) são três super-heróis reformados que lhes vão ensinar os três principais sintomas de AVC. Já Tomás (o Tempo), reforça a importância de agir de forma atempada em caso de AVC.

Pretende-se esclarecer esta faixa etária relativamente aos sintomas do AVC para que estas saibam rapidamente identificar quando um familiar, como um dos seus avós, estiver a ter um. Desta forma, é possível garantir que os doentes chegam ao hospital de forma atempada, evitando consequências mais graves e ajudando a reduzir estes números.

A campanha internacional “Fast Heroes” é uma iniciativa desenvolvida em parceria com o Departamento de Políticas Educativas e Sociais da Universidade da Macedónia, conta com o apoio da Organização Mundial de AVC, da SPAVC e da Iniciativa Angels. Os materiais estão já adaptados para várias línguas, incluindo português.

 

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