As 7 verdadeiras preocupações no SNS
Medicina Interna ULSSA

As 7 verdadeiras preocupações no SNS

Acreditamos em mentiras tantas vezes repetidas, que aceitamos como verdades. As democracias, sucumbem perante a profusão de algoritmos, que ordenam às nossas redes o que podemos ver e deturpam a nossa vontade. Em vez de factos comprovados pela ciência ou por um jornalismo sério, vivemos de perceções superficiais.

Vem isto a propósito de nos darem notícias dum suposto caos de corrupção no SNS, para nos desviarem das verdadeiras preocupações em que devemos estar focados na Saúde. É uma forma mais subtil de engano. O escândalo, desvia a atenção daquilo que realmente importa.

Através dum sistema remuneratório incentivado pelo Estado, houve um médico que ganhou mundos e fundos a operar excrescências da pele. Embora com um atraso difícil de explicar, os gestores do Hospital de Santa Maria lá deram conta do excesso, pelo que decorre a investigação competente para apurar eventuais infrações ou abusos. Uma médica resolveu contribuir para o emagrecimento da população de grande parte do País e passou receitas sem jeito. Haverá receitas de 23 embalagens de Ozempic para um mês duma única pessoa. Mesmo para um doente diabético, não há explicação possível. Com as receitas eletrónicas, todos os médicos são passíveis de escrutínio e as situações fora da norma, são comunicadas à Instituição prescritora. Também aqui há um atraso inexplicável, mas a situação foi detetada e já está nas mãos da justiça. Duas funcionárias dum Centro de Saúde, resolveram atribuir números de utente a imigrantes, causando enormes prejuízos ao SNS. Já foram suspensas de funções e estão a contas com os tribunais. Portanto, como em qualquer País civilizado, há órgão competentes para investigar (o IGAS, a Polícia Judiciária e a Procuradoria Geral da República), que estão a cumprir o seu papel, e levarão os arguidos à presença do Juiz, que lhes determinará a culpa.

Parecia-me que tudo estava a decorrer dentro da normalidade, quando comecei a notar a forma como o Governo e até os candidatos presidenciais da sua área política, agitavam a bandeira da corrupção, como se fosse a mãe de todos os males do SNS! De repente, aqueles três casos de eventual fraude, eram a causa da degradação do sistema de saúde! E, para que não restassem dúvidas, foram buscar o Juiz Carlos Alexandre para presidir a uma Comissão Anticorrupção do SNS, nada nos sendo dito quais os poderes e os meios que lhe darão para o cumprimento da missão.

A minha intenção neste artigo, é que esta manobra de diversão, não nos tolde o discernimento acerca das 7 verdadeiras preocupações no SNS:

  • A catastrófica redução dos quadros médicos dos Serviços, entregou as Urgências das especialidades básicas a tarefeiros, sem qualquer vínculo à Instituição;
  • As diretivas do Governo para a contratação de pessoal no SNS em 2025 é de um máximo de 1,9% (em 2024 foi de 5%);
  • 20% das vagas de especialidade postas a concurso ficaram desertas, porque os jovens médicos preferem optar pelo trabalho à tarefa no SU ou ir para o estrangeiro;
  • 48% das vagas de Medicina Interna, 25% das vagas de Medicina Intensiva e mais de 200 vagas de Medicina Geral e Familiar não foram ocupadas. Isto é, as especialidades médicas basilares no hospital e no ambulatório, não têm atratividade;
  • Em março de 2025, 2342 camas dos hospitais de agudos estavam ocupadas por casos sociais (subida de 8% em relação a 2024);
  • Os bebés que nascem repetidamente na berma da estrada, fazem dos bombeiros heróis dos fogos e dos partos, e dão a imagem dum País atrasado;
  • Continuamos sem definir de forma consistente, o que queremos que façam os Hospitais Públicos e Privados no Sistema de Saúde, para além aceitarmos como bom que Médicos e Enfermeiros trabalhem nos dois setores, sem qualquer limitação;

A generalização da suspeição de corrupção no SNS, corrói a confiança e a vontade dos milhares de trabalhadores mal pagos, que asseguram cuidados de saúde de qualidade, por puro espírito de missão. Apelo ao bom senso dos políticos, para que não utilizem manobras dilatórias, para que aqueles que fazem funcionar o SNS e ainda acreditam nele, não se juntem a tantos que já desistiram!

 

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