30 Nov, 2021

Antibióticos. “Doentes não se devem automedicar nem alterar doses”

"A otimização terapêutica pode ser efetuada mediante a consciencialização [...], nomeadamente não utilizando os antibióticos em infeções não bacterianas, como gripes ou constipações", aconselha o especialista.

Na sequência da Semana Mundial de Conscientização Antimicrobiana, este ano assinalada de 13 a 19 de novembro, o Coordenador do Grupo de Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos do grupo Luz Saúde e do Hospital Beatriz Ângelo, Carlos Palos, reforça a importância de um adequado uso dos antibióticos. Segundo o especialista em Medicina Intensiva e Medicina Interna, a consciencialização sobre uma adequada utilização dos antibióticos é a mensagem-chave a ser transmitida, de modo a conseguir prevenir a resistência antimicrobiana (RAM).

 

 Existe uma consciencialização adequada sobre RAM entre os profissionais de saúde, decisores políticos de saúde e doentes?

A RAM tem sido gradualmente reconhecida como um problema de Saúde Pública internacional. A Organização Mundial de Saúde (OMS), o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e os diversos governos têm colocado o tema na sua agenda, embora, tal como para outros assuntos, a sua concretização tenha diferentes importâncias.

Em relação aos profissionais de saúde, essa consciencialização tem vindo a ser crescente, começando na formação pré-graduada de todos os envolvidos no circuito do antibiótico. Os prescritores têm ainda um caminho importante a percorrer, apesar das melhorias observadas nos últimos anos. As campanhas de sensibilização dos cidadãos têm contribuído para a melhoria da situação, embora, tal como anteriormente referido, exista um espaço amplo de melhoria. Prescritores e utilizadores tendem a considerar a existência do problema como sendo dos outros e não de si mesmos.

Qual é o impacto económico provocado pela RAM?

As infeções causadas por bactérias resistentes aos antibióticos obrigam ao prolongamento de internamentos, utilização de recursos mais diferenciados a nível farmacológico, de recursos humanos e de unidades de saúde, o que, de forma conjugada, contribui para o aumento dos custos de saúde.

Segundo estimativas publicadas pelo ECDC e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a cada ano ocorrem um total de 671.689 infeções no espaço EU/EEA, causando 33.110 mortes, com um custo de cerca de 1,1 mil milhões de Euros. Neste âmbito, Portugal poderá anualmente vir a ser um dos países mais afetados da OCDE entre 2015-2050, com 1.167 mortes, com um custo de 50 milhões de dólares, por paridade de poder de compra.

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Considera que o arsenal terapêutico disponível é suficiente para os profissionais de saúde?

Salvo situações de algumas infeções, ainda pouco prevalentes, de bactérias com resistência à maioria dos antibióticos, o que acontece nas bactérias Gram negativas, como a Klebsiella com resistência aos carbapenemos, continuamos a ter terapêuticas eficazes. Nos últimos anos, a indústria farmacêutica tem introduzido novos fármacos neste âmbito.

Como pode ser otimizado o tratamento antimicrobiano dos doentes?

A otimização terapêutica pode ser efetuada mediante a consciencialização e conhecimento sobre a adequada utilização de antibióticos, nomeadamente não os utilizando em infeções não bacterianas, como gripes ou constipações. Por outro lado, os doentes devem ter a consciência de que não se devem automedicar nem alterar a dose ou a duração da toma dos antibióticos. Da parte dos prescritores, a melhoria das práticas de prescrição passa igualmente pela sensibilização e educação e pela disponibilização de métodos de diagnóstico que permitam complementar a avaliação clínica, no caso dos cuidados ambulatórios.

Que papel deve desempenhar o diagnóstico etiológico na luta contra a resistência antimicrobiana? Qual é a importância do diagnóstico rápido?

O conhecimento do microrganismo causador da infeção é um passo importante para a melhoria da qualidade de prescrição, que é um processo resultante de uma análise probabilística do contexto, com base em elementos clínico-epidemiológicos. Deste modo, a utilização racional de meios de diagnóstico mais rápidos e precisos, no âmbito do conceito de diagnostic stewardship, permite uma melhoria em termos de qualidade e segurança, com diminuição de prescrições inapropriadas de antibióticos.

Qual é a relação entre microbiologistas e medicina intensiva na luta contra estas resistências?

O papel da microbiologia é essencial e central na adequação das terapêuticas e, deste modo, na luta contra as resistências. Os doentes com infeções graves, nomeadamente sepsis ou choque séptico, são doentes em que tendencialmente se utiliza um leque mais alargado de antibióticos e até de antifúngicos. O conhecimento da microbiologia e a intervenção dos microbiologistas, como clínicos presentes nas unidades e serviços de medicina intensiva, constitui uma mais-valia para que se possam fazer as adaptações microbiológicas, descalando alguns dos antibióticos empiricamente iniciados, logo que se conheçam os resultados microbiológicos e feito o devido enquadramento clínico.

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