Anemia na população geriátrica
A anemia é um problema de saúde pública, afetando cerca de 27% da população mundial.1 Em Portugal, o estudo EMPIRE demonstrou que a prevalência de anemia na população portuguesa, incluindo aqueles com ³65 anos, atinge os 21%, correspondendo, em mais de metade dos casos (53%), a anemia ferropénica.2
Na população geriátrica, a gestão da anemia deve merecer especial atenção. Não só porque a anemia é um diagnóstico frequente nesta faixa etária, mas também, porque nem sempre a ferropenia é a causa da anemia.
A etiologia da anemia nesta faixa etária é complexa e inclui múltiplas possibilidades como carência nutricional; hemorragias, nomeadamente gastrointestinais (p. ex. angiectasias), muitas vezes potenciadas pelo uso de fármacos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários; induzida por fármacos (polimedicação dos doentes geriátricos); neoplasias não hematológicas (p. ex. tumores gastrointestinais, outros carcinomas com metastização sistémica ou da medula óssea); doença metabólica, como diabetes mellitus, hipotiroidismo ou hipertiroidismo; doença renal crónica; doença inflamatória crónica (p. ex. artrite reumatoide, osteomielite, úlceras crónicas nas pernas) e doenças hematológicas como mieloma múltiplo e síndrome mielodisplásico.3
Assim, o tratamento da anemia na população geriátrica não é linear e está dependente, não só da etiologia, mas também, da gravidade da anemia, da sintomatologia que o doente apresenta, do grau de autonomia e dependência do doente e das suas comorbilidades. Nesta faixa etária, mesmo uma anemia leve pode afetar substancialmente as capacidades física e cognitiva, bem como a qualidade de vida do nosso doente. Sabemos, atualmente, que níveis baixos de hemoglobina estão associados a um risco aumentado de quedas e fraturas. A presença de anemia está, também, significativamente associada a internamentos mais frequentes e mais prolongados. 3
Mais se acrescenta que, se em muitos casos, a suplementação oral ou o controlo/estabilização da doença inflamatória subjacente podem corrigir a anemia. Noutros, as terapêuticas de médio/longo prazo com fármacos endovenosos, com eritropoietina ou transfusão de componentes sanguíneos são necessárias para controlar a anemia. Desta forma, a eficácia e o benefício destes tratamentos precisam de ser equilibrados com a segurança e a qualidade de vida do doente. Por isso, a abordagem diagnóstica e terapêutica da anemia na população geriátrica deve ser multidisciplinar.
O Médico de Família está numa posição privilegiada para diagnosticar a anemia e tem um papel fundamental na orientação da população geriátrica. Deve ser capaz de reconhecer a diferença entre os diversos tipos de anemias, saber investigar as causas etiológicas, determinar o melhor tratamento a instituir e identificar quais os doentes que devem ser referenciados a consulta hospitalar.
A geriatria e a anemia fazem parte da prática clínica do Médico de Família e é fundamental que este se sinta capacitado para gerir as situações clínicas, onde as duas entidades se encontram.
Bibliografia:
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Kassebaum NJ; GBD 2013 Anemia Collaborators. The global burden of anemia. Hematol Oncol Clin North Am. 2016;30(2):247-308.
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Fonseca C, Marques F, et al. Prevalence of anaemia and iron deficiency in Portugal: the EMPIRE study. Intern Med J. 2016 Apr;46(4):470-8.
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Stauder R, Valent P, Theurl I. Anemia at older age: etiologies, clinical implications, and management. 2018 Feb 1;131(5):505-514.






