24 Jun, 2021

Ana Rosa Costa: “Pandemia não alterou a necessidade de uma contraceção segura e eficaz”

Antes da pandemia, cerca das 40% das mulheres entre os 35 e os 39 anos não iam a consultas de planeamento familiar. Os especialistas acreditam que este valor se pode ter agravado.

O SaúdeOnline falou com a ginecologista Ana Rosa Costa, Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia e Obstetrícia do CHU S. João e vice- presidente da SPDC (Sociedade Portuguesa da Contraceção), de modo a perceber porque é que tantas mulheres não frequentam estas consultas, e qual o impacto da pandemia na afluência a estas consultas.

Antes da pandemia covid-19 mais de 40% das mulheres entre os 35 e 39 anos não ia a consultas de planeamento familiar. Na sua opinião quais são as razões para isto acontecer?

Diria que pode estar relacionado com a busca de informação contracetiva noutras fontes, como, por exemplo, via internet ou amigos, e também com o acesso direto à contraceção hormonal nas farmácias. Atendendo ao escalão etário, poderão tratar-se de mulheres que já tiveram o número desejado de filhos e optaram por métodos reversíveis de longa duração que têm eficácia idêntica à da esterilização cirúrgica, e que só necessitam de ser substituídos entre 3 a 10 anos, ou optaram por realizar esterilização cirúrgica.

A pandemia levou a que muitas consultas fossem adiadas ou canceladas. Com o desconfinamento, porque é que as consultas de planeamento familiar devem de ser uma prioridade para os utentes?

Apesar de a pandemia ter alterado muitas das práticas de cuidados de saúde, não alterou a necessidade de uma contraceção segura e eficaz. É importante o aconselhamento para que as mulheres possam iniciar (ou mudar para) o método contracetivo mais adequado às suas necessidades, podendo obter alguns benefícios não contracetivos e melhorar o seu estado de saúde, evitando o risco de uma gravidez não planeada.

Qual a importância das consultas de planeamento familiar?

A consulta de planeamento familiar destina-se a fornecer informação e aconselhamento contracetivo correto e, de forma clara, para que a mulher possa optar pelo método que melhor se adapta às suas necessidades e expetativas, permitindo-lhe planear quando e quantos filhos quer ter.

Na consulta de planeamento familiar, os riscos e benefícios dos diferentes métodos disponíveis são avaliados de forma individual para cada mulher, abordando questões relacionadas com valores (incluindo a aceitação de uma gravidez não planeada em caso de falha do método), crenças, frequência de administração do método, questões económicas (no caso de contracetivos não comparticipados), entre outras. Esta decisão partilhada, entre médico e utente, e informada irá permitir uma aceitação e maior adesão ao método, reduzindo, assim, a taxa de gravidez não desejada.

A consulta de planeamento familiar constitui também uma oportunidade para informação e rastreio de infeções sexualmente transmissíveis.

Quais os riscos associados à não frequência das consultas de planeamento familiar?

A não frequência das consultas de planeamento familiar acarreta não só um maior risco de gravidez não planeada e não desejada, nomeadamente de gravidez na adolescência, como também um maior risco de infeções sexualmente transmissíveis (IST) não prevenidas, não diagnosticadas e não tratadas atempadamente, que podem ter consequências na fertilidade futura. Pode ainda significar riscos para a saúde, pela opção por métodos não adequados por falta de informação correta.

Estas consultas estão muito associadas ao género feminino, mas qual é a importância da frequência dos homens nestas consultas?

Em 1963, quando a pílula foi comercializada na Europa (e em Portugal), só podia ser vendida a mulheres casadas e com a autorização do marido. Atualmente, a mulher é livre de escolher o método contracetivo que quer usar e o número de filhos que quer ter e não precisa da autorização do marido/parceiro para tal. Contudo, é importante o compromisso do casal em relação à escolha e uso de alguns métodos. É importante que o homem perceba que o coito interrompido e o preservativo não são os únicos métodos que pode usar. Quando não quer ter filhos, pode optar pela realização de vasectomia, que é mais simples e com menos riscos do que a laqueação na mulher e que não vai afetar a sua vida sexual, nem acarreta riscos para a sua saúde. Além disso, a consulta de planeamento familiar poderá ajudar a esclarecer dúvidas e mitos relativamente a alguns métodos usados pela mulher, como, por exemplo, os dispositivos intrauterinos, o anel vaginal, a contraceção de emergência, entre outros.

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