“A integração dos cuidados prestados leva a que o doente se sinta mais e melhor acompanhado”
Leonor Gomes é a nova Diretora do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da Unidade Local de Saúde de Coimbra, que soma 50 anos de atividade. Em entrevista, a especialista fala deste seu novo desafio, dos prós e contras da integração dos cuidados em ULS e dos objetivos das jornadas a que preside, assim como das problemáticas obesidade e diabetes.

Iniciou a sua formação especializada em Endocrinologia e Nutrição no Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da, atual, ULS Coimbra, e, em abril de 2024, foi nomeada Diretora Interina pelo Conselho de Administração, função que assumiu desde essa data. Como encara o desafio de dirigir um serviço hospitalar desta dimensão?
O Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da ULS de Coimbra é um dos maiores e mais antigos serviços de Endocrinologia a nível nacional. O corpo humano é constituído, atualmente, por 65 profissionais. Teve anteriores Diretores que foram pessoas de exceção que trabalharam para deixar um legado histórico notável.
Assim, penso que é entendível que a Direção do Serviço se colocou para mim como uma enorme responsabilidade. Senti que a minha missão seria continuar o legado deixado e, se possível, melhorá-lo. O Serviço teve e tem um conjunto de pessoas extraordinárias, quer sob o ponto de vista profissional quer humano. São estas pessoas que fazem o Serviço. Defraudá-las seria, para mim, impensável. Por outro lado, a motivação da existência do Serviço são as pessoas que a nós recorrem e que têm, maioritariamente, doenças crónicas pelo que a confiança depositada por elas tem de ser, necessariamente, mantida bem como o nível de cuidados de saúde prestados.
“O Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da ULS de Coimbra é um dos maiores e mais antigos serviços de Endocrinologia a nível nacional”
O Serviço faz 50 anos. Da experiência e da informação que tem, quais os principais marcos?
O primeiro marco foi a sua criação, a 1 de novembro de 1974, pelo Dr. Manuel Martins Almeida Ruas, fundador e primeiro diretor do Serviço. Nasceu de um embrião autónomo, a Unidade de Endocrinologia e Doenças Metabólicas, integrada nos Hospitais da Universidade de Coimbra e que, em 17 de julho de 1976, passou a ser um serviço dos referidos hospitais.
O segundo marco foi o desenvolvimento e afirmação da Endocrinologia e do Serviço, na instituição e a nível nacional. Houve um núcleo inicial essencial que, para além do Dr. Almeida Ruas, cumpriu estes objetivos, composto pela Prof.ª Doutora Manuela Carvalheiro, Dr. Francisco Carrilho, Dr.ª Margarida Bastos, Dr.ª Isabel Paiva, que mais tarde vieram a ser Diretores do Serviço, Dr.ª Elizabete Geraldes, Chefe de Serviço, Dr.ª Beatriz Campos, que veio a ser Diretora do Serviço de Endocrinologia do IPO de Coimbra, e Dr. Simões Pereira, que veio a ser Diretor do Serviço de Endocrinologia do Hospital Infante D. Pedro de Aveiro.
Outro marco foi a passagem dos Hospitais da Universidade de Coimbra do edifício antigo para o atual, que veio permitir a consolidação do trabalho que vinha a ser desenvolvido ao possibilitar expandir as atividades do Serviço. A massa crítica existia, o espaço era exíguo, e agora havia a possibilidade de concretização.
A diferenciação e desenvolvimento das áreas clínicas, nomeadamente a consulta externa, com consultas gerais, diferenciadas e multidisciplinares, o internamento, o hospital de dia e a urgência de Endocrinologia vieram dar uma visibilidade justa ao Serviço e à Especialidade.
Outro marco que considero relevante foi o doutoramento da Prof.ª Doutora Manuela Carvalheiro, em 1998, que permitiu que fosse assumida a regência da disciplina de Endocrinologia do curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, atual Unidade Curricular de Endocrinologia do Mestrado Integrado de Medicina. Até então o Serviço sempre tinha colaborado no ensino pré-graduado, com o Dr. Almeida Ruas, seu pioneiro, e com o corpo docente que assegurava a docência das aulas práticas, contudo, aquele marco veio reforçar e permitir a expansão da vida académica e científica do Serviço.
A excelência e atualidade do tratamento da diabetes, nomeadamente do tipo 1, foi e é, característica reconhecida do Serviço. Neste âmbito, outro marco ocorreu na área das tecnologias em diabetes, nomeadamente nos sistemas de perfusão subcutânea contínua de insulina (PSCI) e monitorização contínua da glicose. O Serviço foi dos primeiros a colocar aqueles sistemas, em 1996, e atualmente coordena um Centro de Tratamento PSCI, um dos maiores centros públicos do país.
A realização de ecografia da tiroide e punção guiada por ecografia para citologia, desde cerca de 2005, foi igualmente um passo relevante, passou a ser possível uma abordagem mais precisa em patologias muito frequentes, como é exemplo a doença nodular da tiroide, mas não só. Gostaria, contudo, de referir que todos os médicos do Serviço, desde os anos 80, já realizavam punção manual o que, na altura, era raro nos serviços de Endocrinologia.
Recentemente, já com a integração do Serviço numa ULS e no âmbito da prestação de cuidados centrados e integrados ao cidadão, está em implementação um percurso clínico integrado para a diabetes tipo 2 que poderá vir a constituir mais um marco nos cuidados de saúde prestados.
“Senti que a minha missão seria continuar o legado deixado e, se possível, melhorá-lo. O Serviço teve e tem um conjunto de pessoas extraordinárias, quer sob o ponto de vista profissional quer humano”
Quais os seus principais objetivos enquanto Diretora?
Proporcionar os melhores e mais modernos cuidados de saúde ao cidadão que nos confia a sua condição de saúde; e melhorar a acessibilidade ao Serviço.
Proporcionar bem-estar e realização pessoal e profissional do corpo humano do Serviço. Incentivar o sentimento de pertença, “o vestir a camisola”, por um serviço público que tanto faz e pode fazer pelas pessoas com doenças endócrinas.
Continuar a elevar o conhecimento e dar a melhor formação pré e pós-graduada, pois o futuro será daqueles que formamos.
O Serviço que dirige está, agora, inserido numa ULS. Qual a sua opinião sobre a constituição das ULS no que respeita ao seguimento e tratamento da diabetes e de outras doenças endócrinas? Considera que esta alteração já está a ter algum impacto?
As ULS e em particular a ULS de Coimbra vieram trazer novos desafios. Devo dizer que a partilha de conhecimento e de cuidados prestados ao doente foi uma conduta que desde sempre foi característica do Serviço. O maior desafio que atualmente vejo é a dimensão, o envelhecimento da população e a evolução tecnológica que está a revolucionar, de alguma forma, a maneira de atuarmos. O âmago dos princípios das ULS já estava presente na nossa forma de trabalhar, mas, agora, teremos que o fazer de forma mais organizada e concertada utilizando metodologias facilitadoras.
Quais as principais alterações? Como tem estado a correr agora a articulação com os cuidados de saúde primários?
Em janeiro de 2024 foi-nos lançado um desafio, o desenho e implementação de um percurso clínico integrado para a diabetes tipo 2 (PCI da diabetes tipo 2) que envolve cuidados de saúde primários e hospitalares e diferentes profissionais ligados à área. Neste momento, está em fase de implementação e já há doentes que têm um telesseguimento digital. Penso que ainda é cedo para tirarmos conclusões, mas, aparentemente, quando o percurso estiver totalmente implementado é possível que venha a diminuir as vindas ao serviço de urgência, as hospitalizações e a melhorar a qualidade de vida dos doentes com maior sensação de acompanhamento e de segurança.
O estado pandémico que há pouco vivenciámos despoletou a evolução e utilização da tecnologia que passou a ser muito mais robusta na atividade clínica, nomeadamente no desenvolvimento da telessaúde, na consulta por via remota, na dinamização de plataformas com dados clínicos (exemplo dos valores da glicose na diabetes), de aplicações, etc. O próprio processo clínico informatizado e uniformizado veio a ser uma mais-valia fantástica de acesso à informação por parte de todos os cuidados de saúde (hospitalares, primários, continuados e ao domicílio) e para o próprio doente.
O tema central das jornadas é precisamente “A Endocrinologia numa ULS e o doente no centro do percurso”. Porque razão escolheram esta temática? Que arestas há ainda para limar?
Quando escolhemos este tema central confesso que nem estávamos certos de que este modelo iria para a frente, mas o Serviço tem, entre outras, uma enorme qualidade, que é o ser visionário, pelo que arriscámos e assim ficou o tema. Ao fim de um ano posso dizer que muito terá que ser feito, mas já não somos os mesmos de há um ano. A aproximação entre os diferentes cuidados, estreitou mais os laços entre as pessoas que são as verdadeiras obreiras da boa assistência. O contacto pessoal mais próximo, a integração dos cuidados prestados leva a que o doente se sinta mais e melhor acompanhado e, naturalmente, com melhor qualidade de vida.
Quais os principais objetivos delineados para estas jornadas?
Os objetivos são a partilha de conhecimento, em áreas muito frequentes e outras mais diferenciadas, para que o doente possa circular entre níveis de cuidados de forma segura.
Saudável convívio que é tão importante e facilitador de uma boa relação entre profissionais que se querem que trabalhem conjuntamente para um bem comum, que é a boa condição de saúde da comunidade que nos procura. Temos que dar resposta a cerca de 400 mil pessoas e se considerarmos a região centro serão cerca de 2 milhões de pessoas.
“Estas jornadas são o fruto do trabalho e entusiasmo do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da ULS de Coimbra, e das pessoas que vêm até nós e que em nós confiam”
Qual o ponto de situação do tratamento das duas pandemias – diabetes e obesidade – na zona centro do país?
A diabetes e obesidade são duas doenças altamente prevalentes, frequentemente associadas e que levantam inúmeras dificuldades de prevenção e de tratamento. Segundo o último Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico do Instituto Ricardo Jorge, 67,6% da população adulta portuguesa vive com excesso de peso, sendo que a prevalência de obesidade é de 28,7% e, segundo o último relatório do Observatório Nacional da Diabetes, 42,7% da população adulta portuguesa tem algum grau de intolerância à glicose, sendo que 14,1% tem diabetes. Estes números são avassaladores. Embora na sua génese estejam fatores genéticos, epigenéticos e ambientais, o seu tratamento depende muito dos fatores ambientais e comportamentais. No meu entendimento a prevenção e o tratamento das duas pandemias, como as apelida, está muito para além da abordagem por profissionais de saúde, é uma questão de educação para a saúde envolvendo não só o próprio, mas também a família, os cuidadores, a escola, os locais de trabalho, a comunidade, o poder político. É crucial a responsabilização dos envolvidos que detêm a capacidade de prevenir ou mitigar estas afeções. Como é que podemos diminuir a prevalência destas duas doenças se o estímulo ao consumo fácil de alimentos densamente calóricos, sedentarismo, estilo de vida stressante e desrespeitador dos ritmos circadianos ainda é tão grande? Tem havido algumas iniciativas dirigidas a este combate, mas que claramente são insuficientes. Já o aumento da incidência da diabetes tipo 2, associada ao envelhecimento, não se espera que venha a ser revertido. A zona centro do país, pela sua qualidade de vida e de cuidados de saúde prestados, parece-me que será uma região de eleição para instituir medidas de prevenção e de contenção das referidas pandemias.
É a primeira vez que preside a estas jornadas. Quais as suas expectativas para esta edição?
Estas jornadas são o fruto do trabalho e entusiamo do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da ULS de Coimbra, e das pessoas que vêm até nós e que em nós confiam. As minhas espectativas enquadram-se no que tem sido a tradição deste evento, que sejam úteis, que respondam às questões dos que até aqui vieram, que contribuam para aprimorar a assistência às pessoas com condições endócrinas, que permitam uma maior aproximação e convívio, enfim, que sejam bem-sucedidas para todos.
Finalmente, gostaria muito que fossem uma feliz memória comemorativa do cinquentenário do Serviço!
Sílvia Malheiro
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