Seis em cada dez mulheres em Portugal são afetadas por problemas sexuais e não pedem ajuda médica
Problemas sexuais, contraceção, menopausa, fertilidade e outros temas relacionados com a saúde da mulher continuam a ser pouco discutidos por muitas mulheres. A conclusão é do estudo Taboo, realizado em seis países europeus, incluindo Portugal.

Mais de seis em cada dez mulheres portuguesas experienciam problemas sexuais, mas a maioria nunca consultou um médico para as resolver, de acordo com o estudo Taboo. Os mais comuns são secura vaginal, redução/ausência de libido, ausência de orgasmo e relações sexuais dolorosas e afetam 65% das mulheres no geral. Contudo, a maioria nunca consultou um médico, o que indica que estes temas são considerados tabu.
Carla Rodrigues, coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, realça, em comunicado, que “sintomas como a secura vaginal, a dor durante as relações, a diminuição do desejo sexual ou a dificuldade em atingir o orgasmo não devem ser encarados como ‘normais’ ou inevitáveis”.
Como acrescenta: “Atualmente, dispomos de várias opções terapêuticas, desde medidas de educação e aconselhamento sexual, lubrificantes e hidratantes vaginais, tratamentos hormonais ou não hormonais, fisioterapia do pavimento pélvico e medidas de intervenção em terapia sexual, sempre adaptados às necessidades de cada mulher. Na maioria dos casos, há formas eficazes de melhorar os sintomas e de recuperar uma vida sexual satisfatória.”
Outros dos estigmas que se destacou no estudo está associado à maternidade, na medida que, no geral, 47% das mulheres portuguesas sentem pressão da família ou dos amigos em ser mães. Esta acontece sobretudo junto de quem decide não ter filhos, quem está a planear ou quem está a tentar há algum tempo, mas ainda não conseguiu engravidar.
Para Luís Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, “esta é uma pressão que conduz a que muitos casais se isolem socialmente, principalmente durante os períodos em que se estão a submeter a tratamentos ou a tentar engravidar, sem sucesso. Por isso, todos deveríamos aprender a evitar estes comentários, que têm impacto psicológico sobre quem está a viver a infertilidade”. O especialista lembra que o stress e a ansiedade são fatores com impacto negativo importante na resolução desta situação.
Já Amália Pacheco, presidente da Sociedade Portuguesa de Contracepção, acredita que “a falta de informação e de literacia é o que condiciona a decisão das mulheres”. Um exemplo disso é a contraceção de emergência: 43% das mulheres portuguesas recusam utilizar a pílula do dia seguinte, sobretudo por receio dos seus efeitos indesejáveis, mas também por preferirem esperar até que uma eventual gravidez seja confirmada ou por acreditarem que a contraceção de emergência é abortiva.
“Quando falamos de aconselhamento contracetivo e abordamos a pílula, é importante que a contraceção de emergência seja apresentada ao mesmo nível que as restantes opções contracetivas”, defende a médica. Na sua opinião, é importante garantir que as mulheres têm acesso a “informação clara e rigorosa” para que possam tomar decisões informadas sobre a sua saúde sexual e reprodutiva.
No inquérito confirmou-se ainda que a menopausa é um período difícil na vida das mulheres. Ao todo, um terço (35%) diz sentir-se sozinha nesta fase da vida. Em média, as mulheres enfrentam quase seis sintomas diferentes, mas 36% não procura um médico para obter ajuda, mesmo que sejam constrangedores e habituais ao longo da vida.
Para Ana Fatela, da Direção da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, com mais informação, há mais hipóteses de se procurar ajuda e controlar determinada sintomatologia. “Atualmente, sabemos que, quando corretamente indicada, iniciada na altura adequada e após avaliação individual dos riscos e benefícios, a terapêutica hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores e pode trazer benefícios adicionais para algumas mulheres.”
No entanto, sublinha, “muitas mulheres poderão estar a abdicar de um tratamento eficaz devido a informação desatualizada ou incorreta. Por isso, o essencial é que a decisão seja tomada com base na evidência científica e numa discussão informada entre a mulher e o seu médico”.
Também Fátima Faustino, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, reforça a importância da consulta e do acompanhamento em todas as fases da vida da mulher: “O debate público cria a abertura cultural para o tema deixar de ser tabu, a literacia garante que a mulher chega à consulta com expectativas corretas, mas é a consulta centrada na mulher que converte essa abertura e conhecimento em diagnóstico, tratamento e continuidade de cuidados.”
Salienta ainda que é fundamental “aproximar as gerações mais jovens dos cuidados ginecológicos e usar a consulta presencial para abordar diretamente alguma informação digital e desconstruir mitos que aí circulam”.
No estudo Taboo ficou ainda demonstrado que cerca de um terço (31%) não utilizou qualquer método contracetivo no último mês. No geral, as mulheres consideram a contraceção uma responsabilidade partilhada com o parceiro, mas apenas 39% refere partilhar os custos financeiros.
Segundo as mulheres inquiridas, os problemas de saúde mais embaraçosos são os que têm maior impacto na sua sexualidade, nomeadamente os vaginais e a incontinência urinária.
Do ponto de vista financeiro, o momento ideal para ter filhos é, para um quinto das mulheres, depois dos 36 anos, o que poderá colidir com a fase em que se inicia a redução da fertilidade feminina.
O inquérito foi feito junto de 12 mil mulheres dos 18 aos 59 anos da Hungria, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal.
Maria João Garcia
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