13 Mai, 2026

A importância de uma Unidade de Primeiro Episódio Psicótico no diagnóstico e Tratamento da Esquizofrenia

Professor Auxiliar na Faculdade de Medicina de Lisboa; Assistente Hospitalar Graduado de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Lisboa

A importância de uma Unidade de Primeiro Episódio Psicótico no diagnóstico e Tratamento da Esquizofrenia

A esquizofrenia é uma doença grave e crónica que afeta cerca de 1% da população mundial. Esta perturbação é caracterizada por alterações significativas no pensamento, perceção e comportamento, geralmente com significativo atingimento do funcionamento social e ocupacional.

 A apresentação clínica da esquizofrenia pode variar entre os doentes. Alguns podem apresentar predominantemente sintomas positivos, como alucinações ou ideias delirantes, enquanto outros podem exibir sobretudo sintomas negativos, como isolamento social. Tipicamente a doença tem o seu início entre a fase final da adolescência e o início da idade adulta.

 Classicamente, o curso e prognóstico associado à esquizofrenia é deteriorante. Apesar dos novos tratamentos, cerca de um terço dos doentes com esquizofrenia têm um mau prognóstico a longo prazo. Uma parte significativa dos doentes têm também recorrência a 5 anos, sendo a remissão completa dos sintomas menos provável a cada episódio psicótico subsequente. Mesmo em países desenvolvidos se constata um atraso no diagnóstico e início de tratamento, podendo demorar até 2 anos para os doentes e suas famílias procurarem ajuda para os primeiros sinais da esquizofrenia. Doença não tratada ou de forma inadequada pode levar a declínio no funcionamento cognitivo, dificuldade na manutenção das relações sociais e desafios no trabalho e educação dos doentes.

Nas últimas décadas o desenvolvimento de estratégias da designada intervenção precoce na psicose, que inclui os cuidados aos doentes em primeiro episódio psicótico, tem como objetivo a melhoria do prognóstico da doença. De forma consistente, a investigação indica que a intervenção precoce na esquizofrenia está associada a melhoria da gravidade dos sintomas, melhoria da qualidade de vida e do funcionamento global. Equipas multidisciplinares oferecem várias intervenções com base na melhor evidência científica durante os primeiros anos da doença, período crucial que representa uma janela de oportunidade de intervenção.

Um dos componentes essenciais da estratégia de intervenção precoce aos doentes com esquizofrenia é a sua deteção e diagnóstico o mais cedo possível, com a redução do designado período de psicose não tratada. O período de psicose não tratada, tempo que decorre entre o início dos sintomas e o tratamento, é frequentemente longo, e tem sido consistentemente associado a pior prognóstico clínico e funcional na esquizofrenia.

As equipas especializadas no tratamento aos doentes que sofrem um primeiro episódio psicótico são, como referido, multidisciplinares, com tratamentos personalizados, e durante os primeiros anos da doença. Para além da redução do período de psicose não tratada, os cuidados aos doentes nas fases iniciais da esquizofrenia incluem necessidades abrangentes dos doentes, nomeadamente a remissão dos sintomas, recuperação do funcionamento escolar e laboral, inclusão das famílias no plano de tratamento e reintegração social.

Apesar da demonstrada eficácia e efetividade do modelo de intervenção precoce nas fases iniciais da esquizofrenia, algumas dificuldades têm persistido no que concerne à generalização destes cuidados. O estigma associado ao diagnóstico de esquizofrenia, o subdiagnóstico da doença e as limitações no acesso aos cuidados são alguns dos fatores apontados como obstáculos à intervenção precoce na psicose.

Infelizmente, em Portugal, as equipas de intervenção precoce na esquizofrenia são escassas. Apesar do interesse dos jovens médicos psiquiatras e de outros técnicos, os recursos humanos dedicados a estas equipas são diminutos.  Este facto conduz que os cuidados aos doentes jovens com o diagnóstico recente de esquizofrenia sejam subóptimos.

A importância dos cuidados nas fases iniciais da psicose, incluindo no designado primeiro episódio psicótico, é fundamental. Reconhecer sintomas precoces e melhorar o acesso aos cuidados de saúde especializados são fatores essenciais que permitem aos doentes a melhoria do seu prognóstico.

 

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