13 Mai, 2026

Sintomas Negativos na Esquizofrenia: O Desafio Silencioso no Tratamento da Esquizofrenia

Médico Psiquiatra e Coordenador da Unidade de Psicose – CRI de Saúde Mental, ULS de Coimbra; Professor Convidado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Investigador no Coimbra Institute for Biomedical Imaging and Translational Research (CIBIT); Presidente da Secção de Intervenção Precoce na Psicose da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

Sintomas Negativos na Esquizofrenia: O Desafio Silencioso no Tratamento da Esquizofrenia

A esquizofrenia é frequentemente associada aos sintomas “positivos”, como delírios e alucinações. Porém, no Dia Mundial da Esquizofrenia, assinalado a 24 de maio, importa recentrar a atenção nos sintomas negativos: dimensão menos visível, mas muitas vezes a maior barreira à recuperação funcional, autonomia e qualidade de vida. Estima-se que a doença afete 23 milhões de pessoas no mundo e 48 mil em Portugal e que 50-60% dos doentes apresentem pelo menos um sintoma negativo.

Ao contrário dos sintomas positivos (ou psicóticos), que se “acrescentam” à experiência do doente, os sintomas negativos refletem a diminuição ou perda de funções psíquicas normais. Retiram iniciativa, expressão emocional, comunicação, motivação e envolvimento social, interferindo de forma profunda com a capacidade de construir projetos, manter rotinas e participar na vida familiar, académica e profissional.

A literatura descreve cinco domínios: avolição ou redução da motivação para iniciar e manter atividade; embotamento afetivo, com menor expressão facial, vocal e gestual; anedonia, ou seja, menor capacidade de sentir ou antecipar prazer; associalidade, isto é, redução do interesse, desejo ou iniciativa para estabelecer e manter relações sociais; e alogia que se refere a pobreza do discurso. Estes sinais surgem muitas vezes de forma insidiosa na adolescência ou início da idade adulta: o jovem isola-se, torna-se apático, perde interesse pelo meio e abandona atividades académicas ou sociais. Por serem confundidos com comportamentos “típicos da idade”, atrasam o diagnóstico e a intervenção.

Embora os antipsicóticos tratem sintomas psicóticos e previnam recaídas, o seu impacto nos sintomas negativos é mais limitado. Por isso, o tratamento não pode centrar-se apenas na remissão psicótica. Deve incluir psicoeducação, terapia ocupacional, treino de competências sociais, remediação cognitiva, apoio à formação, integração profissional e intervenção familiar.

Falar de sintomas negativos no Dia Mundial da Esquizofrenia é falar daquilo que muitas vezes permanece depois da crise psicótica. É falar da distância entre controlo sintomático e recuperação; da necessidade de consultas que avaliem motivação, prazer, expressão emocional, cognição, rede social e funcionalidade; e de equipas multidisciplinares, intervenção precoce, reabilitação psicossocial, respostas comunitárias e combate ao isolamento.

Assinalar este dia é lembrar que sintomas negativos não são “falta de vontade”, preguiça ou oposição. São manifestações complexas, invisíveis e subvalorizadas. O tratamento da esquizofrenia não se mede apenas pela redução de delírios e alucinações. Mede-se pela capacidade de devolver participação, autonomia, dignidade e projeto de vida. Tratar não é apenas estabilizar: é ajudar a pessoa a voltar a viver.

 

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais