13 Mai, 2026

“A esquizofrenia é uma doença complexa que exige múltiplas respostas de natureza multidisciplinar e de proximidade”

Joaquim Gago, psiquiatra na ULS Lisboa Ocidental, professor de psiquiatria da Nova Medical School e membro da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental (CNPSM), fala sobre os desafios que se enfrentam no diagnóstico e no tratamento da esquizofrenia. Em entrevista, destaca os avanços terapêuticos e psicossociais que permitem que cada vez mais pessoas com este diagnóstico possam ser funcionais e ter uma melhor recuperação clínica e pessoal.

“A esquizofrenia é uma doença complexa que exige múltiplas respostas de natureza multidisciplinar e de proximidade”

“O diagnóstico da esquizofrenia é clínico, depende da evolução e não se limita a uma avaliação. Implica monitorização, follow-up e várias avaliações, no âmbito das perturbações do espectro da esquizofrenia”, indica Joaquim Gago.

O psiquiatra realça que, para um diagnóstico final, é preciso ter em conta um conjunto de sintomas, quer positivos quer negativos. No caso dos primeiros, destaque para a alteração do pensamento e da perceção, incluindo por exemplo ideias delirantes e alucinações. O quadro clínico também inclui alterações das vivências e dos limites do “eu” e alterações cognitivas e afetivas.

O conjunto de sintomas vai caracterizar esta entidade, mas também as repercussões no respetivo funcionamento social, ocupacional e vocacional. “A esquizofrenia é muito diferente de pessoa para pessoa, quer no diagnóstico quer na evolução e prognóstico. Inicialmente, pode ser útil considerar o diagnóstico mais sindromático, de psicose não especificada e, posteriormente, com mais dados e seguimento será possível chegar a um diagnóstico mais preciso.”

O médico salienta que, atualmente, a patologia já é considerada perturbação do neurodesenvolvimento, o que significa que muitas alterações se iniciam precocemente – provavelmente já in útero -, mesmo que seja de forma aparentemente silenciosa. “São manifestações subtis que podem refletir-se precocemente no desenvolvimento, como algum isolamento, dificuldades de funcionamento interpessoal ou rendimento escolar. As manifestações prodrómicas justificam intervenções precoces”, sublinha.

O início da doença em fase aguda ocorre, geralmente, na transição entre a adolescência e a idade adulta – um pouco mais cedo nos homens e geralmente com sintomas positivos.

Após a fase aguda, exige-se todo um trabalho de recuperação a vários níveis, nas fases de manutenção e de reabilitação psicossocial, de forma que a pessoa recupere não só dos sintomas, mas também a sua funcionalidade e encontre um caminho pessoal que vá para além da doença. “A esquizofrenia tem uma evolução prolongada e podem surgir recaídas que devem ser antecipadas e prevenidas”, alerta.

O tratamento deve ter, assim atenção aos vários estádios, para que se possa diminuir o impacto da patologia ou até para se evitar que surja na sua forma mais aguda. Atualmente, já se começa a dar prioridade à intervenção precoce, identificando-se jovens de alto risco, por exemplo com familiares com a doença. Nestes casos aposta-se mais em intervenções psicológicas e psicossociais e havendo já alguns sintomas pode-se prescrever medicação para se tentar evitar uma evolução mais desfavorável.

“A esquizofrenia é uma doença complexa que exige múltiplas respostas de natureza multidisciplinar e com envolvimento de respostas de proximidade na comunidade e mobilização de vários recursos e parcerias”

Apesar do estigma e de nem sempre se ter dado a devida atenção as pessoas com este problema de saúde, têm ocorrido desenvolvimentos terapêuticos farmacológicos, psicoterapêuticos e psicossociais relevantes, segundo o psiquiatra.

A nível farmacológico são os antipsicóticos injetáveis de longa duração, que melhoram a adesão terapêutica e com administrações possíveis a intervalos cada vez mais longos (com efeitos ao longo de 3 ou até 6 meses com uma única administração), antipsicóticos mais ativadores e facilitadores de melhoria na funcionalidade (ex. agonistas parciais dopaminérgicos) ou com mecanismos mais inovadores, como é o caso dos antipsicóticos agonistas muscarínicos, recentemente aprovados pela Food and Drug Administration ou outros que bloqueiam a modulação do glutamato e dos canais de sódio, na procura de novos mecanismos de ação para novas respostas.

Joaquim Gago enfatiza que não basta a farmacologia, sendo “essencial e determinante” haver intervenções biopsicossociais que promovam uma recuperação não só clínica, mas também pessoal e social. “São assim absolutamente necessárias intervenções multidisciplinares realizadas por Equipas Comunitárias de Saúde Mental que permitam intervenções diferenciadas e de proximidade, com planos individuais de cuidados específicos, intervenções psicoterapêuticas e reabilitativas, envolvimento da família e integração social.”

Na sua perspetiva, “o desenvolvimento, implementação e acesso a este conjunto de intervenções pode marcar a diferença e promover uma recuperação mais efetiva, com melhor funcionalidade e qualidade de vida”.

Maria João Garcia

 

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