13 Abr, 2026

“Procuramos criar percursos formativos que se adaptem às necessidades de cada participante”

O médico de família André Cardoso, presidente do Update em Medicina 2026, antecipa uma edição marcada pela inovação e pela proximidade entre colegas. Num contexto desafiante para a Medicina Geral e Familiar, o congresso aposta em roteiros científicos personalizados, saúde mental, nutrição, saúde da mulher e materno-infantil, oferecendo ferramentas práticas para melhorar a consulta diária e reforçar a qualidade do atendimento no SNS.

“Procuramos criar percursos formativos que se adaptem às necessidades de cada participante”

O que significa, para si, liderar a edição de 2026 do Update em Medicina num momento particularmente exigente para a Medicina Geral e Familiar?
É, de facto, uma responsabilidade acrescida, até porque têm existido muitas mudanças, tanto na realidade do Serviço Nacional de Saúde e da saúde como um todo em Portugal, como nas exigências atuais relacionadas com a prática clínica e a premência da atualização científica constante.

O Update em Medicina é, desde sempre, um congresso e um espaço privilegiado para a atualização científica, muito focado na Medicina Geral e Familiar, mas não exclusivamente. Alguns dos colegas que colaboram connosco de forma muito próxima são de variadas especialidades hospitalares, criando uma interdisciplinaridade e dinâmicas muito interessante.

O objetivo passa por reunir este conjunto de profissionais de referência, permitindo o máximo de atualização e garantindo conteúdo científico de elevada qualidade em cada edição.

Naturalmente, trazer um congresso com este impacto, que se tem de posicionar como um dos grandes eventos científicos nacionais, representa uma responsabilidade ainda maior.

Mas este trabalho não se faz sozinho. Temos toda uma equipa motivada, criativa e a trabalhar para preparar este evento com grande rigor. Acredito que esta será uma edição de grande interesse, com atualizações em áreas diferenciadoras face ao que, muitas vezes, nos é trazido noutros congressos médicos, onde alguns temas acabam por se tornar repetitivos.

Esta edição traz uma lufada de ar fresco e marca um processo de transformação e renovação do próprio Update em Medicina, para que continue a liderar as tendências no panorama científico nacional como sempre o fez até agora.

 

Quais são os grandes temas que vão marcar esta edição do Update em Medicina 2026?
Os grandes temas que trazemos, desenrolam-se seguindo um conceito que desenvolvemos: o dos roteiros científicos.

O objetivo é romper com o modelo mais linear dos congressos, em que os profissionais seguem o percurso que foi previamente definido pela organização. Com os roteiros científicos, procuramos criar percursos formativos diferenciados, permitindo que cada participante escolha os temas mais alinhados com as suas necessidades e áreas de interesse.

Em algumas temáticas mais dirigidas a nichos formativos — por exemplo, na área da infeciologia, com a tuberculose ou o VIH/SIDA, que podem interessar mais a determinados subgrupos da Medicina Geral e Familiar — criamos caminhos paralelos, com sessões a decorrer em simultâneo. Desta forma, os participantes podem divergir para outras áreas de interesse, beneficiando de uma oferta formativa mais personalizada e diferenciadora.

Na definição destes roteiros, damos particular destaque à saúde da mulher e materno-infantil, áreas que habitualmente são pouco trabalhadas. Há também um enfoque especial na saúde mental, tendo em conta o papel absolutamente central que a Medicina Geral e Familiar desempenha na primeira linha de abordagem nestas patologias.

Outro dos cernes será a nutrição e a saúde digestiva, incluindo a discussão dos prós e contras das várias dietas atualmente em voga. A grande diversidade de “correntes” e opções disponíveis, torna a área da alimentação bastante controversa, pelo que faz sentido proporcionar atualização para que os médicos consigam orientar cada pessoa de forma adequada e individualizada.

As questões organizacionais e éticas na Medicina Geral e Familiar são também áreas centrais. Falamos aqui de aspetos de fundo relacionados com a gestão da consulta e das próprias unidades de saúde, um tema cada vez mais relevante, sobretudo nas Unidades de Saúde Familiar, onde a otimização de recursos, muitas vezes escassos, é essencial.

Teremos ainda algumas sessões plenárias, sempre com uma forte componente interativa e de proximidade, que é uma marca do Update em Medicina. Queremos que os participantes tenham espaço para colocar questões, partilhar dúvidas e interagir com os oradores, tornando a experiência o mais dinâmica e profícua possível.

 

Quais são, neste momento, os maiores desafios que sente que os médicos de família enfrentam na consulta?
Atualmente, de entre os principais desafios que enfrentamos, destacaria três aspetos principais: sobrecarga assistencial, sobrecarga burocrática e (i)literacia em saúde.

A sobrecarga assistencial deve-se primariamente ao sobredimensionamento dos ficheiros médicos em número absoluto de utentes, que deixa pouca margem para flexibilidade na resposta prestada. Também, estes utentes vivem mais tempo e apresentam uma maior carga de doença, o que aumenta a complexidade da consulta e o tempo necessário para gerir a multimorbilidade. Toda esta dinâmica é agravada pela falta de médicos de família no serviço público em determinadas áreas do país, que por sua vez sobrecarrega os médicos “resistentes”, levando eventualmente à sua exaustão e subsequente agravamento do ciclo de ausência de resposta médica.

A sobrecarga burocrática é um entrave à fluidez da consulta por falta de tempo destinado ao efeito. Além de todos os registos clínicos, formulários e documentos a preencher, as unidades de saúde são altamente monitorizadas através dos seus indicadores. Embora muitos destes processos tenham como objetivo a monitorização da qualidade e a organização dos cuidados, na prática traduzem-se frequentemente em tempo retirado à observação clínica e à relação médico-doente. Adicionalmente, a fragmentação dos sistemas de informação e a sua usabilidade limitada contribuem para aumentar o tempo despendido em tarefas não clínicas, gerando frustração e ineficiência.

A literacia em saúde é parte das funções inerentes à Medicina Geral e Familiar. Contudo, apesar do crescente acesso à informação, muitos utentes apresentam dificuldades em compreender conceitos básicos de saúde, interpretar sintomas, aderir a planos terapêuticos ou navegar adequadamente no sistema de saúde. Assim, verificamos frequentemente uma “falsa literacia”, resultante da exposição a informação não validada, frequentemente proveniente da internet ou redes sociais, que pode gerar expectativas desajustadas, ansiedade e resistência às recomendações médicas. Isto traduz-se num nível de exigência crescente por parte dos doentes. Cada vez mais, os utentes chegam já com informação prévia, conceitos formados e, muitas vezes, uma agenda própria de temas que pretendem abordar. Naturalmente, o médico de família também tem a sua agenda clínica, isto é, os aspetos que considera prioritários avaliar naquele contexto específico. O desafio surge na articulação entre estas duas agendas. Assim, uma parte significativa da consulta passa por desmistificar e clarificar conceitos bem como a contextualizar informação previamente adquirida pelo doente.

 

O que é que um médico de família pode esperar levar deste congresso para a prática clínica do dia a dia que o ajuda a combater esta dificuldade?
Pretendemos que os médicos possam sair deste congresso com mais conhecimento e ferramentas para a gestão da sua prática clínica e para a monitorização e acompanhamento da própria unidade e equipa de saúde.

Também, a sessão dedicada ao stress e ao burnout, com abordagem não apenas na perspetiva do utente, mas também do próprio profissional de saúde, que muitas vezes acaba igualmente por se ver enquadrar nessa situação clínica, pretende clarificar conceitos e lançar alertas. O objetivo é dar resposta àquilo que consideramos ser uma verdadeira epidemia silenciosa, que se tem vindo a alastrar e que, muito provavelmente, continuará a crescer nos próximos anos. Por isso, é essencial promover uma intervenção proativa e capacitar os médicos para reconhecer, prevenir e atuar mais cedo nestas situações.

Por outro lado, teremos também uma sessão centrada noutra faixa etária, mas que muitas vezes está na génese de vários destes problemas: a relação das crianças com o tempo de ecrã. Vamos abordar os riscos deste entretenimento aparentemente fácil, mas que pode ter consequências mais complexas à medida que as crianças crescem, nomeadamente no seu desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional.

Por fim, talvez o mais importante, o médico de família ganha confiança para continuar a abordar, gerir e solucionar temas complexos, de multimorbilidade e psicossociais, de forma centrada no doente, operacionalizando de forma otimizada a articulação entre cuidados de saúde primários e cuidados de saúde secundários.

 

Quantas inscrições têm?
Nesta edição contamos com cerca de 1000 inscrições presenciais, às quais se soma um número ligeiramente inferior de participantes em formato digital. De forma a aumentar a acessibilidade e a participação no congresso, optámos por manter o formato híbrido.

Esta decisão ganha ainda mais relevância tendo em conta as limitações das próprias unidades de saúde e o número de profissionais que podem estar ausentes em simultâneo. Em muitos casos, este modelo facilita a organização das equipas e permite conciliar de forma mais equilibrada a participação no congresso com as exigências assistenciais do dia a dia.

No fundo, o formato híbrido tem sido uma forma de tornar o Update em Medicina mais inclusivo, mais flexível e mais ajustado à realidade atual dos profissionais de saúde.

 

As expectativas são boas?
As expectativas são boas. As inscrições são importantes porque naturalmente permitem operacionalizar toda a logística que um evento deste calibre exige, mas acima de tudo, o nosso foco está na qualidade do conteúdo científico disponibilizado.

Para isso, cada sessão do congresso apresenta uma programação detalhada, como se de um curso se tratasse. Esta abordagem, com definição prévia de conteúdos programáticos, permite que os profissionais saibam antecipadamente o que será abordado em cada tema e consigam selecionar as sessões que melhor correspondem às suas necessidades formativas.

O objetivo é que, desde o início, cada participante tenha uma visão clara do que esperar, tornando a experiência mais direcionada, personalizada e eficaz.

 

Quer deixar uma mensagem aos participantes?
O Update em Medicina é um congresso feito de colegas para colegas, onde a participação e o contributo de todos são fundamentais e dão sentido a cada nova edição. Ano após ano, é essa partilha que enriquece e molda o nosso programa científico.

Mais do que um momento de atualização, queremos que este seja um espaço de proximidade, de diálogo aberto e de verdadeira troca de experiências. As mesas-redondas e as conversas informais nos corredores são tão valiosas quanto as sessões formais, permitindo-nos discutir desafios do dia a dia e crescer em conjunto enquanto comunidade médica e científica.

A presença de cada um de vós é, por isso, essencial. Queremos que se sintam verdadeiramente em casa para que possam participar, questionar e partilhar, contribuindo ativamente para a dinâmica do congresso.

Acima de tudo, deixamos um sincero agradecimento pela vossa energia, pela vossa disponibilidade e pela partilha generosa da vossa presença. É esse espírito de colaboração e de entreajuda que dá vida ao Update em Medicina e o torna único. Sejam muito bem-vindos à vossa Família Update.

 

Sílvia Malheiro

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