“Estamos a criar orientações para que os doentes oncológicos tenham respostas adequadas e flexíveis”
Criar orientações para que os doentes oncológicos tenham respostas clínicas e organizacionais adequadas são dois dos principais objetivos do European Commission Initiative on Cancer. Hugo Ribeiro, médico paliativista e investigador, foi escolhido pela Comissão Europeia para integrar um painel de 15 especialistas que desenvolverão recomendações europeias relacionadas com os rastreios oncológicos e a abordagem terapêutica de doentes com cancro. Em entrevista, fala do trabalho "muito desafiante", mas também "muito gratificante".

Foi convidado, em 2025, para integrar o European Commission Initiative on Cancer (ECIC). Que trabalho têm desenvolvido?
A ECIC é um órgão da Comissão Europeia criado para monitorizar e coordenar o circuito do doente com cancro nos países europeus. O objetivo inicial passa pela criação de normas europeias relativamente aos rastreios, ao diagnóstico, às terapêuticas dirigidas aos diferentes tipos de cancro e à abordagem paliativa. Este objetivo tem um prazo para ser cumprido: 1.º trimestre de 2027. Numa 2.ª fase, e após termos definido os indicadores e medidas de avaliação de desempenho e de produtividade (individual e coletiva) e de valor acrescentado em saúde, a União Europeia passará para o estabelecimento de metas para cada país, com o objetivo final de aproximar os resultados dos diferentes países, o que seria expectável na lógica da progressiva integração europeia. Ou seja, podemos esperar que estas metas signifiquem consequências para quem cumpra e para quem não cumpra.
Eu fui integrado num grupo de 15 especialistas europeus, o Supportive Care Top Specific Group, que está responsável pela criação de guidelines clínicas e organizacionais referentes à abordagem paliativa, uma área transversal às restantes. Ou seja, a partir do momento em que uma pessoa tem o diagnóstico de cancro, quais os procedimentos e resultados que temos de monitorizar para criar o maior valor acrescentado em saúde possível? Este processo inicia-se com a própria comunicação do diagnóstico ao doente e à sua família, passa pela adequada contenção do impacto da doença na esfera multidimensional de cada pessoa com cancro (desde o controlo de sintomas ao ajuste individual de alvos terapêuticos para outras doenças ou condições clínicas concomitantes) e termina com a abordagem de fim de vida e do acompanhamento no luto.
Estamos a criar orientações para que os doentes tenham respostas adequadas, clínicas e organizacionais, e flexíveis perante o sofrimento que possam apresentar. E estamos a definir, com uma equipa mais alargada da ECIC, quais os indicadores que serão criados (de qualidade, de satisfação e de recursos), em vários passos deste circuito, para serem adotados para o espaço europeu. Neste contexto, posso adiantar que tem sido um desafio muito exigente, mas muito gratificante. São múltiplos os desafios, mas há um estímulo intelectual que me agrada imenso e, naturalmente, o facto de poder estar envolvido num projeto que terá um impacto europeu tão significativo é emocionalmente compensador.
Quais os principais desafios que os países europeus enfrentam nos rastreios oncológicos e nas abordagens terapêuticas de doentes com cancro?
Atendendo a que tenho um contrato de confidencialidade, não poderei entrar em pormenores, mas posso realçar que temos realidades bem distintas em diferentes regiões e países europeus. Essa desigualdade observa-se não só nas infraestruturas físicas, como nas organizacionais (desde os sistemas de financiamento à implementação de planos e programas a nível nacional e regional), e também na cultura organizacional (onde há alguns países que têm uma política pública frágil na “medição em saúde”). A estas realidades juntam-se problemas de doutrinas clínicas, para além das diferenças entre as populações, com as suas diferentes crenças, perfis genéticos, psicossociais e existenciais. De qualquer forma, eu diria que o principal desafio atualmente é a uniformização da obtenção de dados para que consigamos adaptar estratégias.
A situação de Portugal é similar aos restantes países?
Para começar, Portugal é um país médio, em várias perspetivas: geográfica, populacional e económica. Penso que muitas vezes nos descrevemos como “pequenos”, mas a realidade não é essa. E acho que este mindset tem de mudar, pois a escala a que nos vemos influencia muito a comunicação que temos e certamente também influenciará o nosso posicionamento político. Pelo que posso referir neste momento, parece-me que o nosso país tem condições para fazer muito melhor. Diria que a principal lacuna que apresenta neste momento é a falta de análise e mensuração de dados e a falha na avaliação de desempenho, individual e coletivo.
“O foco é a obtenção dos melhores resultados focados no doente e na sua família, contendo ou atenuando o dano que a doença e algumas estratégias terapêuticas possam provocar”
Estão a trabalhar em recomendações. Já pode adiantar algumas?
Posso adiantar apenas que será expectável que as pessoas sejam acompanhadas de forma personalizada, e que teremos de ter a IA ao nosso serviço para nos ajudar a adaptar individualmente algumas estratégias e medição de resultados, de forma a otimizarmos o valor em saúde obtido.
O que mais tem aprendido com esta experiência?
O grupo em que estou envolvido é constituído por profissionais com vastos conhecimentos, complementares, havendo um denominador comum: estamos muito envolvidos em investigação clínica e translacional, e assim penso que temos contribuído para a evolução do pensamento na área da Medicina Paliativa e dos Cuidados Paliativos. O foco é a obtenção dos melhores resultados focados no doente e na sua família, contendo ou atenuando o dano que a doença e algumas estratégias terapêuticas possam provocar e garantindo o melhor conforto, qualidade de vida e dignidade possíveis.
De uma perspetiva puramente técnica, clínica e académica, tenho aprendido muito em áreas de expertise dos meus colegas de grupo, como a Radioterapia, a Oncologia Médica, a Cirurgia ou a Psiquiatria e a Psicologia.
Trabalhar em equipa multidisciplinar implica escutar e permite-nos olhar para um problema de diferentes ângulos, que na maioria das vezes terão melhores soluções com o contributo sinérgico de todos os seus elementos.Para além dos conhecimentos, a principal aprendizagem será sempre a criação e o fortalecimento de pensamentos, de análises e de raciocínios sobre as pessoas e as suas circunstâncias, sobre o sistema e sobre o nosso papel enquanto atores transformadores num mundo exigente e em permanente evolução.
Maria João Garcia
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