“A lógica de um novo futuro mantém-se: é uma marca que esta Direção quer deixar”
É o último Encontro Nacional de Nuno Jacinto, como presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). O responsável, que acredita num novo futuro para a Medicina Geral e Familiar, aborda alguns dos temas em destaque no evento, como burnout, ensaios clínicos ou indicadores. Estes últimos vão mesmo a tribunal e o representante dos médicos de família portugueses já tem a sentença final. Dá ainda o seu parecer sobre as primeiras USF modelo C.

Por que razão a temática central do Encontro é “Um novo futuro para a Medicina Geral e Familiar”?
O tema vai ao encontro do que tem sido a atuação da APMGF nos últimos anos. É também o título do livro que lançámos, em 2023, por ocasião da comemoração dos 40 anos da APMGF. Entendemos que continua atual, além de ser uma marca desta Direção. Este será o último Encontro Nacional desta Direção e é importante que esta temática se mantenha na ordem do dia, continuando a construir-se um caminho para a Medicina Geral e Familiar (MGF), apontando soluções.
Não pretendemos ter apenas uma posição crítica, que nos pode levar a acomodar na lamentação do que temos ou não temos. Queremos também ser construtores de soluções. É preciso fazer algo diferente, melhorar aquilo que achamos que não está bem e aproveitar o que já fazemos da forma mais correta. Por tudo isto, a lógica de um novo futuro mantém-se: é uma marca que esta Direção quer deixar e que esperamos que tenha tradução prática, o mais breve possível.
Um dos temas do evento é “Burnout: diagnóstico, tratamento e reorganização pessoal e profissional”. Que desafios se enfrentam quando se trata de diagnosticar e tratar médicos de família em burnout?
É sempre complicado porque, de uma forma geral, o burnout (exaustão) ainda é alvo de estigma. Todos temos dificuldade em admitir que possamos estar a chegar a uma situação destas e que precisamos de pedir ajuda. É um problema de saúde cada vez mais prevalente, porque os médicos de família estão muito sobrecarregados. Há cada vez mais colegas que sentem dificuldade em lidar com todas as suas obrigações e exigências do dia a dia, tendo muita dificuldade em conciliar a vida profissional com a vida pessoal e familiar.
É preciso combater o estigma, para que haja maior capacidade de assumir aquilo que se está a passar. Paralelamente, é necessário saber lidar com o diagnóstico como se fosse qualquer outra doença.
“Quando pensamos em ensaios clínicos, regra geral associamos essa prática ao hospital, mas estes também são importantes ao nível do ambulatório, nos cuidados de saúde primários”
Deveria haver mais apoios institucionais a pensar nos médicos?
É preciso dar mais atenção à saúde mental de toda a população, não apenas dos médicos e de outros profissionais de saúde. Esta área ainda é muito negligenciada e, no caso dos profissionais de saúde, é fundamental saber cuidar de quem cuida. É um chavão, mas a verdade é que só seremos capazes de cuidar dos outros se estivermos bem física e psicologicamente. Deveria existir, pelo menos, uma resposta mais organizada e uma maior capacidade de acesso a essa resposta, passando também a ideia de que este é um problema real e que não deve ser escondido.
Outra sessão será sobre “Ensaios clínicos nos CSP”. A investigação é, de facto, cada vez mais importante nos cuidados de saúde primários? O Departamento de Investigação da APMGF é prova de que esta é uma área prioritária para a associação?
Sim, sem dúvida. O Departamento de Investigação tem desenvolvido várias iniciativas nos últimos anos. Quando pensamos em ensaios clínicos, regra geral associamos essa prática ao hospital, mas estes também são importantes ao nível do ambulatório, nos cuidados de saúde primários. A APMGF, enquanto associação, tem um papel importante neste âmbito: deve sensibilizar os colegas e mostrar que estamos preparados e capazes de responder às necessidades da comunidade científica. Nesta sessão vamos perceber onde estamos e para onde podemos ir, para que se aposte cada vez mais nesta atividade científica no âmbito dos cuidados de saúde primários (CSP).
Na sua perspetiva, os mais novos já estão mais despertos para a importância da investigação nos CSP?
Sim. Os mais novos e também os mais velhos. Este interesse tem muito a ver com o crescimento da própria especialidade no meio académico, sendo por isso um percurso natural da MGF. Em quatro décadas de história, assistimos a várias conquistas na MGF, sendo a investigação uma delas. Em suma, a geração mais nova já está mais sensibilizada, mas isso também se deve às gerações anteriores, que têm passado essa mensagem ao nível da formação pré-graduada, da formação pós-graduada, do internato e de outras atividades.
“Nos discursos, todos gostam muito de nós e consideram-nos essenciais, mas, infelizmente, na prática nem sempre é isso que vemos. Cabe a cada um de nós continuar a lutar pela especialidade”
No Encontro terão a receção aos novos internos. Apesar das dificuldades atuais no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a MGF continua a ser a especialidade do coração?
A MGF sempre foi uma escolha do coração – tal como acontece com outras especialidades, diga-se. A MGF tem características muito particulares e, para nós, será sempre a melhor especialidade do mundo. Costuma ser uma escolha feita com a razão, mas também com o amor e o carinho que temos por aquilo que fazemos. Estes momentos de encontro são muito importantes para mostrarmos aos internos aquilo que de bom existe na MGF e também na APMGF. Queremos convidar os colegas a vestirem a camisola associativa ao longo da sua carreira médica.
Os problemas do SNS ainda não afastam totalmente os mais novos da MGF?
Os obstáculos são muito grandes e, muitas vezes, acabam por nos trazer dissabores maiores do que gostaríamos. Nos discursos, todos gostam muito de nós e consideram-nos essenciais, mas, infelizmente, na prática nem sempre é isso que vemos. Cabe a cada um de nós continuar a lutar pela especialidade e para que a escolha destes colegas mais novos seja consequente: serem médicos de família por inteiro. Os obstáculos existem e nem sempre é fácil, mas não nos podemos esquecer do que nos levou a escolher a MGF. É crucial ir buscar essa chama e mantê-la acesa, por muito difícil que seja o nosso dia a dia.
“Note-se que os concursos para o modelo C realizam-se ao mesmo tempo que os do SNS e com condições diferentes. Além disso, aquilo que se propõe para as USF modelo C neste momento não coincide totalmente com o que é divulgado nos diplomas do Governo”
O que pensa da criação das primeiras unidades USF modelo C?
A questão das USF modelo C não se prende com o facto de serem públicas ou privadas, mas com o conceito em si. O mais importante é sempre garantir cuidados de qualidade às populações, alicerçados na MGF, seja no setor público, privado ou social. O que a APMGF questiona é o momento escolhido para avançar com o modelo C. Por que razão se continua a não resolver o que está mal no SNS? Por que se avança com outras medidas sem investir primeiro no SNS?
Note-se que os concursos para o modelo C realizam-se ao mesmo tempo que os do SNS e com condições diferentes. Além disso, aquilo que se propõe para as USF modelo C neste momento não coincide totalmente com o que é divulgado nos diplomas do Governo. Tudo isto gera confusão. Temos de perceber exatamente onde queremos as USF modelo C, qual o seu papel e o que acontecerá se, um dia, o SNS voltar a ter capacidade de resposta plena. Também é preciso clarificar qual o compromisso assumido com as populações e o que acontece se as entidades que ganharem o concurso deixarem de querer continuar. É essencial haver transparência e clareza: perceber que tipo de solução está a ser aplicada, porquê nesses locais e não noutros, e porquê dessa forma. E isso não foi bem explicado.
O próprio Estado está a criar aqui uma concorrência desleal?
Não sei se podemos falar em concorrência desleal, porque as condições são algo contraditórias. Por um lado, o modelo remuneratório não parece assim tão atrativo; por outro, abre caminho a que os concorrentes possam oferecer modelos diferentes, que até podem ser melhores do que os existentes no público. Mais uma vez, trata-se de uma concorrência num momento que não parece o mais adequado. Inicialmente, as USF modelo C foram pensadas para locais onde o SNS não conseguisse chegar, eventualmente mais isolados. Mas estas primeiras unidades surgiram em grandes áreas urbanas, sobretudo no litoral. O SNS existe em Lisboa e Vale do Tejo, em Leiria, no distrito de Faro. O problema é atrair e fixar profissionais nessas regiões. Talvez não seja concorrência desleal, mas estamos certamente a criar mais ruído e confusão.
“Se os cuidados primários forem vistos como um simples “tapa-buracos” para os problemas do hospital, estamos claramente no caminho errado”
Na prática, estas primeiras unidades modelo C não contribuem para a equidade nos cuidados à população, já que não houve oportunidade para regiões mais remotas?
Nas localidades mais distantes nem sequer poderá existir o modelo C, porque não há setor privado ou social capaz de responder. Não existe um rumo claro. Parece que estamos a tentar várias soluções ao mesmo tempo para ver qual resulta. Esta lógica desgarrada transmite uma ideia de desorganização e afasta os colegas. Um médico pode optar por uma USF modelo C, mas surgem várias questões: durante quanto tempo? O que acontece no final do contrato? E se houver alterações, entretanto? Poderá regressar ao SNS?
Além disso, como não se permite que médicos que estiveram no SNS nos últimos três anos se candidatem ou integrem estas equipas — exceto se estiverem ainda em internato — estamos claramente a captar sobretudo recém-especialistas. Podemos discutir opções ideológicas: mais ou menos setor privado, mais ou menos setor público, separação ou articulação entre ambos. Mas isso exige assumir um rumo claro e cumpri-lo. Não podemos estar constantemente a mudar de direção, com o risco de um Governo decidir uma coisa e, três ou quatro anos depois, outro decidir o contrário. As equipas e os utentes não podem viver nesse limbo.
Isso remete para outro tema que também será debatido: a Medicina em Rede. Na sua opinião, o modelo das ULS tem facilitado a articulação entre hospital, cuidados primários, saúde pública e comunidade?
O problema das ULS foi terem sido implementadas de forma generalizada, apesar das diferentes realidades locais. Em alguns sítios, e até em algumas especialidades, a articulação melhorou; noutros, não. Tudo depende da forma como a ULS foi implementada, da postura do conselho de administração e do papel que os CSP têm dentro da organização. Se os cuidados primários forem vistos como um simples “tapa-buracos” para os problemas do hospital, estamos claramente no caminho errado. Se forem encarados como uma oportunidade de trabalho conjunto, podemos estar no caminho certo. Em teoria, as ULS permitem melhor utilização de recursos, melhor gestão e melhor comunicação. Todos queremos isso. Mas a forma de atingir esses objetivos não pode ser igual em todas as regiões, dada a diversidade do país.
A municipalização da saúde tem contribuído para uma maior ligação à comunidade?
Sim, sobretudo nos concelhos de média e pequena dimensão. Mas, mais uma vez, é necessário haver transparência, para se perceber quais são exatamente as competências das autarquias e garantir que estas têm orçamento para as cumprir. Este é um problema em muitas autarquias mais pequenas, porque não houve uma transferência de verbas adequada. Ainda assim, na esmagadora maioria dos locais tem havido esforço de colaboração entre municípios e serviços de saúde para resolver problemas de forma mais rápida do que acontecia com as ARS. Globalmente, tem sido uma medida positiva, apesar dessas dificuldades.
“A ideia é valorizar coisas que podem parecer pequenas, mas que, na realidade, são muito importantes e podem ter um impacto enorme na vida das pessoas”
Neste evento, os indicadores vão a tribunal. Se fosse juiz, qual seria a sentença: inocentes ou culpados?
Ambos. Os indicadores são instrumentos úteis e vieram mudar muito a nossa prática, permitindo perceber o que fazemos melhor e pior. Quando comparamos Portugal com outros países, percebemos que existem vantagens em utilizá-los. O problema surge quando o foco da atividade passa a ser apenas os indicadores. Há muitas áreas da prática clínica que não estão refletidas neles e não podemos ter centenas de indicadores em simultâneo. Eles devem servir como guias para melhorar cuidados, não como objetivo final. Se forem usados como ferramentas de gestão, podem ser extremamente úteis e até uma arma fantástica para melhorar cuidados. Mas se se tornarem a única prioridade e apenas se procurarem números, podem contribuir para a deterioração da qualidade assistencial. Como em tudo na vida, é preciso bom senso.
Vão terminar com pirilampos. O que se pode esperar da conferência da médica de família brasileira Maiara Floss?
Podemos esperar um testemunho muito próximo, emotivo e real de uma colega que trabalha no terreno, numa comunidade com características muito específicas – e diferentes de muitas comunidades em Portugal -, mas que tem uma ligação muito forte à população. Mostra-nos que, mesmo com dificuldades, é possível fazer diferente, fazer melhor e colocar as pessoas no centro da nossa atividade. A ideia é valorizar coisas que podem parecer pequenas, mas que, na realidade, são muito importantes e podem ter um impacto enorme na vida das pessoas.
Maria João Garcia











