Abordagem da violência familiar nos Cuidados de Saúde Primários
Especialista em Medicina Geral e Familiar; Secretária de Direção da APMGF; Membro do WONCA SIG Family Violence; Membro do Steering Committee da WONCA Europe Regional Equity Committee

Abordagem da violência familiar nos Cuidados de Saúde Primários

A violência familiar constitui um grave problema de saúde pública e de direitos humanos, afetando indivíduos de todas as idades, géneros e contextos socioeconómicos. Nos cuidados de saúde primários, os profissionais encontram-se numa posição privilegiada para reconhecer sinais, intervir precocemente e encaminhar adequadamente as vítimas.

A visibilidade e perceção da violência variam amplamente, muitas vezes condicionadas por fatores socioculturais que influenciam a forma como a sociedade a reconhece, valida ou desvaloriza. A distinção entre agressividade e violência nem sempre é clara, o que contribui para a normalização de comportamentos abusivos. Dados do Estudo Nacional de Violência no Namoro 2025 da UMAR e CIG, revelam um aumento da legitimação de comportamentos violentos, o que atrasa o reconhecimento e a intervenção.

A violência familiar inclui qualquer forma de abuso físico, psicológico, sexual ou económico exercido por pessoas no contexto de uma relação familiar ou íntima, independentemente da coabitação. Este tipo de violência dirige‑se frequentemente aos membros mais vulneráveis, nomeadamente mulheres, crianças, idosos ou pessoas com deficiência.

Os números são preocupantes: denúncias, mortes e casos mediáticos continuam a evidenciar a prevalência do problema. Dados internacionais, como os da Organização Mundial da Saúde, mostram que uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física ou sexual ao longo da vida. Para além do sofrimento humano, os custos diretos e indiretos — clínicos, sociais e económicos — são significativos: internamentos, consultas, medicamentos, serviços judiciais, perdas de produtividade e impacto transgeracional.

Os efeitos sobre a saúde das vítimas são amplos e profundos. A violência contribui para o desenvolvimento ou agravamento de condições físicas e psicológicas, influenciando negativamente o bem-estar e a qualidade de vida. As crianças e jovens expostos a ambientes violentos podem, no futuro, tornar-se vítimas ou agressores, perpetuando assim o ciclo da violência.

A violência familiar tende a ocorrer em ciclos que alternam entre fases de tensão, agressão e reconciliação, criando uma dinâmica emocional que prende a vítima e dificulta a rutura. Muitas vítimas não se queixam por múltiplas razões: não reconhecem inicialmente o abuso, esperam que a situação melhore, têm medo de represálias, sentem vergonha ou culpa, enfrentam dependência económica ou emocional, receiam o sistema judicial, não sabem onde procurar ajuda, não possuem apoio familiar ou social ou temem que a confidencialidade não seja respeitada.

Os profissionais de saúde têm um papel fundamental na identificação e apoio às vítimas de violência familiar. A formação, a sensibilidade e a confiança na abordagem deste fenómeno são essenciais para garantir uma resposta adequada e eficaz. A preparação adequada não só aumenta a capacidade de intervir, como também reduz o desconforto e a insegurança que por vezes impedem a ação.

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais