1 Abr, 2026

“Gosto muito de MGF e da prática clínica, mas acredito que esta deva ter por base a melhor evidência científica”

Bruno Heleno foi eleito Médico de Família do Ano na Gala MGFamiliar. Em entrevista, fala sobre uma carreira em MGF, que conjuga prática clínica com ensino e investigação. Apesar do seu percurso, compreende que nem todos os clínicos tenham de seguir as mesmas pegadas. O seu maior desejo é que os médicos de família que queiram fazer investigação tenham tempo e recursos para pôr esse objetivo em prática.

“Gosto muito de MGF e da prática clínica, mas acredito que esta deva ter por base a melhor evidência científica”

O que sentiu no momento que soube que era o Médico de Família do Ano?
Foi uma grande surpresa! Os outros candidatos têm currículos e projetos extraordinários na área da Medicina Geral e Familiar, por isso foi algo que não estava mesmo à espera. Aliás, nem sequer pensei alguma vez que iria ser nomeado, porque há outros colegas com projetos extraordinários. Mas foi uma sensação muito boa.

 

Qual é a importância deste tipo de iniciativas ou prémios na carreira de um médico de família?
É fundamental. Geralmente reunimo-nos para discutir o que está menos bem na MGF. Mas a Gala é um evento dedicado a celebrar a especialidade e o que de melhor se faz na Medicina Familiar. Temos todos de agradecer ao professor Carlos Martins por ter tido esta ideia refrescante e por ter tido capacidade para a concretizar. Poder celebrar coisas como o melhor artigo científico ou a melhor tese de doutoramento — e haver tantos candidatos — é um motivo para celebrar.

 

Fazendo um percurso pela sua carreira, como surgiu a ideia de ser médico de família? Foi a sua primeira escolha?
Por acaso, quando entrei para a faculdade queria ser neurologista. Entretanto, entrei na Associação de Estudantes, onde trabalhei na secção de Educação Médica. Ainda hoje é uma das minhas áreas de interesse. Na altura, tive o privilégio de poder contactar com uma pessoa extraordinária: a professora Patrícia Rosado Pinto. Foi uma experiência muito gratificante.

Precisamente por causa do meu trabalho na associação de estudantes, no segundo ano do curso li Tomorrow’s Doctors, um documento produzido pela Ordem dos Médicos do Reino Unido, que era um autêntico elogio à especialidade de Medicina Geral e Familiar — mais do que um documento sobre educação médica. Pela primeira vez percebi qual era o papel de uma especialidade que trabalha na comunidade e em proximidade com as pessoas, com estas características de primeiro contacto, de oferecer cuidados continuados e de coordenar cuidados entre vários profissionais. Enfim, uma especialidade com uma visão muito abrangente. Aquilo para mim foi uma novidade. Diria mesmo que foi muito sedutor. E foi nesse momento que deixei de querer seguir Neurologia e comecei a ponderar a ideia de ser médico de família.

“Há características próprias da MGF que são muito úteis para o ensino médico, nomeadamente o facto de se poder ter estágios relativamente longos, com um tutor que acompanha o desenvolvimento do aluno ao longo de um período prolongado”

Considera que os alunos entram no curso de Medicina sem terem uma noção exata do que é a MGF?
Depende. Em Portugal deparamo-nos com uma grande assimetria entre regiões no que diz respeito ao acesso a médico de família. Obviamente, quem teve médico de família e sabe como é ter esse acompanhamento ao longo do tempo terá uma visão mais positiva da especialidade. Outros poderão ter uma visão mais negativa, sobretudo se viram pessoas às cinco ou seis da manhã à porta do centro de saúde para conseguirem uma consulta.

 

E de que forma se pode alterar essa ideia mais negativa, já que não corresponde à realidade em todas as regiões?
Atualmente as escolas estão a fazer um trabalho extraordinário nesse âmbito. Por exemplo, a Universidade da Beira Interior tem grande parte do seu currículo já em cuidados de saúde primários. Braga também, assim como a Universidade do Algarve. Existem estudos que mostram que este investimento, no pré-graduado, altera a perceção dos estudantes sobre a MGF — além de melhorar os resultados em termos de aprendizagem.

Fazendo uma comparação, há cursos mais focados no ambiente hospitalar e outros menos. Não se pode dizer que um seja melhor do que o outro — pelo menos não existe evidência científica nesse sentido. Há características próprias da MGF que são muito úteis para o ensino médico, nomeadamente o facto de se poder ter estágios relativamente longos, com um tutor que acompanha o desenvolvimento do aluno ao longo de um período prolongado. Isso é muito útil em termos de educação médica.

 

Como médico de família, quais têm sido os principais desafios ao longo dos anos?
A minha realidade é muito diferente da maioria dos médicos de família, porque o meu contrato principal não é com o Ministério da Saúde nem com uma organização de saúde, mas com uma universidade. Em suma, acabo por não sentir determinados desafios.

De qualquer forma, penso que um dos desafios é manter a essência da especialidade: ser o primeiro contacto, ter uma visão global do doente e ser capaz de coordenar cuidados entre muitos prestadores de saúde  e prestadores que não são apenas do setor da saúde, mas que também têm influência na área. Isso é um esforço que todos nós devíamos fazer, mas que nem sempre é percetível. Há alturas em que este trabalho é mais fácil e noutras é mais difícil, quer por questões organizacionais quer tecnológicas. Às vezes há coisas que nos ultrapassam.

 

Fala-se muito da importância do médico de família e de se ter uma equipa de família. Mas, na prática, sente que se tem dado a devida atenção à MGF?
Existe um antes e um depois da reforma dos cuidados de saúde primários. Seguramente que se deu muito ênfase aos cuidados de saúde primários na fase inicial de mudança, mas as coisas foram mudando. A aposta em cuidados de saúde primários melhora a saúde das populações, por isso gostaria que houvesse maior investimento em vários pontos — não só em equipas de saúde familiar, mas também na nossa capacidade de resolvermos, em conjunto, a maior parte dos problemas de saúde da população.

“A possibilidade de estar essencialmente na faculdade a fazer ensino e de ajudar várias pessoas a desenvolver os seus projetos de doutoramento — assim como outras equipas a fazer investigação — é muito relevante para os cuidados de saúde primários” 

Na sua opinião, este trabalho em conjunto deve envolver também os setores privado e social? Temos atualmente as primeiras USF modelo C…
A prestação de cuidados não tem de ser necessariamente pública, mas isso exige do Estado uma contratualização muito exigente e uma capacidade de monitorizar resultados. Há inclusive universidades envolvidas em projetos, como a de Santa Maria. Não tenho nada contra o modelo C, mas parece-me justo que as condições de partida sejam semelhantes às do setor público, em termos de financiamento e de recursos disponibilizados. Além disso, a avaliação de resultados também deve ser semelhante. Devemos analisar e ter dados robustos sobre estas experiências.

Todas as políticas públicas precisam de ser bem planeadas e, sobretudo, bem avaliadas no final, para se perceber se funcionaram. Estou expectante para ver o que vai acontecer com estes novos modelos e, sobretudo, como se vão articular com as estruturas já existentes. A nossa primeira missão é melhorar a saúde das populações e, com base nessa premissa, temos de pensar de que forma o podemos fazer.

 

Como consegue conjugar atividade assistencial, ensino e investigação?
Gosto muito de MGF e da prática clínica, mas acredito que esta deva ter por base a melhor evidência científica. Para mim é essencial ajudar outras pessoas a desenvolverem-se e a realizarem o seu potencial. Tive a oportunidade de ter uma carreira que combina estas três áreas. A possibilidade de estar essencialmente na faculdade a fazer ensino e de ajudar várias pessoas a desenvolver os seus projetos de doutoramento — assim como outras equipas a fazer investigação — é muito relevante para os cuidados de saúde primários. Também seria feliz se fosse médico de família a tempo inteiro, mas agrada-me muito poder estar no ensino e na investigação.

 

Fala-se muito em burnout. Como consegue conciliar todas essas atividades sem pôr em causa a sua saúde?
É complicado. Se estivesse a falar comigo há ano e meio, talvez a resposta fosse outra. Os médicos têm muitas solicitações e, no pós-pandemia, de certeza que a maioria dos profissionais apresentava algum nível de burnout. Devemos olhar para este problema por graus, e não tanto como algo que se tem ou não se tem. Uma boa estratégia para prevenir o burnout, na minha opinião, pode ser precisamente não estar sempre a fazer o mesmo. É importante sentirmos que podemos ter uma carreira alternativa ou a possibilidade de, durante dois ou três anos, fazer algo diferente e depois voltar. Isso é fundamental para a saúde mental.

Maria João Garcia

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