Cuidados Paliativos nos cuidados de saúde primários exigem reconhecimento, carreira e incentivos
Os Cuidados Paliativos (CP) não se limitam aos hospitais, mas, na prática, não é fácil conjugar a Medicina Geral e Familiar (MGF) e os desafios de uma USF ou UCSP com a Medicina Paliativa. Sara Marques, da ULS Viseu Dão Lafões, lembra os primeiros tempos em que tentou conjugar a MGF com os CP e, face às dificuldades, defende a implementação de algumas medidas. O Jornal Médico de Família falou, ainda com o médico de família Carlos Seiça Cardoso, que demonstrou, num estudo, que é possível ter uma consulta para doentes com necessidades paliativas menos complexas e dentro do horário habitual da unidade.

Trabalhar em Cuidados Paliativos e manter a atividade clínica, como médica de família, numa USF era o sonho inicial de Sara Marques. Mas a especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) rapidamente se apercebeu que não era fácil conjugar os dois mundos. “Quis ter o melhor dos dois, mas a falta de condições e a exigência de cada área não o permitiram”, afirma.
O contacto com os Cuidados Paliativos começou ainda no internato de formação específica em MGF. Na altura, Sara Marques iniciou formação nesta valência por considerar que havia lacunas. “Via muitos utentes com doença crónica, incurável e grave e senti que precisava de mais conhecimentos e competências para desempenhar melhor o meu trabalho, enquanto médica de família.”
A partir desse momento, nunca mais parou. Começou por se dedicar algumas horas a doentes paliativos; atualmente, coordena e dedica-se a tempo inteiro à Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) Viseu-Dão Lafões. Para trás, ficou a coordenação de uma USF e os benefícios em termos de carreira e de incentivos desse modelo. “Gosto muito de ser médica de família, mas tenho uma enorme paixão pelos Cuidados Paliativos.”
Sara Marques acabou por se ver à frente de um projeto que lhe dá muito trabalho, mas também muito gozo. “Não havia resposta na região Centro e os doentes e as famílias precisavam de ajuda e acompanhamento especializado”, lembra. Mesmo entre colegas de profissão, notou-se que persistia a ideia incorreta de que os Cuidados Paliativos se destinam a pessoas em fim de vida e mais no âmbito hospitalar.
Questionada sobre as mais-valias de ser especialista em MGF com competência em Medicina Paliativa, Sara Marques destaca a visão holística, que não se cinge à doença em si, mas à pessoa. “As pessoas são únicas, cada uma tem as suas próprias necessidades, os seus recursos e o seu contexto social e familiar. Esta abrangência é fundamental quer na MGF quer na Medicina Paliativa.” Acresce, ainda, a experiência na gestão de várias atividades em simultâneo e a articulação entre níveis de cuidados. “Começou-se do zero, mas como médica de família, conhecia bem os cuidados de saúde primários, o que facilitou os contactos e planificação.”
Formação para todos desde o internato
Para Sara Marques, o papel do médico de família nas equipas de Medicina Paliativa é essencial. Na sua perspetiva, seria importante que fossem criadas medidas que permitissem que os médicos de família pudessem conjugar ambas as atividades clínicas. “Na Medicina Paliativa não temos carreira definida, não há contratualização e nem incentivos como nas USF, o que acaba por não ser atrativo para muitos colegas.”
Apesar de se falar muito da criação da especialidade de Medicina Paliativa, com a qual também concorda, a médica considera que esse passo não é suficiente. “Não seria a única solução, sobretudo para quem quer conjugar com a MGF.” Defende, ainda, mais formação pré e pós-graduada, para que todos os médicos de família – mesmo aqueles que não têm apetência por esta área – saibam como identificar doentes que possam necessitar de Cuidados Paliativos. “A formação devia ser obrigatória no internato de formação específica em MGF – incluindo na sua componente prática.”
E explica porquê: “Muitos têm receio e não sabem efetivamente como é a atividade da medicina paliativa, mas após a experiência de estágio, ficam surpreendidos pela positiva com o que se faz.”
Também se deveria apostar, na sua perspetiva, em recursos humanos e não apenas médicos. “A psicóloga da equipa tem de dar resposta a outras unidades funcionais dos CSP, repartindo o seu horário. É muito complicado. Além disso, falta apoio espiritual. Não temos ninguém que dê essa resposta especializada no âmbito dos CSP, apesar de ser fundamental em Cuidados Paliativos, até para os familiares.”
Burnout e salário emocional
Apesar das dificuldades e do caminho que ainda é preciso fazer na Medicina Paliativa em CSP, Sara Marques não se arrepende da escolha que fez há uns anos. “Pode parecer uma coisa louca, mas é muito gratificante trabalhar nesta área. O salário emocional também é importante.” Continuando: “A gratidão das pessoas – doentes e familiares – é algo muito satisfatório. Estudos indicam mesmo que os médicos dos Cuidados Paliativos têm um risco menor de burnout, em comparação com os restantes.”
Para manter esse bem-estar psicológico, não basta, contudo, o salário emocional. “Partilhamos o que sentimos nas reuniões, refletimos sobre casos ou perdas mais complexas, podemos inclusive pedir apoio à psicóloga da equipa e, em algumas reuniões, fazemos um momento de conexão entre todos, que pode ser com exercícios de respiração, uma música ou um poema.” “Os utentes e os familiares esperam que lhes transmitamos segurança e, para tal, temos que estar bem”, acrescenta.
Relativamente ao que mais aprendeu ao longo destes anos de dedicação a Cuidados Paliativos, sublinha a vontade de viver. “Ajuda-nos a rever necessidades e prioridades na vida, porque, mesmo perto da morte, ainda estamos perante a vida.”
Mais a nível profissional, menciona a mudança de paradigma. “O médico é treinado para diagnosticar e tratar e, quando tal não é possível, é visto como um fracasso. Isso não acontece nos Cuidados Paliativos. A morte não é um fracasso, mas um percurso natural da vida.”
Cuidados Paliativos nos CSP alivia sintomas físicos e emocionais
“Os doentes com necessidades paliativas pouco complexas estão perdidos no sistema. Estão nas nossas listas de utentes, mas por inércia, incapacidade, desconforto e falta de formação não têm a devida resposta.” Quem o afirma é Carlos Seiça Cardoso, especialista em MGF na USF Condeixa e investigador no grupo Palliative, End of Life and Bereavement Care no Coimbra Institute for Clinical and Biomedical Research – iCBR.
O especialista testou, no âmbito da sua tese de Doutoramento, a criação de uma consulta de Cuidados Paliativos, mas dentro das consultas de Adultos. Ao todo participaram nove médicos de família da região centro do país, que incluíram 53 doentes com cancro, doença pulmonar obstrutiva crónica, insuficiência cardíaca congestiva ou doença renal crónica em estádio avançado.
Na prática, durante 12 semanas, utentes e médicos de família viam-se regularmente (de três em três semanas) e, nas consultas, era avaliada a evolução dos sintomas físicos (como dor, astenia ou obstipação), emocionais (ansiedade ou humor deprimido) e questões práticas e de comunicação.
A formação inicial em Cuidados Paliativos aos médicos de família envolvidos contou com o apoio do Grupo de Estudos de Cuidados Paliativos da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e o método usado baseou-se num registo já conhecido pelos médicos de família, o SOAP: um acrónimo para Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano.
Na vertente subjetiva, por exemplo, a qual deve incluir as queixas do doente, o clínico passou a registar também “vulnerabilidades que, por vezes, passam mais despercebidas, como questões financeiras, de domicílio, nutrição, segurança, entre outras, mas que desempenham um papel muito importante para estas pessoas”, refere.
“Aliando a formação prévia em Cuidados Paliativos desenhada para médicos de família a este modelo de consulta, conseguimos reduzir sintomas físicos e emocionais de forma significa”, sublinha.
Continuando: “O envelhecimento da população, a carga de doenças crónicas e o conjunto crescente de pessoas com necessidades paliativas faz com que os médicos de família sintam a necessidade de ter conhecimentos nesta área.” Carlos Seiça Cardoso realça, todavia, que a existência destas consultas tem sempre de ir ao encontro da realidade dos médicos, que já estão sobrecarregados. “Tem de ser algo exequível.”
Maria João Garcia
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