“O objetivo do Encontro passa também por redescobrir o que nos encanta na MGF”
Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), fala sobre o deslumbramento da MGF, apesar dos momentos menos bons dos últimos tempos. A atual realidade das USF, as USF modelo C, a nova legislação do Registo Nacional dos Utentes ou a prevenção do burnout são alguns dos temas que aborda ao longo da entrevista.

“Regressar ao Deslumbramento” é a temática central do 42.º Encontro Nacional APMGF. Poderá dizer-se que também acaba por ser um desafio que a APMGF quer lançar aos atuais e futuros médicos de família?
Sim! São diversas as dificuldades sentidas no dia a dia, o que provoca alguma desilusão e tristeza. A ideia deste evento também é voltar a redescobrir o que são as bases da nossa especialidade, a razão pela qual a escolhemos, o que gostamos na Medicina Geral e Familiar (MGF). É voltar a redescobrir o que nos encanta na MGF e lembrar que, no meio de muitas coisas negativas, há muitas outras positivas. Neste Encontro queremos discutir temas importantes, mas sempre sob uma ótica positiva, não nos ficando somente pelo lamento. Nós, médicos de família, temos soluções para muitos dos problemas que nos afetam, mas é preciso que nos ouçam – a velha questão de sempre -, sobretudo nestes tempos tão cinzentos e sombrios.
A realização, pela primeira vez, do WONCA, em Portugal, entre 17 e 21 de setembro, em Lisboa, também poderá ser um contributo para esse regresso ao deslumbramento?
Sim! 2025 é um ano muito especial para a MGF. Curiosamente, os lemas, quer do nosso evento quer do mundial, vão muito ao encontro de novos caminhos, deslumbramento, (re) descobrir o que há de bom na MGF… Não foi nada pensado de antemão, mas, de facto, a mensagem acaba por estar bem coordenada entre todos. É preciso motivar os colegas, reunir-nos, partilhar experiências e o conhecimento científico. No fundo, o objetivo é ter um espírito renovado, voltando aos nossos locais de trabalho com força para atacar os problemas, como sabem tão bem fazer os médicos de família.
“A realidade atual nas USF” é uma das temáticas que vai ser abordada e discutida no Encontro. Que realidade é essa?
Vamos contar nessa sessão com a participação da USF-AN. A ideia é, após um ano de generalização de USF modelo B, se fazer uma avaliação. As USF são uma grande marca da reforma dos cuidados de saúde primários, que já se iniciou há duas décadas. Andamos sempre a revisitar a forma [do modelo], mas, nesta sessão em particular, a ideia é outra: perceber o que está a acontecer no terreno com esta mudança. Como tem sido o processo de generalização? O que se prevê para o futuro? Como cada um pode contribuir para o desenvolvimento desse modelo, que não é perfeito – apesar de ser o melhor – e que precisa de adaptações?
Que tipo de adaptações?
Por exemplo, como se podem constituir USF em regiões de menor densidade populacional? Como é que se podem gerir incentivos perante determinadas dificuldades? A USF-AN e a APMGF, juntos, vão pensar de forma positiva sobre o futuro das USF.
“… não se pode dizer que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está a responder, se não nos dão condições, sobretudo em locais geograficamente mais difíceis”
Nalguns locais é muito difícil criar-se uma USF…
Exato! Aliás, estas especificidades locais deviam constar da legislação. Penso que se perdeu uma oportunidade quando se reviu, recentemente, a legislação das USF, para que nos possamos adaptar a contextos de isolamento geográfico. Pode pensar-se em USF que abranjam vários concelhos, por exemplo, mas se calhar esta solução também não vai ser a resposta mais adequada para todos os locais. É preciso mesmo refletir nos modelos que se podem oferecer a colegas e equipas, que trabalham em regiões onde há menos população, onde só há 3 ou 4 listas, sem se conseguir o número de utentes previsto na legislação.
Nem sempre se consegue ter as unidades ponderadas, para se receber os respetivos suplementos, apesar de o trabalho ser idêntico ou maior que noutros sítios. Quando se escreveu “O Novo Futuro”, no âmbito dos 40 anos da APMGF, já se pensava nestas questões e, hoje, temos de continuar esse caminho. Tem de se sensibilizar os governantes – sejam eles quem for. Todos eles concordam com o que defende a APMGF, mas, na prática, ninguém avança com a legislação necessária. Isto tem de mudar, porque não podemos excluir estas equipas, nem ‘empurrá-las’ para fora deste modelo USF. Face a tudo isto, não se pode dizer que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está a responder, se não nos dão condições, sobretudo em locais geograficamente mais difíceis. E também não serão os setores privado e social que o farão, porque não existem nessas regiões. Terá de ser o SNS!
É preciso uma reinvenção do modelo de cuidados, que pode, por exemplo, não passar pela criação de uma USF?
Ou poderá ser uma USF com características diferentes. Obviamente, uma equipa com 2 ou 3 médicos não poderá fazer intersusbtituição da mesma forma que uma de 8 ou 9 médicos, mas pode fazê-lo. Os indicadores e os objetivos também são possíveis. Inevitavelmente, ter-se-á de ajustar as ponderações, porque não é igual ter 1500 utentes em Barrancos ou no centro de Lisboa, Évora, etc. Os critérios de ponderação têm de ser ajustados, porque, atualmente, estes são cegos e penalizam essas equipas, que, em vários casos, até reúnem condições para ser USF; apenas não conseguem ter condições para criar uma lista de utentes com as dimensões mínimas. Até podem ter unidades ponderadas, mas depois esbarram num número absoluto. Isto não faz sentido! Os limites têm de ser obrigatoriamente revistos; mesmo que não o sejam a nível nacional, pelo menos criem-se variáveis de contexto efetivas. Não se pode ter reformas a várias velocidades, uma legislação que deixa alguns de fora.
Obviamente, os problemas das USF não se esgotam nesta questão da baixa densidade. Tem de se olhar, igualmente, para a autonomia das USF dentro das unidades locais de saúde (ULS), para a flexibilidade, para as carteiras de serviço, para os doentes sem médico de família… Mas é preciso começar nalguma ponta, para desenrolar o novelo. Esta questão das USF em maior isolamento é um bom ponto de partida, além de ser da mais elementar justiça para estas equipas e para a população.
“Apesar das alternativas que se têm de encontrar para dar resposta aos doentes, estas são sempre soluções de recurso, não podem ser vistas como definitivas”
“Se os médicos de família não chegam, a quem recorremos?” é outra das temáticas do evento. Na sua opinião, qual é a resposta?
Essa é uma excelente questão! A reforma dos CSP começou há 20 anos, mas continuamos a ter pessoas sem médico de família. Quando não é possível atribuir, o que se faz? Fala-se muito de acessibilidade e já foram criadas, nos últimos tempos, várias portas. Mas andamos confundidos nas nossas prioridades… Essa mesa terá como objetivo reforçar que é, de facto, preciso médico de família para todos. Não podemos assumir que uns têm e outros não, como se fosse normal. Temos que ver qual a resposta a curto prazo, enquanto não há médicos para atribuir, mas isso não implica encontrar uma alternativa para o especialista em MGF!
Já se testaram vários modelos, em diversos locais, e alguns com sucesso. Mas nalguns casos evoluíram para coisas menos corretas…É essencial sublinhar que, na resposta à população, o médico de família tem de ter um papel de liderança nas equipas. E, outro ponto: que outras formas podem ter as equipas, com quem podem contar, que tarefas podem desempenhar (sempre respeitando as características de cada profissão), o que é o ato médico? E, quando tudo falha, como orientamos os utentes neste circuito? Apesar das alternativas que se têm de encontrar para dar resposta aos doentes, estas são sempre soluções de recurso, não podem ser vistas como definitivas.
Concorda, por exemplo, com a possibilidade de se contratarem prestadores de serviço, sem a especialidade, mas que fossem coordenados por um especialista em MGF?
Esse modelo já existiu na Via Verde Saúde. Não negamos a colaboração de ninguém, mas deve sempre existir a coordenação do especialista, que é o médico de família. Isso é incontornável! Mas esse recurso não é o mesmo que colocar vários colegas sem especialidade e internos numa unidade, pedindo-lhes que ‘se desenrasquem’. O mais perigoso é a lógica “é melhor isto do que nada”, porque o ter algo, pode não ser positivo. Se não houver obstetras, não vamos buscar outros médicos. O mesmo deve ser assim com a MGF.
“Pouca diferença faz se o utente está no estrangeiro ou em Portugal, o que interessa é se quer ter médico de família. Isso deve ser perguntado à pessoa, dando-lhe essa liberdade”
Nessas alternativas, o Governo está a apostar em USF modelo C, tendo sido anunciado que uma das prevista será académica, juntando prestação de cuidados, docência e investigação. O que pensa desta solução?
São duas coisas diferentes: as USF académicas e as USF modelo C. Da parte académica faz todo o sentido, porque são unidades inseridas num contexto de muita investigação. Deve ser permitido à equipa ter essa ligação, essa capilaridade, que se preveja tempo dedicado à investigação e ao ensino, e que a gestão da carteira de utentes também seja adaptada a essa realidade em concreto.
A lógica das USF C é diferente. A APMGF não fecha a porta a este modelo, mas é preciso lembrar que estas unidades foram definidas para cobrir lacunas onde o SNS não chega. Mas o que está a acontecer é que se avançou com o modelo C, quando não se explorou todas as potencialidades do SNS, não valorizando equipas. Diz-se que as USF C vão ter um financiamento diferente. Então por que não se pensou no mesmo dentro do SNS? Por que não podem as ULS organizarem as suas próprias USF modelo C? Não acreditamos que vai ser o setor privado a resolver problemas em locais remotos, por causa da baixa densidade populacional… Não se trata de preconceito em relação aos setores privado e social. Apenas criticamos este modelo híbrido. O problema não é o modelo C em si, mas não se terem esgotado as respostas no SNS.
Em abril vamos ter uma nova legislação para o Registo Nacional de Utentes (RNU). Como vê esta mudança?
Tem havido vários avanços e recuos…Em primeiro lugar, temos mais de 1,5 milhões de pessoas sem médico de família e não é por se andar com números para trás e para a frente que se vai mudar essa realidade. O número de médicos em falta vai continuar a existir; as regras diferentes não vão mascarar seja o que for. Em segundo lugar, todos concordamos que é preciso retirar das listas doentes duplicados, os óbitos, os que não querem ter médico de família por opção. A questão deveria ser básica: regras comuns para todos. Pouca diferença faz se o utente está no estrangeiro ou em Portugal, o que interessa é se quer ter médico de família. Isso deve ser perguntado à pessoa, dando-lhe essa liberdade. Sem este contacto, vamos gerar desigualdades. Esperemos que este processo seja centralizado, sem sobrecarregar as unidades, porque, muitas vezes, o ónus fica do nosso lado.
“Deslumbra-me a abrangência da nossa especialidade, a capacidade de partilha com outros profissionais, a construção de pontes e de equipas, o acompanhamento das pessoas ao longo de todas as fases da vida”
Em relação à prevenção do burnout, vale mais “trabalhar muito ou trabalhar bem”, a questão que vai ser abordada numa das mesas do evento?
Será sempre trabalhar bem! Fazer muitas horas, não significa que se trabalhe melhor, que se prestem melhores cuidados, mas apenas que passámos muitas horas no local de trabalho. Trabalhar bem em horas adequadas exige condições: equipas completas, remuneração adequada, motivação, reconhecimento pelo que é feito, ter sistemas de informação que não estejam a falhar – nos últimos meses, este problema tem sido muito impactante, quer no registo clínico quer na prescrição. Tudo isto é preciso garantir! Ninguém quer os profissionais, durante horas infindáveis, dentro das unidades apenas para resolver problemas e ineficiências. As equipas têm de dar resposta à doença crónica e à doença aguda, à vigilância.
Neste Encontro contam sempre com palestrantes não médicos. O bioquímico David Marçal vai falar sobre desinformação. É cada vez mais um inimigo dos utentes?
Sim, é um inimigo de utentes e de profissionais de saúde, da Ciência, da sociedade. No caso da Saúde, é mais complicado, porque a boa e a má informação estão acessíveis na Internet – provavelmente, a segunda até mais -, e temos que ter noção do que se passa. Esta pseudociência também surge, infelizmente, por parte de profissionais de saúde, nomeadamente médicos. Isto é muito preocupante! Temos de combater a desinformação. Não se deve ter o foco apenas na Medicina Baseada na Evidência, porque o que ainda não conseguiu evidência suficiente em estudos, pode ser importante; mas nunca se pode descurar o racional científico. Temos que ter capacidade para explicar aos colegas, e à população, que a ciência é essencial para se ter informação correta, para se obter bons resultados.
Como médico de família, o que ainda o deslumbra na MGF?
Muita coisa! Deslumbra-me a abrangência da nossa especialidade, a capacidade de partilha com outros profissionais, a construção de pontes e de equipas, o acompanhamento das pessoas ao longo de todas as fases da vida, que permite uma relação que, muitas vezes, passa de médico-doente para amizade. É muito bom conhecer o contexto do utente, o que pode justificar determinado quadro clínico. E esse conhecimento só está no terreno, com esta proximidade e capilaridade, na MGF.
Maria João Garcia











