
Oncologista médica na ULS Gaia e Espinho Presidente da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia (AICSO)
Estado da arte no tratamento dos gliomas de baixo grau
Os gliomas de baixo grau são entidades muito heterogéneas, com prognósticos e comportamentos muito variáveis, embora incuráveis. Atingem sobretudo adultos jovens até aos 45 anos. Nos últimos anos observamos um crescimento acentuado, sobretudo com a caracterização genómica abrangente. Atualmente, o diagnóstico assenta em características moleculares, aliado a caracterização morfológica e graduação pela OMS.
Para além da multiplicidade de entidades compreendidas nesta definição, a sua evolução habitualmente longa e indolente cria desafios à investigação clínica, que carece de longos anos de recrutamento e acompanhamento. Fatores de risco clínicos e histológicos estabeleceram-se historicamente antes da era molecular para ajudar a definir o prognóstico e o tratamento. Na atualidade, a cirurgia continua a ser o gold standard do tratamento. Os ensaios basilares nesta área foram promovidos por sociedades científicas como a EORTC e a RTOG e estabeleceram a utilização da RT e QT complementares com base em fatores prognósticos. A discussão de protelar a RT e a escolha entre PCV e temozolamida continua atual e ativa. Contudo, a evidência atual ainda não permite propor a omissão de RT, e tumores com mutação IDH e co-del 1p19q parecem retirar benefício dos esquemas com PCV. Mais recentemente, o ensaio INDIGO – com a utilização de vorasidenib em tumores grau 2 com doença residual ou recorrente, sem tratamento de RT ou QT prévios e sem necessidade de intervenção imediata – veio mostrar um benefício significativo na PFS e no tempo até nova intervenção versus a vigilância.
Estas doenças e os seus tratamentos cursam quase que invariavelmente com efeitos de curto e longo prazo na funcionalidade cognitiva, devendo este também ser um outcome a avaliar nos ensaios clínicos.
A intervenção multidisciplinar é assim essencial na condução do diagnóstico, do tratamento e do seguimento destes doentes de forma a abordar de forma holística também os efeitos, não só agudos, mas também a longo prazo da doença e dos seus tratamentos, carecendo de intervenções individualizadas e contínuas.
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