As angústias da saída do SNS

Artigo de opinião de João Araújo Correia, especialista em Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário de Santo António.

As angústias da saída do SNS

Dei por bem empregue o sábado que passei no 26.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos. Sob o tema genérico das Carreiras Médicas, registei o clamor geral do quanto elas são fundamentais e a urgência de as ressuscitar no setor público e no privado para garantir a motivação dos médicos, alicerçada na sua progressão contínua. As grandes empresas valorizam o bem-estar dos profissionais, porque sabem que isso melhora os resultados. A saúde não é diferente. Um médico feliz trata melhor o seu doente e está mais defendido do burnout.

Gostei de assistir a uma mesa-redonda em que os três preletores médicos foram convidados a desfiarem as razões que os levaram a abandonar o SNS, ficando com atividade integral num hospital privado. Um era especialista em Anatomia Patológica e tinha sido diretor de serviço num hospital central durante mais de 30 anos. Outro, uns 10 anos mais novo, era especialista de Cirurgia Plástica. O terceiro era especialista de Medicina Interna, grande entusiasta da Hospitalização Domiciliária, tendo conseguido implantá-la num hospital privado.

Achei muito curioso e relevante que os três estavam de acordo em duas coisas:

– A remuneração muito superior auferida no hospital privado era importante, mas não tinha sido determinante para a saída do SNS;

– Voltariam de bom grado para o SNS, se as condições do exercício da atividade médica se modificassem.

É preciso reconhecer que foram sendo acumulados vícios organizacionais nas instituições de saúde que subjugam o médico a uma lógica de métricas, em que apenas interessa a produção. O administrador é omnipresente, esmifra o tempo das consultas, dos exames e das cirurgias. As reuniões clínicas e as discussões dos doentes entre pares são uma perda de tempo. A qualidade dos cuidados pouco interessa quando não se avaliam resultados. O que interessa é fazer sempre mais, sem nos importarmos como o conseguimos.

Aceitam-se contratos de especialistas a 10h ou a 20h que vão ali fazer a sua tarefa, sem terem qualquer ligação com o serviço. No caso dos meios complementares de diagnóstico, a tendência é contratar no exterior pelo menor preço. A figura do diretor de serviço perdeu toda a autoridade. Os enfermeiros e auxiliares de ação médica têm hierarquias próprias, que não podem ser beliscadas.

Poucos são os médicos contratados com alguma intervenção do diretor de serviço, há grandes variações dos regimes e horários de trabalho, muitas decisões de mobilidade são tomadas pelo conselho de administração sem o consultar. O desrespeito pelo diretor de serviço corrói a hierarquia necessária ao funcionamento do serviço, que se acentua ainda mais com a total ausência de instrumentos que lhe permitam premiar quem se distingue e teima em querer fazer melhor. Depois, o desgraçado diretor de serviço entra em depressão com cada novo plano de atividades, que entrega diligente ao conselho de administração. Fica a pensar que ninguém o lê. Pelo menos, ninguém o chama para lhe explicarem as opções tomadas ou calendarizar as suas propostas. Grassa o imobilismo e o que muda cheira a decisão avulsa, sem estratégia.

A renovação das instalações nos serviços públicos não tem merecido a preocupação dos governantes. Ainda permanece nas mentes de alguns que as más condições estruturais são esquecidas perante a excelência dos cuidados assistenciais. É uma mentira descarada.

Com piores instalações, o doente corre maiores riscos de infeção e quedas, para além de que um ambiente agradável motiva toda a equipa de saúde e favorece o resultado final. A avaliação do grau de satisfação dos doentes e profissionais deveria fazer parte da certificação dos serviços e dos hospitais.

O outro aspeto que leva os médicos a decidirem sair do SNS é o serviço de urgência. Se não forem tomadas medidas eficazes para reduzir o afluxo de doentes às urgências dos hospitais não será estancada a sangria. Desde há 30 anos que a política de aumentar o espaço físico dos serviços de urgência, o número de médicos tarefeiros e as horas extraordinárias dos médicos do hospital mostra ser desastrosa. É preciso tomar medidas a curto prazo e outras de efeito mais tardio, mas no sentido correto.

Enquanto estamos assim há que comprometer todas as especialidades na resposta à urgência, porque é um problema do hospital e não da Medicina Interna. Depois há que dotar todos os portugueses de Médico de Família, de forma que o doente agudo de gravidade ligeira a moderada possa ser observado no centro de saúde, em vez do recurso imediato ao hospital. É assim em toda a Europa e nenhum dos países pensou que essa observação médica pudesse ser substituída por uma linha telefónica! Julgo que esta boa prática deveria ir sendo implementada nas regiões em que a cobertura por Médicos de Família já existe, dadas as assimetrias do país.

O SNS continua a ter motivos de atração para quem não faça do dinheiro o seu objetivo da vida. A privada pagará sempre mais, até poder pagar menos, se o mercado mudar. Mas no SNS o médico tem os doentes complexos e mais graves, com um número capaz de lhe abrir a porta da investigação e do ensino numa realização profissional completa. Acredito que haja quem não saia do SNS, ou volte para ele, desde que a diferença salarial não seja tão gritante, e haja quem consiga inverter o caminho de degradação dos Serviços que temos percorrido.

 

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