2024 – A Medicina Geral e Familiar mais do que nunca!
Especialista em Medicina Geral e Familiar

2024 – A Medicina Geral e Familiar mais do que nunca!

O fascínio da Medicina Geral e Familiar (MGF) tem muito a ver com a disparidade e heterogeneidade da sua prática. Muito mais de certeza do que com as razões que estão a levar os jovens colegas à sua escolha e opção para a vida. Mas tal fascínio é, simultaneamente, uma condenação pela responsabilidade e pelo desafio que situações clínicas tão complexas e diversificadas provocam.

Pensemos só por uns segundos nos problemas que a proximidade pode causar nestes médicos. Como poderão aprender a não ser esmagados profissional e pessoalmente? Como ignorar o cenário de fundo, onde estão pintados os dados emocionais do doente e eventual acompanhante e do médico?

A intimidade que se impõe e gera entre o médico de família (MF) e o doente, o seu utente, no confinamento de quatro paredes e na atmosfera por ambos partilhada chega a ser brutal. O que explica a importância que os doentes e os cidadãos atribuem à consulta e ao facto de terem o seu médico de família…

Não entender isto é não compreender a MGF. Não resolver o problema de quantos continuam sem MF é falta de critério e de estratégia. Não admitir que a generalidade dos doentes trocaria de bom grado as novidades e tecnologias por tempo e espaço para consultas frente e frente é negacionismo simplório. É fazer falhar o SNS!

Boa parte das reclamações e das queixas com médicos derivam do nosso alheamento das preocupações dos doentes. E dos seus problemas e sentimentos. Da comunicação errada ou meramente da sua falta. E, sobretudo, é essencial não descurar a atitude dos doentes! Claro que os tempos que vivemos não são fáceis. Mas sejamos honestos, os tempos correm sempre e não podem ser mais fáceis do que há 50, 100, 200 ou 500 anos…

A questão de fundo da MGF tem a ver com várias dimensões. Duas delas são imediatas. Uma primeira relaciona-se com a população, hoje mais ocupada ainda que em boa parte por outras ocupações que não o trabalho ou o tempo laboral, apta e desejosa de todas as formas e meios de consumismo rápido. O que levanta a necessidade de serviços de resposta de consultas a granel, parecendo bastar que alguém vista bata branca.

A segunda, a de que a prática clínica enveredou por uma padronização de processos, de diagnósticos e quiçá de terapêuticas. O que criou, e alimentou e sedimentou, uma trajectória que conduziu a circuitos ditos contratualizados, com regras de tempos de consulta, de resultados e de indicadores numa obsessão que tudo mede e ninguém valoriza. Porém, os dados estatísticos ou os números, nem uniformemente, proporcionam respostas sobre as razões dos comportamentos das pessoas e, em especial, das pessoas doentes…

Será bom ter em mente que a chamada e apregoada relação médico-doente, e que centra ou deveria centrar de algum modo e sempre na minha perspectiva profissional, é uma designação bastante redutora, embora clássica e vagamente académica. Não exprime a variedade de comportamentos e de sentimentos que, de ambos os lados, se estabelecem e envolvem continuadamente ao longo do tempo de partilha do percurso comum do MF e do seu utente.

Creio, portanto, que, longe de contar a história toda, este enquadramento mantém em aberto a grande pergunta formulada, em 1957, por Michael Balint e que reproduzo sem o rigor de qualquer transcrição:

– Porque é que o relacionamento entre médico e doente pode ser insatisfatório ou até infeliz?

 

*O autor escreve segundo o A.A.O.

 

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