15 Fev, 2019

Tratamento do VIH em Populações “Especiais”

A nível global estima-se que cerca de 40% das novas infeções ocorram entre os 14 e os 24 anos (UNAID, 2017). Em Portugal cerca de 50% dos novos casos foram diagnosticados entre os 15 e os 34 anos (DGS, 2017), englobando assim adolescentes e adultos jovens. um grupo com características muito particulares que devem ser tidas em conta para garantir o sucesso terapêutico.

Coube à Dra. Flora Candeias, médica da Consulta de Imunodeficiências do Hospital de D. Estefânia (HDE), unidade do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC), abordar o tratamento da infecção por VIH neste grupo “especial”. Criada há cerca de três décadas, a consulta de Imunodeficiências é hoje preenchida pelos “sobreviventes”, hoje jovens adultos, muitos dos quais já transitaram para a consulta de adultos, e pelos que foram surgindo posteriormente e que estão ainda em idade pediátrica, na sua maioria, adolescentes assintomáticos ou pouco sintomáticos, que adquiriram a infecção por transmissão vertical.

Dr.ª Flora Candeias

A “Especificidade” deste grupo assenta no facto de que “ser adolescente implica uma mudança de comportamentos e atitudes dos quais resultam riscos importantes para a adesão ao tratamento, com resultante falência terapêutica”, começou por explicar a especialista, precisando que “os limites cronológicos da adolescência definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) são entre os 10 e 19 anos, enquanto que a Organização das Nações Unidas (ONU) prolonga este conceito até aos 24 anos, sendo que a maioridade legal e a idade de transição para consulta de adultos se define aos 18 anos”. Devido às alterações biológicas e psicossociais que ocorrem neste período, “o adolescente coloca sérios desafios ao seu seguimento adequado, como sejam a manutenção de níveis elevados de adesão ao tratamento e à consulta”, prosseguiu Flora Candeias.

À semelhança do que acontece com os adultos, os objetivos da terapêutica antirretrovírica nos adolescentes são: restaurar e/ou preservar a imunidade; suprimir a replicação viral; prevenir a emergência de mutações de resistência; manter um crescimento físico normal assim como um desenvolvimento neurocognitivo adequado; e em última análise reduzir a mortalidade e morbilidade associadas ao VIH.

Neste grupo, afirmou a especialista do HDE, “a escolha da terapêutica antirretrovírica não tem em conta somente a idade, mas também a maturidade sexual do adolescente, ou seja, os estádios de Tanner, sendo que do estádio I ao III é feita à semelhança da terapêutica na criança, tendo em conta o peso, e nos estádios IV e V, segundo as orientações dadas para o adulto”.

Audiência da Mesa-Redonda “Tratamento para VIH em populações especiais”

A seleção do regime terapêutico “deve ser eficaz e ter em conta a eventual existência de resistências anteriores, ser bem tolerado e, sempre que possível, deve ser simplificado (menor número de comprimidos)”, explicou Flora Candeias. A melhor opção terapêutica, salientou, “deve ser discutida com o jovem, envolver a família ou cuidador, com apoio da Farmácia e psicossocial sempre que necessário, e ter em conta uma boa adequação à vida diária do adolescente”.

Por outro lado, alertou a médica, é preciso ter em conta que “muitos destes jovens foram sujeitos, no passado, a variados esquemas, incluindo monoterapias e terapêuticas duplas de acordo com a medicação que se encontrava disponibilizada, tendo adquirido múltiplas resistências”. Nestes casos, explicou, “a escolha do tratamento adequado é um verdadeiro desafio. A supressão viral no adolescente é da maior importância, não só para a sua própria saúde, mas também para controlo da transmissão por via sexual e da transmissão mãe-filho”.

Para que o seguimento destes doentes seja bem-sucedido, é necessário “que sejam bem informados sobre a infecção e sobre as implicações para a sua saúde caso não adiram ao tratamento”, sublinhou Flora Candeias. É igualmente importante, salientou, “a promoção de hábitos de vida saudáveis, integração em grupos de apoio, controlo regular da compreensão das informações dadas, preparar a transição para a consulta de adultos, e a consequente maior autonomia na sua vida futura.

ler mais

RECENTES

ler mais