Especialista em Medicina Geral e Familiar Coordenadora da USF Cedofeita

Tratamento da obesidade “deve ser individualizado e personalizado”

A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, mas que pode ser prevenida na generalidade dos casos e tem tratamento.

Como médica de família, o acompanhamento do doente obeso é um desafio inerente à realidade atual. Nas consultas é visível o aumento ponderal dos doentes pós-confinamento, alguns previamente com excesso de peso e atualmente com obesidade. A relação entre obesidade e outras doenças cardio-metabólicas, como diabetes, ou cardiovasculares, como a hipertensão, origina uma preocupação adicional pois o risco de eventos cardiovasculares aumenta significativamente.

Em Portugal, cerca de 22,3% da população adulta é obesa, com maior prevalência da população idosa (39.2%). A avaliação do doente deve ser global, incluindo a avaliação dos parâmetros antropométricos, e traduz uma oportunidade única para a sustentabilidade de medidas preventivas relativas à obesidade. A avaliação do peso, com consequente cálculo do índice de massa corporal, e a medição do perímetro abdominal permite que o médico de família possa abordar o tema de excesso de peso/obesidade integrado na consulta. Essa janela de oportunidade permite que, mesmo durante a consulta, se consiga avaliar a motivação do doente para a perda de peso.

Um dos fatores essenciais no sucesso terapêutico é a determinação dos ganhos em saúde caso o doente perca peso e os riscos inerentes à manutenção da obesidade e essa avaliação deve ser sempre abordada na consulta. O pensamento reflexivo deve estar sempre presente e o doente deverá ser parte integrante no seu processo de melhoria em saúde. Só assim, se conseguirá objetivamente a perda de peso necessária para que o doente evolua para a normoponderalidade.

De modo a obter-se melhoria clínica, devem ser excluídas as causas mais comuns responsáveis pela obesidade, nomeadamente o consumo de energia em excesso, as opções alimentares hipercalóricas, a baixa atividade física/sedentarismo, o défice de sono, alterações psicológicas (depressão, ansiedade, stresse, etc.) e a utilização de medicamentos específicos (psicotrópicos, corticoides, etc.), entre outros. O ambiente familiar, social e económico poderá ser também responsável pela dificuldade da obtenção de objetivos propostos de perda de peso.

O maior desafio do médico de família é relacionar toda a envolvência do doente, as suas características intrínsecas e extrínsecas e, em parceria com este, ajudá-lo e apoiá-lo nas melhores decisões de saúde. Tal papel muitas vezes é dificultado pela gestão das diversas comorbilidades que os doentes com obesidade comummente apresentam na consulta e o tempo necessário para orientar cada problema e respetiva solução. Daí que o tratamento da obesidade, assim como de outras doenças crónicas, deve ser individualizado e personalizado.

A abordagem ao doente obeso deve basear-se no reforço de literacia em saúde, no contexto alimentar e de atividade física e, caso não seja suficiente, o médico de família deve utilizar armas terapêuticas disponíveis para ajudar o doente no seu objetivo de peso. Cada doente tem as suas características, pelo que o fármaco deve ser escolhido consoante as necessidades e preferências do doente, de modo a permitir uma melhor adesão. Tal permite que o doente tenha uma participação ativa no seu tratamento e seja corresponsável pelo sucesso da perda de peso.

A obesidade é uma doença crónica e o seu tratamento é um desafio em todos os níveis de atuação. Mas a adoção de estilos de vida é essencial e a relação médico-doente é fundamental para que o doente deixe se ser doente (obeso) e passe a ser saudável.

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