Médico de Família

Sarampo, sarampelo, sete vezes …

Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade, ficando a verdade sem pés e com dobradas forças a mentira.
P. António Vieira

Quando os programas de vacinação massiva foram lançados, tiveram de vencer a resistência das superstições próprias do atraso sociocultural da época. Com insistência, e perante os extraordinários resultados da vacinação infantil, esta tornou-se universal e as populações aderiram massivamente. Independentemente da sua fundamentação científica a vacinação tornou-se um autêntico ritual. Digamos que tem o mesmo valor simbólico dum amuleto, só que os efeitos práticos dessa adesão foram espetaculares, quaisquer que sejam as suas motivações.

O  recente surto de sarampo tornou evidente uma curiosa realidade sociológica: surgiu um novo obscurantismo, o dos iluminados.

A educação para a saúde, que no passado resultou em impressionantes sucessos na luta contra doenças preveníveis por vacinas, enfrenta hoje em dia um desafia maior. Se a autoridade científica tinha algum prestigio, mesmo entre as camadas mais atrasadas culturalmente, atualmente tem pela frente reptos mais escarpados. Os novos obscurantistas recusam essa autoridade de forma axiomática, ou então usurpam-na.

Numa publicação deste género não faz sentido realçar as vantagens da vacinação. Será mais útil refletir sobre o fenómeno pseudociência e como lidar com os riscos que lhe são inerentes.

A pseudociência grassa entre franjas cultas  e sofisticadas da sociedade, donde lhe vem uma certa arrogância e autoconvencimento. E é algo convincente porque faz apelo a um certo cartesianismo: pôr em causa verdades estabelecidas. Só que há uma diferença entre pôr em causa, enquanto ferramenta de verificação, e pôr em causa, enquanto método negação apriorística, com roupagens de julgamento prévio. Dito de outro modo: ao contestar um paradigma ou um facto segundo a visão verdadeiramente cartesiana, admitem-se dois possíveis desfechos: ou se revela a sua falsidade ou se confirma a sua veracidade. A metodologia a que deita mão a pseudociência, travestida de cartesianismo e heterodoxia, engana muito boa gente, mas a verdade é que do principio que todas as verdades estabelecidas são falsas. Assim sendo fica o caminha aberto para imporem a sua, que, curiosamente, não aceitam pôr em causa. Ora isto não é dúvida metódica mas sim dogmatismo. Tem todo as características de um ato de fé, impermeável ao uso de instrumentos de análise racional. Bastará uma visita rápida pelos sites do movimento para confirmar o fanatismo em que se embrenharam.

Como lidar então com o regresso do sarampo? Aumentar, junto da população, a literacia em saúde? Sem dúvida. Porém, a informação sobre saúde talvez tenha de ser reconfigurada, tornando-se mais sofisticada e deverá incluir o esclarecimento epistemológico. Isto é: deverá empenhar-se em divulgar não só conhecimento em si, mas também o método científico, ou seja, o meio de produzir conhecimento. Uma forma de transparência epistemológica, por assim dizer. Explicar o porquê e não só o quê. É importante deixar claro que heterodoxia (abertura à novidade) e pseudociência (ortodoxia encapotada e infundada) são coisas bem diferentes. Portanto, em primeiro lugar: reforçar a imagem do produto vacina.

Para além desta iniciativa defensiva (defender o bom nome das vacinas), não se  deve descurar o contra ataque: divulgar a história de Andrew Wakefield e desmascarar as todas as incongruências e desonestidades do movimento anti-vacinas.

Mas, como vimos, estamos perante uma população peculiar e alterar o paradigma da educação para a saúde provavelmente não será suficiente. A sobrevivência da negação à vacina do sarampo, que se iniciou em 1998, demonstra que este movimento é diferente da tradicional resistência à novidade. Apesar da génese do movimentos se basear numa fraude e das evidências comprovarem inequivocamente a sua falta de fundamentação, a recusa da vacinação não cessa de ganhar adeptos. Estamos perante um assunto tratado como matéria de fé e não da razão. Daí se pode concluir que o modo como se tem lidado com a proteção contra estas doenças, baseado na informação e na adesão voluntária à vacina, nomeadamente o sarampo, falhou redondamente. 

Não seria necessário equacionar obrigatoriedade da vacinação não fosse a determinação dos zelotas anti-vacinas cujo fanatismo põem em causa a saúde de pública e é moralmente responsáveis pela morte evitável duma jovem de 17 anos. Se por um lado proibir é antipático, a verdade é que às vezes é preciso fazê-lo. Para não ir mais longe, o uso de capacete para a condução de motorizadas ou o uso de cintos de segurança são violações da liberdade individual, mas pacificamente aceites, porque justificadas. Aliás, o poder dos pais sobre os filhos não é absoluto, como insinuam os defensores da escolha.

Resumindo: a proteção contra doenças transmissíveis está precisando da ajuda de sociólogos, psicólogos, especialistas de markting e juristas.

 

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