15 Nov, 2018

Resistência aos antibióticos agrava-se. “É a própria medicina moderna que está em causa”, alerta Paulo André Fernandes

Um estudo agora divulgado pela OCDE alerta que podem morrer 40 mil pessoas em Portugal até 2050 na sequência deste problema, estimando-se que por ano morram acima de 1.100 portugueses.

Portugal tem dos mais altos rácios mortalidade no conjunto de mais de 30 países analisados, com 11,3 por 100 mil habitantes, apenas ultrapassado por Itália e Grécia. O Saúde Online esteve à conversa com o ex-diretor do programa Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos da DGS. Paulo André Fernandes garante que é possível evitar o agravamento do problema nas próximas décadas e admite que, muitas vezes, prescrever um antibiótico é o caminho mais fácil.

Saúde Online | Como é que podemos encarar o problema da resistência aos antibióticos?

Dr. Paulo André Fernandes | Devemos encarar com noção de que é importante, de que é o principal efeito adverso associado aos internamentos. Internamos os doentes para os tratar ou para diagnosticar problemas de saúde e, como sabemos, o efeito adverso mais grave são as infeções associadas aos cuidados de saúde – muitas vezes por microrganismos multirresistentes. De acordo com trabalhos publicados nos últimos anos (e com grande repercussão a nível mundial), as resistências aos antimicrobianos serão a principal causa de morte em 2050. Só este dado justifica que sejam tomadas medidas para que isso não aconteça. Não estamos a falar de fatalidades (terramotos, furacões) que não podemos evitar que aconteçam. Estamos a falar de algo que é provocado pelas práticas de utilização de antibióticos a nível mundial. Temos de encarar o problema, não com alarmismo, mas com noção da sua gravidade.

A [excessiva] utilização de antibióticos a nível mundial é um problema pelo qual são responsáveis uma série de entidades, desde os cidadãos aos decisores políticos. Com particular importância nas práticas dos médicos, que prescrevem os antibióticos.

Acha que os médicos e os pacientes não estão ainda suficientemente sensibilizados para a necessidade de limitar o uso de antibióticos?

PAF | Não estão de certeza. Se estivessem as práticas eram outras. É verdade que a sensibilização tem vindo a ser feita. Ocasionalmente a imprensa fala do assunto. Nos hospitais, há profissionais que tentam sensibilizar e formar os colegas. Portanto, a noção sobre a importância do uso correto dos antibióticos tem vindo a crescer até na população.

Temos, por vezes, o barómetro da União Europeia sobre este problema dos antibióticos e os resultados, nomeadamente em Portugal, demonstram que – embora continuemos numa posição pouco simpática a nível europeu (os nossos cidadãos são dos que menos sabem de antibióticos) – temos vindo a melhorar. Nomeadamente em questões como não se dar antibióticos para as gripes, o facto de o antibiótico não matar os vírus. Portanto, estas noções muito simples estão mais consolidadas. Contudo, continuamos a usar mal os antibióticos em muitas situações.

Prescrever um antibiótico é o caminho mais fácil?

PAF | Muitas vezes é. As pessoas veem o imediato. Pelo sim, pelo não, toma-se antibiótico. Pode ser um bom resultado no imediato: a pessoa melhora. Mas não sabe se não melhoraria mesmo sem o antibiótico. Essa pessoa esquece-se que, a prazo, cada vez vamos ter mais dificuldade em tratar essas infeções.

Há algumas gerações atrás, morria-se de tuberculose, de pneumonia. Não havia maneira de tratar estas doenças. As doenças infeciosas eram uma das principais causas de morte a nível mundial. A determinada altura, quer as populações, quer os médicos começaram a confiar nos antibióticos de uma forma extrema, não dando atenção à resistência. Isto porque as bactérias adaptam-se, ganham resistências. Matando aquelas que são mais sensíveis aos antibióticos, estamos a selecionar populações de bactérias resistentes, que não conseguimos tratar.

Em que situações é que pode evitar o uso do antibiótico?

PAF | Por exemplo, a gripe – nesta fase é uma boa altura para falar nisso. Os chamados síndromes gripais, que temos quase todos durante o inverno, são situações típicas nas quais o antibiótico não tem qualquer indicação e, apesar disso, é prescrito com grande frequência. A gripe é uma doença aguda, transitória, causada por um vírus e os antibióticos não matam os vírus.

Por outro lado, a seguir à gripe, muitas vezes temos períodos de tosse com expetoração, mas, desde que sejamos saudáveis e não tenhamos outro tipo de doenças, não é necessário tomar antibiótico nessa fase.

Sente que muitas vezes as pessoas ficam com a sensação de que, se o médico não lhe prescrever antibiótico é um mau médico?

PAF | Se a pessoa não está alertada para o problema, quando o médico não lhe prescreve antibiótico fica a achar isso. E os médicos que estão sujeitos a grande pressão – para que demorem pouco tempo com cada consulta – não têm tempo para exercer a devida pedagogia no doente e explicar que este não tem indicação para tomar antibiótico. E o doente vem contente e convicto de que está a fazer o tratamento indicado. Se não prescrevermos o antibiótico, a pessoa acaba por ir a outro médico até que há um que acaba por lhe prescrever.

Porque é que Portugal é um dos países que mais sofre com este problema?

PAF | Estivemos muito tempo a usar os antibióticos de uma forma desmedida. Em 2012, um estudo da União Europeia, que avaliou a prevalência das infeções hospitalares, chegou-se à conclusão de que 45% dos internados em Portugal estavam a fazer antibiótico, quando a média europeia ronda os 35%. Portanto, usámos muito os antibióticos durante um período, depois melhorámos, e nos últimos dois anos esse consumo voltou a subir.

Estamos agora perto da média europeia. Agora, pior é o tipo de antibióticos que consumimos: antibióticos de largo espectro, como é o caso das quinolonas e dos carbapenemos. Principalmente estes últimos, que são uma família de antibióticos de muito largo espetro. Devem ser antibióticos de fim de linha e em, em 2016, éramos o segundo país da europa que mais os prescrevia (mais do dobro da média europeia). E, portanto, são estas práticas menos corretas que levam a que estejamos nesta situação.

Disse há pouco que não é inevitável que a resistência aos antibióticos se torne na primeira causa de morte a nível mundial em 2050. Como é que podemos evitar que isso aconteça?

PAF | Consumindo os antibióticos com mais racionalidade. Consumir apenas quando é necessário e durante o tempo em que é necessário. Há uns anos, nos hospitais, os períodos de terapêutica antibiótica, eram de duas semanas; hoje em dia, há muitos trabalhos que demonstram que basta fazer 7 ou 8 dias de antibiótico. Há uma série de regras que devem ser cumpridas e não só na medicina humana, também na medicina veterinária. As práticas que existem na saúde animal e na humana concorrem para a geração desta resistência: nós ingerimos carne e contactamos com esse tipo de resistência a nível animal. Portanto, tem de haver um esforço a todos os níveis.

Esta evolução das resistências não torna só o tratamento das infeções mais difícil. Por exemplo, a terapêutica oncológica é muito agressiva, destrói a imunidade dos doentes e é acompanhada, muitas vezes por infeções. Tratamos as infeções e o doente sobrevive. Se viermos a ter mais dificuldade em tratar essas infeções, não faz sentido fazermos terapêuticas mais agressivas nas neoplasias se não conseguimos lidar com as infeções que surgem a seguir. Por exemplo, os bebés prematuros, que hoje em dia conseguimos que sobrevivam apesar de terem défices imunitários e contraírem infeções com mais facilidade, são tratados. E também numa série de outras situações, como as cirurgias.

Portanto, é um problema que está a montante de tudo o resto?

PAF | É um problema civilizacional. É a própria medicina moderna que está em causa. Grande parte dos avanços da medicina moderna fez-se sob o “chapéu” das infeções. Se não conseguirmos tratar as infeções, como é que vamos conseguir que sobrevivam bebés prematuros? Como é que vamos conseguir fazer cirurgias alargadas?

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