18 Fev, 2022

Prémio Bial de Biomedicina distingue trabalho precursor de vacinas contra a covid-19

O Prémio foi atribuído a um estudo pré-clínico de uma vacina contra o vírus Zika baseada na tecnologia genética de ARN mensageiro, atualmente utilizada nas vacinas contra a covid-19.

O Prémio Bial de Biomedicina 2021 foi atribuído a um estudo pré-clínico de uma vacina contra o vírus Zika baseada na tecnologia genética de ARN mensageiro, atualmente utilizada em duas vacinas para a covid-19.

O estudo, publicado em 2017, foi conduzido por uma equipa liderada pelo imunologista norte-americano Drew Weissman, que inclui a bioquímica húngara Katalin Karikó, vice-presidente da BioNTech e autora da patente na qual se baseia a vacina contra a covid-19 criada em conjunto pela empresa biotecnológica alemã e a farmacêutica norte-americana Pfizer.

O Prémio Bial de Biomedicina, no valor de 300 mil euros, é concedido pela Fundação Bial, que distingue, desta forma, um trabalho na área biomédica que tenha sido publicado após 01 de janeiro de 2012 e que traduza resultados de “excecional qualidade e relevância científica”.

A equipa de Drew Weissman testou com êxito a eficácia de uma vacina de ARN mensageiro (ARNm) contra o vírus Zika em ratos e macacos.

Hoje, a tecnologia de ARNm (molécula responsável pela transferência de informações do ADN para a região interna da célula, o citoplasma) é usada nas vacinas dos laboratórios Pfizer e Moderna contra o SARS-CoV-2, o coronavírus que causa a doença respiratória covid-19.

Enquanto as vacinas tradicionais “usam frequentemente vírus modificados para provocar uma reação no sistema imunológico”, a tecnologia testada pela equipa de Drew Weissman, que leciona na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, usa um ARNm sintético “para permitir que o organismo se prepare para se defender” do agente infeccioso, explica em comunicado a Fundação Bial, que tem o nome da farmacêutica portuguesa.

Segundo a mesma nota, o ARNm sintético “faz com que as próprias células do corpo sintetizem uma proteína viral que estimula a resposta imunológica do corpo”.

No caso do SARS-CoV-2, o ARNm sintético vai “copiar” a proteína da espícula, a que permite ao vírus entrar nas células humanas.

“Esta espécie de cópia não é nociva como o vírus, mas é suficiente para desencadear uma reação das células do sistema imunológico, o que cria uma defesa vigorosa no organismo”, adianta o comunicado da Fundação Bial.

A nota salienta que o sucesso das vacinas contra a covid-19 assentes na tecnologia de ARNm se deve, “em grande parte”, ao trabalho antecessor de Drew Weissman, Katalin Karikó e Norbert Pardi, que também assina o artigo científico premiado, que conseguiram fazer o “sequenciamento exato” do ARN e “criar uma vacina que protege a sequência do ARN dentro de uma nanopartícula composta por lípidos, que permitiu que o ARN fosse absorvido pelas células de forma muito mais eficiente”.

Em declarações telegráficas à Lusa, o imunologista norte-americano Drew Weissman disse que as vacinas de ARNm contra a covid-19 “estão a tornar-se mais potentes” e que, “possivelmente, no futuro, uma única imunização pode ser suficiente e os reforços não serão necessários”.

Drew Weissman reconheceu que o trabalho que liderou, agora reconhecido pela Fundação Bial, não teve continuidade, assinalando que “o esforço para desenvolver uma vacina contra o Zika foi bastante reduzido” com o fim da epidemia com este vírus.

Contudo, realçou a “enorme potencialidade” da tecnologia de ARNm para “muitas doenças infecciosas, autoimunes e cancro”.

“Continuamos a desenvolver outras vacinas, incluindo para VIH/sida, gripe, hepatite C, C.diff [infeção bacteriana que causa diarreia grave e inflamação intestinal], malária, tuberculose”, elencou.

A Fundação Bial foi criada em 1994 pela farmacêutica com o mesmo nome e pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e tem por missão “incentivar o estudo científico do ser humano”.

O Prémio Bial de Biomedicina é concedido em anos ímpares, tendo a primeira edição ocorrido em 2019.

O júri da edição de 2021 foi presidido pelo neurocientista Ralph Adolphs, professor de psicologia, neurociências e biologia no Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos.

LUSA

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