O vídeo, com fraca qualidade e com apenas sete segundos, começou a circular este sábado nas redes sociais e mostra o primeiro-ministro, visivelmente irritado, numa conversa em off com jornalistas do Expresso. Nele pode ouvir-se António Costa a  chamar “cobardes” aos médicos na sequência da resposta ao surto de Covid-19 no lar de Reguengos de Monsaraz. As declarações do primeiro-ministro já motivaram, entretanto, várias reações.

É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram“, disse António Costa. Em causa está a recusa, por parte de vários médicos hospitalares, em cumprir, no início de julho, o despacho da ARS Alentejo para garantir equipas médicas e de enfermagem no lar de Reguengos de Monsaraz.

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) já reagiu através de comunicado. “Lamentamos, reprovamos e repudiamos em absoluto as palavras de Vossa Excelência”. “Os médicos merecem e exigem respeito, muito mais partindo do chefe do Governo”, acrescenta.

 

“Médicos do SNS não são médicos em lares”, diz SIM

 

O SIM defende que o despacho da ARS do Alentejo estava ferido de ilegalidade. “Os médicos do SNS são médicos no SNS, não são médicos em lares, nem para protegerem as costas a amigos políticos seja de que cor forem. A determinação da ARS Alentejo de alocar ao lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva equipas de médicos do Agrupamento de Centros de Saúde Alentejo Central e do Hospital Espírito Santo de Évora estava ferida de ilegalidade face às convenções coletivas de trabalho”, escreve o sindicato, acrescentando ainda que “trabalho dos médicos do SNS só pode decorrer nas instalações de estabelecimento contratualmente identificado onde os médicos se encontram colocados ou em estabelecimento da mesma entidade empregadora pública situado no mesmo concelho”.

Também a FNAM exige respeito para com os médicos. “Estas declarações, proferidas por um chefe de Governo, são chocantes e totalmente inapropriadas, insultando de forma vergonhosa e indigna todo um grupo profissional cuja competência, capacidade de trabalho e resiliência para exercer a sua profissão em condições cada vez mais degradadas, pondo os interesses dos doentes acima de qualquer outra consideração, não pode ser contestada”, afirma a federação dos médicos.

“Esta é a pior altura para abrir uma guerra com os médicos”, diz o bastonário da Ordem dos Médicos (OM) ao Jornal de Notícias. Foi esta a reação de Miguel Guimarães entrevista de António Costa publicada este sábado no Expresso, onde o primeiro-ministro afirmou que as ordens profissionais “existem para regular o exercício da atividade dos seus profissionais” e não para “fiscalizar o Estado”.

Segundo António Costa, a OM uma entidade não tem “competência legal” para fazer a auditoria ao lar de Reguengos de Monsaraz. Já o bastonário garante que a OM não fiscalizou o Estado mas pode e deve fiscalizar entidades do sector privado e social caso a qualidade dos cuidados de saúde possa estar ameaçada.

Já esta segunda-feira, e confrontado com o vídeo, o bastonário da OM foi perentório. “As declarações do senhor primeiro-ministro foram infelizes (…) estas declarações de alguma forma ofenderam os médicos”, referiu. Miguel Guimarães assegura que não houve “nenhuma recusa” por parte dos médicos de família do centro de saúde para tratar os doentes com covid-19 em Reguengos de Monsaraz.

“Os médicos de família protestaram e, alguns de forma veemente e bem, porque não tinham as condições adequadas para tratar daqueles idosos”, afirmou o bastonário.

 

Jornal Expresso repudiou divulgação do vídeo

 

O CDS-PP e o Chega criticaram as afirmações do primeiro-ministro sobre médicos, que circulam nas redes sociais, e pediram uma retratação de António Costa e uma repreensão por parte do Presidente da República.

Paralelamente o partido Iniciativa Liberal (IL) considerou inaceitável que o primeiro-ministro “afirme que as ordens profissionais não existem para fiscalizar o Estado” e pediu que assuma responsabilidades no caso de mortes por covid-19 num lar de Reguengos de Monsaraz.

Confrontada com as posições destes partidos, a deputada socialista referiu à Lusa que viu “pelo menos um deputado a retirar as expressões que utilizou” e deixou um pedido.

“Apelo para que, numa fase ainda de pandemia, continuemos a colocar em primeiro lugar a prestação de cuidados de saúde e o interesse dos utentes. Devemos estar todos empenhados em trabalhar para esse efeito. O PS está, o Governo está, e julgamos que todos devem estar”, concluiu.

Entretanto, o Expresso já repudiou, numa nota da Direção, a divulgação desse vídeo. “Os sete segundos do vídeo ilegal descontextualizam quer a entrevista, quer a conversa que o primeiro-ministro teve com o Expresso”, refere a nota, acrescentando que o jornal “desencadeará, de imediato, os procedimentos internos e externos para apurar o que aconteceu e os responsáveis pelo sucedido”.

TC/SO

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