Pedopsiquiatria em debate nas maiores jornadas médicas nacionais
As VIII Jornadas Multidisciplinares de Medicina Geral e Familiar, que se realizam de 19 a 21 de março, no Porto, já ultrapassaram 3 mil inscrições, consolidando-se como o maior evento médico a nível nacional e uma referência na formação clínica em Portugal.

A edição deste ano vai começar com uma mesa-redonda sobre “Pedopsiquiatria de consultório”. “Este é um tema que preocupa os médicos de família devido ao aumento de casos de ansiedade, depressão e perturbações do espectro do autismo em crianças”, afirma o médico de família Paulo Pessanha, copresidente do evento, juntamente com Manuel Viana e Rui Costa, também especialistas em Medicina Geral e Familiar.
Paulo Pessanha explica que a escolha do tema se deve, em grande parte, ao “crescimento exponencial de perturbações depressivas e ansiosas em crianças e adolescentes, muitas vezes não percecionadas pelas famílias e pelos próprios clínicos, assim como à identificação precoce de situações do espectro do autismo, que podem variar de leves dificuldades de interação social até formas mais graves da condição”.
Para o médico, trata-se de uma realidade da maior importância da prática clínica e que exige formação adequada: “cada vez mais há crianças com depressões que, em última análise, podem levar a comportamentos autolesivos ou suicídio – e há suicídio infantil, em crianças com 10, 11, 12 anos, algo que grande parte das pessoas não se apercebe”.
O presidente das jornadas sublinha que fatores como redes sociais, filmes com forte dramatismo e agressividade, e a falta de acompanhamento próximo por parte dos pais concorrem para o aumento destes quadros clínicos, agravados por vidas familiares cada vez mais exigentes e fragmentadas. “Situações que começam com sinais aparentemente insignificantes podem evoluir para depressões profundas. É preciso estarmos atentos”, afirma.
Quando questionado, Paulo Pessanha salienta que o papel da Medicina Geral e Familiar é fundamental na deteção precoce desses sinais, graças ao conhecimento da estrutura familiar que estes especialistas possuem e à descoberta de sintomas que muitas vezes indicam perturbações psíquicas: “Perturbações do sono, dores de cabeça ou abdominais podem ser sinais e sintomas de alterações psicológicas/psíquicas. A criança somatiza os seus medos”. O médico alerta ainda para comportamentos obsessivos que, se não forem interpretados no contexto adequado, podem passar despercebidos.
A Pedopsiquiatria é apenas um dos temas do programa desta edição. Paulo Pessanha destaca também a sessão de Dermatologia, reforçando a importância de o médico de família saber identificar sinais e sintomas de patologia dermatológica: “Em certas situações não será necessário encaminhar o doente para uma consulta hospitalar, o que é muito vantajoso, tanto para o sistema, como para os próprios doentes.”
Na sessão de Oncologia, serão abordados os efeitos prolongados da quimioterapia após a alta hospitalar, permitindo que o médico de família saiba gerir sintomas e complicações, recorrendo à especialidade apenas quando se justifique.
Quanto à Ginecologia, o especialista sublinha a necessidade de atualização constante, nomeadamente em relação à terapêutica hormonal de substituição. “Com a Internet, atualmente, as doentes chegam muito informadas às consultas, fazendo perguntas que exigem respostas fundamentadas.”
Entre os demais temas do congresso estão ainda alergias e intolerâncias alimentares, prescrição de anti-inflamatórios, entre outros, sempre com espaço para discussão e interação com a plateia. “Além da discussão dos temas por parte dos oradores, reservamos sempre cerca de 15 a 20 minutos por sessão para esclarecimento de dúvidas e diálogo entre especialistas hospitalares e médicos de família”, indica.
O maior evento a nível nacional
Questionado sobre a génese das jornadas, Paulo Pessanha recordou que a ideia surgiu há oito anos, em conjunto com os colegas Manuel Viana e Rui Costa, como um projeto “de amigos à volta de uma mesa de café” que hoje se transformou nas maiores jornadas médicas nacionais.
O objetivo, enfatiza, sempre foi oferecer formação médica contínua, prática e adaptada às necessidades reais do médico de família, “porque muitas formações tradicionais não têm essa ligação direta com a prática clínica diária”. A evolução do encontro tem sido notável: este ano, já ultrapassou as 3 mil inscrições, com participação ativa de médicos desde internos até profissionais mais experientes.
Paulo Pessanha salienta ainda a importância da acreditação pela UEMS (Conselho Europeu de Acreditação para a Formação Médica Contínua), que confere créditos reconhecidos internacionalmente e que são particularmente valorizados “por médicos em formação ou que desejem candidatar-se a programas de especialização no estrangeiro”.
Enquanto o evento continua a crescer e a diversificar temas ano após ano, para os organizadores a jornada continua a ser, simultaneamente, um espaço de aprendizagem, convívio e atualização pessoal e profissional. “Organizar estas jornadas obriga-nos a atualizar-nos. No dia a dia clínico, com a carga assistencial enorme, nem sempre há tempo para estudar. Com a organização das jornadas, aprendemos, discutimos e melhoramos a nossa prática”, concluiu Paulo Pessanha, destacando o espírito colaborativo e a importância do encontro para o futuro dos cuidados de saúde primários em Portugal.
Sílvia Malheiro
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