Inteligência Artificial ganha peso na saúde, mas setor ainda enfrenta dificuldades na implementação
Mais de metade dos CEO das instituições de saúde consideram que o principal entrave à implementação da inteligência artificial é o acesso aos dados, seguido das preocupações relacionadas com a capacidade técnica e a falta de competências especializadas para integrar a tecnologia.

A inteligência artificial (IA) está a assumir um papel cada vez mais relevante no setor da saúde, sobretudo na resposta à escassez de profissionais, ao aumento da procura por cuidados e à pressão crescente sobre os sistemas de saúde públicos e privados. Ainda assim, a maioria das organizações admite não estar preparada para aproveitar plenamente o potencial desta transformação tecnológica. A conclusão consta do estudo “CEO Outlook Saúde 2025”, da KPMG Portugal, baseado num inquérito realizado a 110 presidentes executivos do setor da saúde.
Segundo a análise, 85% dos CEO demonstram confiança no crescimento do setor nos próximos três anos, um valor superior ao registado relativamente à economia global, onde a confiança se situa nos 62%. Apesar do otimismo, persistem vários obstáculos à implementação da IA. Mais de metade dos inquiridos (55%) identifica o acesso aos dados como o principal entrave, seguido das preocupações relacionadas com a capacidade técnica e a falta de competências especializadas para integrar a tecnologia nos processos das instituições de saúde.
“A IA tem potencial para transformar profundamente o setor da saúde, mas este estudo mostra-nos que a tecnologia, por si só, não resolve os desafios estruturais. O verdadeiro ponto crítico está na capacidade de execução”, afirma Filipa Fixe, diretora de Advisory da KPMG Portugal.
Segundo a responsável, o desafio passa por integrar dados, tecnologia e pessoas “num modelo operativo coerente”, alertando que, sem essa base, existe o risco de “muito investimento e pouca transformação”.
Apesar das dificuldades, o estudo revela uma forte aposta futura nesta tecnologia. Cerca de 87% das organizações planeiam investir mais de 10% do orçamento em IA no próximo ano, enquanto 12% admitem canalizar mais de 20% do orçamento para esta área. Além disso, 83% dos CEO esperam obter retorno do investimento em IA no prazo de três anos.
Entre as prioridades estratégicas para os próximos anos destacam-se: a integração de registos de saúde eletrónicos, a criação de plataformas de dados interoperáveis e o desenvolvimento de hospitais inteligentes. Os responsáveis defendem que só através de “modelos de governance adequados e de infraestruturas digitais robustas será possível alcançar ganhos reais de produtividade, qualidade e eficiência nos cuidados de saúde”.
O relatório evidencia também o impacto da falta de profissionais de saúde na reorganização das equipas de trabalho. Segundo os dados divulgados:
- 71% dos CEO estão focados na retenção e requalificação de talento;
- 70% planeiam reformular funções para integrar colaboração com IA;
- 56% admitem contratar novos perfis com competências tecnológicas;
- 49% já estão a transferir trabalhadores para funções ligadas à Inteligência Artificial.
Ainda assim, alerta-se para a importância da gestão da mudança, da formação contínua e da adaptação dos profissionais de saúde, gestores e cidadãos ao novo contexto tecnológico.
Além da transformação digital, os líderes do setor continuam preocupados com desafios estruturais como as exigências regulatórias, a resiliência das cadeias de abastecimento e os riscos de cibersegurança, sobretudo no que respeita à proteção de dados e privacidade.
Na área da sustentabilidade, ficou demonstrado que existe um desfasamento entre ambição e execução, já que apenas 30% das organizações afirmam integrar plenamente critérios ESG (Environmental, Social and Governance) nas decisões de investimento e somente 12% revelam elevada confiança no cumprimento das metas de neutralidade carbónica (“Net Zero”) até 2030.
SO
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