“Os profissionais de saúde são os primeiros responsáveis pela literacia dos seus utentes”

Em entrevista exclusiva, a doutorada em Ciências da Comunicação e investigadora do ISCSP Cristina Vaz de Almeida e o especialista em Medicina Geral e Familiar Rui Nogueira destacam as principais lacunas nesta área, a nível nacional. “A nossa obrigação enquanto profissionais de saúde é disponibilizar os meios que possam capacitar as pessoas para tomar decisões acertadas em defesa da sua saúde”, defendem os responsáveis. No entanto, “esta é uma tarefa cada vez mais complexa que exige preparação e treino”.

Qual a importância de, em pleno séc. XXI, existir uma aposta forte na literacia em saúde em Portugal?

O século XXI é o século do pensamento crítico, da visão holística e integradora da saúde. É necessário falar de integração de cuidados entre o hospital e os centros de saúde, de hospitalização domiciliária, das parcerias entre a saúde e o social, da reflexão sobre os indicadores do desenvolvimento sustentável e em como eles se alcançam todos os dias. A literacia vem mostrar que é preciso haver mudança de paradigma na abordagem da saúde e pensar muito mais seriamente no acesso, compreensão e uso dos recursos de saúde, na motivação e no desenvolvimento de competências para que o cidadão possa tomar decisões mais acertadas em saúde e críticas para si, para a família, para o grupo e para a comunidade onde se insere.

É fundamental prestar mais atenção a esta área do conhecimento. A complexidade que caracteriza a saúde, a doença e a organização dos cuidados de saúde nos dias de hoje obriga-nos a ter uma abordagem diferente da atitude tradicional e habitual. Não se trata de ter apenas mais ou menos formação académica. Trata-se de conhecer meios e formas para aceder a cuidados de saúde credíveis e úteis para tomar decisões acertadas.

Quais os maiores desafios espoletados pela ativa divulgação de informação e contrainformação a que assistimos atualmente?

Entre os maiores desafios destacamos a necessidade urgente de controlar a desinformação e a credibilidade quase pueril de tantas pessoas, que “acreditam” em informações aparentemente verdadeiras, mas onde se verifica uma grande desinformação e risco para a saúde. Tantos sites falsos e com informação falsa que promovem curas, tratamentos “milagrosos” e em que, as pessoas num estado de grande fragilidade, acreditam e acabam por seguir essas recomendações e pôr em risco a sua saúde. O grande desafio é conseguir tornar o cidadão mais atento, mais reflexivo sobre a informação que consome diariamente e que o pode pôr em risco a ele e a quem dele depende.

Com o acesso mais fácil a fontes de informação, o risco ficou aumentado na mesma proporção. Este é um fenómeno incontornável e apenas a capacitação das pessoas as poderá ajudar a resistir de forma informada.

Qual acreditam que deve ser a estratégia da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Ministério da Saúde, no sentido de combater a desinformação e esclarecer a população assertivamente?

Sobretudo, trabalhar com parceiros credíveis como a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde e outros. Saber ouvir e debater estratégias que demonstraram ser eficazes e boas práticas na comunidade. Não é por acaso que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2030 falam de parcerias estratégicas multidisciplinares e multiprofissionais.

A comunidade espera que os organismos públicos e os profissionais de saúde saibam encontrar os formatos e os conteúdos de informação que sejam credíveis e adequados em cada momento e a cada pessoa, mas terão de ser usados meios com a dimensão e preparação equiparável aos formatos abusivos e nefastos.

Consideram que faltam ferramentas aos profissionais de saúde para atingir esse objetivo?

Não faltam nem ferramentas, nem técnicas de literacia em saúde. Existem muitas. Ver, por exemplo, os nossos dois volumes de 50 técnicas de literacia em saúde na prática que nos permitem aprender e praticar técnicas que sabemos que funcionam. O problema é, de facto, o investimento ainda muito escasso que as organizações de saúde e outras (como as da área social) fazem nas aprendizagens de literacia em saúde para melhorar e capacitar mais os profissionais das áreas de saúde. Aliás, é mesmo por aqui que se deve começar e reformular hábitos e práticas.

Os profissionais de saúde são os primeiros responsáveis pela literacia dos seus utentes e doentes. No entanto, não são apenas os profissionais de saúde os únicos protagonistas importantes na prática da literacia em saúde. Todos os cidadãos informados e responsáveis devem ser envolvidos.

De que forma é que a população em geral pode obter informação credível e fidedigna? Que importância podem ter os canais digitais dos profissionais de saúde?

Os media têm um papel preponderante neste caso. O trabalho com os media tem de ser contínuo e de parceria estratégica. É preciso conciliar esforços nesse sentido para se obterem melhores resultados.

Por outro, o investimento nas políticas que implementam a literacia em saúde em vários domínios, para além da saúde, como por exemplo na transferência de competências de saúde para as autarquias gerará mais-valias, nomeadamente um novo impulso, uma nova organização e uma nova dimensão à literacia em saúde. Esta novidade ainda pouco divulgada e muito menos praticada, tem um longo caminho a percorrer. Neste percurso de aprendizagem de um novo paradigma é necessário destacar o foco da transferência de competências e abolir a visão mercantilista e orçamentista. Não ver apenas a coluna das despesas seria uma das formas de demonstrar uma maior literacia em saúde, procurando respostas que nos remetem de imediato para os ODS 2030.

O digital marca a hora, marca a saúde e terá um caminho longo e insubstituível. A relação presencial é essencial, mas através da humanização efetiva da relação terapêutica a distância, a qualquer hora e em qualquer lugar torna a relação em saúde também mais forte, positiva e eficaz (tirando os casos da necessidade de corpo presente). A relação médico-doente é um património insubstituível e os instrumentos de comunicação terão de ser os mais adequados em cada momento e em cada circunstância.

Alguns profissionais de saúde referem que a população nunca esteve “tão perdida” relativamente à informação disponível. Qual a importância da comunicação utilizada pelos profissionais de saúde no combate ao desconhecimento? Que características deve possuir?

Sim, é possível que as pessoas se sintam perdidas e a nossa obrigação enquanto profissionais de saúde é disponibilizar os meios que possam capacitar as pessoas para tomar decisões acertadas em defesa da sua saúde e daqueles que de si dependem. No entanto, esta é uma tarefa difícil e cada vez mais complexa que exige preparação e treino. Estamos convictos que agora começam a estar preparadas as condições para se iniciar uma nova fase da literacia em saúde no nosso país.

A comunicação é uma das áreas mais importantes para podermos desenvolver a literacia em saúde. Saber ouvir e saber transmitir mensagens é fundamental, mas interessa também preparar os conteúdos e até definir as áreas mais importantes do conhecimento ou selecionar os interlocutores.

Segundo o relatório “Literacia em Saúde em Portugal” (2016), publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, “Portugal, em comparação com os 8 países – Holanda, Irlanda, Polónia, Grécia, Alemanha, Portugal, Áustria, Espanha e Bulgária – do projeto ILS-EU, ocupa uma posição intermédia no índice Geral de Literacia em Saúde, com valores ligeiramente mais baixos do que a média desses países”. Que medidas podem ser tomadas de modo a melhorar estes números?

O desenvolvimento da literacia em saúde resulta de um esforço e de uma consciência de todos. A perspetiva teórica e dos modelos deve estar presente, pois a literacia em saúde tem ciência, mas precisa de evidência também. A evidência é que muitas das intervenções feitas até agora não têm surtido o resultado esperado. O cidadão, o utente, o doente está sempre num determinado contexto. É preciso analisar esse contexto, o seu conhecimento, as suas capacidades e atitudes. A abordagem comportamental da literacia em saúde permite uma maior clareza em relação às necessidades críticas.

Por outro lado, é frequente vermos doentes com a convicção de domínio de assuntos na área da saúde. É fácil pensar que se sabe o suficiente para tomar decisões fundamentadas, mas é cada vez mais difícil dada a complexidade crescentes, mesmo para pessoas com formação académica superior.

De um modo geral, o que é que ainda há a fazer pela literacia em saúde em Portugal?

Juntar mais especialistas de literacia em saúde em Portugal (há muitos) e pensarmos juntos, trabalharmos juntos com as organizações dos vários setores, desde a saúde, social, cultura, urbanismo (cidades saudáveis), modernização de vários setores do Estado que prestam serviços ao cidadão (âmbito digital, inclusive) em todo o ciclo de vida.

Que medidas tem a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde previstas nesse sentido?

Temos, de facto, unido os especialistas em literacia em saúde em Portugal e passámos de 20 para mais de 60 sócios em dois meses, apenas, desde a nossa constituição.

Queremos investir em temas emergentes, críticos, estruturantes. Olhar para o cidadão de uma forma holística e ao longo do seu ciclo de vida. Partilhamos o nosso compromisso e ações, das quais já lançámos o Prémio Nacional de Literacia em Saúde, com duas categorias – com o patrocínio da Ciência Viva e da Roche –, já organizámos o Dia Mundial da Saúde com a Ciência Viva, estamos a preparar formação para as associações de doentes com a AICIB, vamos debater a transferência de competências de saúde para as autarquias, entre outras ações.

SO

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