Vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF)

Os desafios da vacinação Covid nos CSP

Em 1789, uma inoculação realizada por Edward Jenner mudou o mundo e, desde então, a palavra vacina passou a fazer parte do nosso vocabulário. A essa investigação devemos milhões de vidas salvas anualmente.

Mas, as semelhanças entre a varíola (que graças à vacina foi possível erradicar em 1980) e a Covid-19 não terminam no facto de em ambos os casos a administração da vacina se ter iniciado no Reino Unido. E mais de 230 anos passados, alguns desafios de outrora ainda permanecem. Comecemos pela segurança. O método científico é agora muito mais robusto. Os avanços tecnológicos e a comunicação são o expoente máximo da nossa era. A união entre diversas equipas de investigação, fundos públicos e privados permitiram alcançar a tão esperada vacina ainda em 2020.

Estes fatores, aliados a técnicas com longos anos de investigação, permitiram a concretização mais rápida das diversas fases necessárias para a aprovação de uma vacina. Também o método científico aprende com os erros do passado, pelo que os critérios de aprovação têm cada vez mais parâmetros a cumprir, garantindo mais segurança que os seus antecessores. Tal como qualquer outra tecnologia em saúde, tem as suas indicações, contraindicações e efeitos secundários. Mas, todas as etapas pelas quais estas vacinas passaram são garante da sua segurança.

Quanto ao acesso, com um simbolismo de comunhão único, a União Europeia decidiu-se pela aquisição conjunta e divisão equitativa das vacinas por todos os estados membros. O facto de ser gratuita e ser gerida inteiramente pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) é também um sinal de equidade. E já sendo possível estimar o risco de morbimortalidade, a utilização desses critérios de priorização na administração permite salvar vidas. Em Portugal, a vacinação iniciou-se pelos profissionais de saúde e já se vislumbra a preparação da vacinação nos restantes grupos abrangidos na primeira fase de vacinação. No âmbito da administração, optou-se, para os utentes abrangidos nesta primeira fase, pela segurança, transmitida pela proximidade e continuidade de cuidados prestados pelos cuidados de saúde primários (CSP).

Num ano em que todo o SNS foi colocado à prova, surgiu ainda mais este desafio para os CSP. Por outro lado, a pouca informação e o receio de insuficiente organização e incapacidade para coexistir com um impacto mínimo nas atividades habituais são ameaças a esta campanha. Numa altura em que se pretende fazer a recuperação da atividade e em que sabemos que quanto mais rapidamente a população for imunizada mais vidas poderão ser salvas, a otimização de processos através da organização e comunicação é essencial. A preocupação com o impacto na atividade assistencial deverá ter em conta que previsivelmente, nesta primeira fase, a vacina chegue a cerca de 950 mil pessoas (300 mil dos quais são profissionais de saúde ou de serviços de segurança que serão vacinados nos seus locais de trabalho).

Atendendo a que em 2020 foram adquiridas pelo SNS cerca de 2,5 milhões de vacinas da gripe (e em 2019 1,4 milhões), mesmo considerando que a vacina contra a Covid-19 envolve duas administrações, podemos concluir que esta primeira fase será equivalente em termos de trabalho a uma campanha de vacinação contra a gripe. Um sistema de informação fragmentado dificulta uma correta definição dos utentes em cada grupo ou subgrupo de vacinação. Os sistemas dos diversos níveis de cuidados do SNS não comunicam. Não há informação dos doentes seguidos a nível privado. Informações preciosas, como saber se um utente se encontra no ERPI ou num Centro de Dia, se é profissional de saúde ou de outro serviço essencial encontram-se dispersas e dificultam o planeamento desta operação. Corre-se o risco de um utente já estar sinalizado para ser vacinado através do ERPI ou por ser um trabalhador de um serviço crítico, mas também constar da listagem dos utentes a ser vacinados na primeira fase por apresentar alguma patologia. A utilização do processo clínico para permitir a priorização dos utentes demonstra a importância da existência de registos completos, no entanto, sabemos que por múltiplas razões o processo por vezes não reflete a totalidade das patologias do utente. Dessa forma, já deveriam ter sido desencadeados mecanismos que auxiliassem os profissionais a essa atualização, fornecendo as listagens dos utentes com a indicação da fase em que seriam vacinados permitindo corrigir algum lapso de codificação. Essa disponibilização permitiria também informar os utentes, tranquilizando-os pois já começam a contactar as unidades a perguntar em que fase serão vacinados ou a entregar informação clínica que até já consta nos seus processos. O retirar das tarefas burocráticas de convocação e marcação dos utentes para vacinação é salutar. Devemos rentabilizar as novas tecnologias, colocá-las ao dispor de profissionais e utentes, mas também adaptá-las de acordo com o seu destinatário. Deverão existir formas alternativas às SMS para agendamento para os utentes sem esse recurso. O contacto telefónico e o contacto presencial são as alternativas mais simples, no entanto as centrais telefónicas das unidades têm sérias limitações. Dotar as unidades de profissionais e equipamentos capazes de dar resposta às solicitações por telefone dos utentes é imperativo. Não obstante a possível utilização da linha SNS24 os utentes deverão ter a possibilidade de contactar a sua Equipa de Saúde Familiar (ESF), pois são eles que conhecem o seu historial clínico, o seu contexto e toda a sua família.

O investimento nessa área é fulcral, não só para a maior campanha vacinal alguma vez planeada, mas também para o futuro do SNS. Existe ainda pouca informação credível em linguagem acessível aos utentes. Pretendemos que todos estejam adequadamente informados sobre este assunto e não há tempo disponível para cada ESF informar todos os seus utentes. Informação oficial nos meios de comunicação social e disponibilização de folhetos informativos normalizados poderão libertar as unidades de muitas questões.

Podemos enquadrar esta campanha em quase todos os pontos da definição da Medicina Geral e Familiar, dos quais destaco a promoção a saúde e o bem-estar através de intervenções apropriadas e efetivas e a responsabilidade específica pela saúde da comunidade. Tal como numa via verde coronária, em que “tempo é músculo”, neste caso de vacinação, tempo serão vidas salvas.

Será simbólico, neste início de ano, tempo de projetar 2021, que sejam os CSP a trazer essa luz de esperança, através da vacina, para o futuro de todos nós.

ler mais

RECENTES

ler mais