Obesidade e risco cardiovascular: o que há de novo?
Assistente Hospitalar de Medicina Interna, CRI de Tratamento Cirúrgico de Obesidade do HCC-CHULC

Obesidade e risco cardiovascular: o que há de novo?

O risco de doença cardiovascular é determinado por fatores de risco cardiovasculares não modificáveis como predisposição genética, idade, etnicidade e género; e modificáveis, de onde se destaca a obesidade. A obesidade e excesso de peso são um fator de risco independente para doença cardiovascular como doença coronária aterosclerótica, insuficiência cardíaca e morte por causa cardiovascular.

A obesidade é definida classicamente por IMC acima de 30kg/m2, contudo o risco cardiovascular não se encontra apenas relacionado com o IMC. De facto, o risco cardiometabólico associa-se a gordura visceral, sendo a cintura ou razão cintura/anca melhor fator prognóstico cardiovascular. Os mecanismos da obesidade que contribuem para o risco de doença cardiovascular são a resistência à insulina e hiperinsulinismo, as anomalias do metabolismo lipídico, a hipertensão arterial, o remodeling do ventrículo esquerdo, os transtornos do sono, a inflamação sistémica de baixo grau, a ativação do Sistema Nervoso Simpático e a disfunção endotelial.

É importante, assim, distinguir dois fenótipos de obesidade: metabolicamente saudável vs. metabolicamente não saudável. A obesidade metabolicamente saudável apresenta um IMC acima de 30kg/m2, com perfil lipídico e glicémico normal, tensão arterial normal, sem doença cardiovascular associada e a sua prevalência pode atingir 30%.

Estes doentes apresentam pouca gordura visceral e hepática e maior gordura subcutânea, maior capacidade cardiorrespiratória, sensibilidade à insulina, baixos níveis de inflamação e uma função do adipócito normal. Interpreta-se este fenótipo como transiente, e apesar de ter menos risco cardiovascular que a obesidade metabolicamente não saudável, tem maior que os normoponderais metabolicamente saudáveis, e apresentam o mesmo risco de morte cardiovascular que a obesidade metabolicamente não saudável.

Contrariamente ao papel inequívoco da obesidade como fator de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular, o seu papel na progressão da mesma é mais controverso. Efetivamente, verifica-se um efeito paradoxal em que a obesidade (grau I) apresenta um efeito protetor na progressão de doença cardiovascular estabelecida, verificando-se nestes doentes melhor prognóstico que em normoponderais ou doentes abaixo do peso.

O mecanismo prende-se com um aumento de massa magra concomitante com a massa gorda (com incremento do IMC), contribuindo para melhor capacidade cardiorrespiratória e menor nível de inflamação sistémica.  Contudo, tem surgido o conceito de obesidade sarcopénica: doentes com obesidade e massa e função muscular diminuída. Estes doentes apresentam baixa capacidade cardiorrespiratória e maiores níveis inflamação sistémica e consequentemente pior prognóstico.

É importante identificar a obesidade como doença crónica, conhecer os diferentes fenótipos, os seus mecanismos para doença cardiovascular e atuar na pandemia da obesidade.

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