Obesidade e Preconceito: Dois Desafios de Saúde Pública
Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo - Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde/ Professor da FMUP e Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

Obesidade e Preconceito: Dois Desafios de Saúde Pública

A sociedade contemporânea está perante dois problemas conexos, mas separados: a obesidade e o preconceito social, a ela associado. Além de ser uma epidemia global crescente, a obesidade representa não só um risco para a saúde pública, mas também está intrinsecamente associada a estigmas sociais que perpetuam o ciclo da doença.

Caracterizada pela acumulação excessiva de gordura corporal, a obesidade tem sido objeto de preocupação crescente em todo mundo. Intrinsecamente regulada por fatores genéticos e epigenéticos, com o aumento do padrão de vida sedentária e acesso facilitado a alimentos ricos em calorias, as taxas de obesidade têm disparado nas últimas décadas.

No entanto, os esforços para enfrentar estes problemas esbarram, muitas vezes, no conceito apelativo (mas errado) de que o tratamento é semelhante à sua prevenção. Os tratamentos da obesidade não têm como objetivo travar a curva ascendente em todo o mundo, dado que têm de ser individualizados à situação clínica de cada indivíduo e, muitas vezes, necessitam de estratégias mais interventivas do que a “simples” alteração do estilo de vida.

Para achatar a curva da propagação da obesidade, é necessário adotar estratégias de prevenção, baseadas na educação e na instituição precoce de estilos de vida saudáveis. Parece básico, mas poucos compreendem a grande diferença entre esses dois conceitos, o que culmina na reprodução de mensagens e conselhos bem-intencionados, mas sem fundamento científico.

O preconceito social contra indivíduos obesos é um fenómeno generalizado e profundamente enraízado na sociedade. Estereótipos negativos associados à obesidade levam, frequentemente, a discriminação em várias esferas da vida, incluindo no trabalho, na educação e na saúde. Esse estigma pode ter efeitos devastadores na saúde mental e emocional dos afetados, levando a problemas como depressão, ansiedade e baixa autoestima. Além disso, o preconceito social pode dificultar ainda mais o acesso a cuidados de saúde adequados e eficazes para tratar a doença.

Para combater eficazmente a obesidade, é essencial abordar não apenas os fatores físicos e comportamentais, que contribuem para a doença, mas também as atitudes e crenças prejudiciais que a rodeiam. Isso requer uma mudança de paradigma na maneira como a obesidade é percebida e abordada pela sociedade. Em vez de culpar e envergonhar indivíduos obesos, devemos criar ambientes que promovam escolhas saudáveis e apoio para aqueles que procuram tratamentos eficazes.

Neste processo, é fundamental apostar na educação, ajudando a dissipar mitos e equívocos sobre a obesidade e apostar em políticas sociais que permitam aumentar a literacia alimentar e a condição socioeconómica das classes mais desfavorecidas.

No fundo, estamos diante de dois problemas de saúde pública: a obesidade e o preconceito contra a obesidade. E não tenho dúvidas em afirmar que a solução para o primeiro problema passa, inevitavelmente, pelo combate ao segundo.

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