Professor BPI | Fundação “la Caixa” de Economia da Saúde, Nova School of Business and Economics, Universidade Nova de Lisboa

O que aprendemos em 2020 que nos será útil em 2021?

O ano de 2020 ficou marcado definitivamente pela pandemia de Covid-19 e o ano de 2021 não será muito diferente em termos de atenção. Contudo, se o ano de 2020 foi marcado pela surpresa do que é, como nos afeta e o que se consegue fazer para reagir à Covid-19, incluindo os esforços no campo da ciência, o ano de 2021 será muito provavelmente marcado pela aprendizagem nos sistemas de saúde, e, espera-se, pelo fim desta pandemia.

O que aprendemos em 2020 que nos será útil em 2021?

Primeiro, aprendemos a importância de decidir de forma antecipada, de dar liberdade de decisão às estruturas locais. Destaco aqui o papel de liderança do Hospital de São João, o primeiro hospital a ser atingido, e que teve de tomar decisões que guiaram e ajudaram os restantes hospitais a encontrar o seu caminho. Formas de decisão centralizada tornam-se incompatíveis com a rapidez de resposta que o rápido contágio do vírus da Covid-19 exige. Aproveitar essa aprendizagem das vantagens da decisão descentralizada será um dos desafios para 2021, onde será necessário equilibrar essas vantagens com a fundamental responsabilidade orçamental (que não foi preocupação durante a crise pandémica, mas voltará a ser quando se entrar num “novo normal” pós-Covid-19).

Segundo, a importância dos cuidados de saúde primários (CSP) foi reafirmada e é reafirmada todos os dias, mesmo que fora dos noticiários. Mais de 95% dos casos de Covid-19 não necessitam de internamento, mas requerem acompanhamento. Esse acompanhamento é dado pelos médicos de família (MF). Estes e os doentes, com e sem COVID-19, aprenderam a ter novas formas de comunicação, com potencial para reforçar a ligação entre ambos mesmo depois do final da pandemia.

Terceiro, aprendemos a importância dos médicos de Saúde Pública e do seu papel no sistema de saúde. Infelizmente, o ano de 2020 trouxe a lição da sua relevância percebendo-se o custo de não estarem tão presentes como deveriam, em número e capacidades. A identificação e controle das cadeias de transmissão dependem do seu trabalho.

Quarto, aprendemos os limites das opções terapêuticas existentes face a situações novas. Dentro de todo o “arsenal terapêutico” desenvolvido mundialmente nos últimos cem anos não foi possível, até agora, encontrar uma cura rápida, eficaz e geral, para a Covid-19. A forma de controlo da pandemia foi em 2020 e será na primeira metade de 2021 a limitação da circulação das pessoas. Tal como alguém referiu, é uma estratégia não muito diferente da usada historicamente para limitar pestes e epidemias.

Quinto, aprendemos a importância da comunicação oficial em saúde, que teve – terá – altos e baixos. Apesar dessas oscilações, há mais de positivo do que de negativo em 2020. Aprender como fazer a melhor comunicação técnica sem lançar pânico ou falsas esperanças na população, sem induzir comportamentos de risco e ajudando a uma consciência coletiva de esforço para parar a pandemia é um dos desafios para 2021.

Sexto, aprendemos a importância e a capacidade da ciência em encontrar respostas. É certo que não temos um tratamento para a COVID-19, mas em menos de um ano, em menos de 365 dias, o esforço dos cientistas conseguiu ter várias vacinas disponíveis. O triunfo da ciência em dar resposta à pandemia tornou-se também um triunfo geoestratégico dos grandes blocos políticos internacionais (Europa, Estados Unidos da América, China e Rússia).

Sétimo, aprendemos a importância da interligação íntima entre economia e saúde, que voltará a ser marcante em 2021. As preocupações com as consequências económicas – desemprego e perdas de rendimento – passaram a ser tão mencionadas como os riscos de saúde da Covid-19.

Oitavo, aprendemos a conhecer a capacidade de adaptação do SNS, dos seus profissionais, a situações extremas. No início da pandemia, em março de 2020, foi evidente o esforço colocado, mas a pressão sobre os profissionais de saúde que se tem observado no final de 2020, e que transita para 2021, não poderá ser mantida durante muito tempo. Para futuro, entrará na discussão das políticas na área da Saúde a noção de resiliência do Serviço Nacional de Saúde (SNS) como forma de preparação para o inesperado, que terá de incluir uma forma diferente de organizar e preparar os profissionais de saúde.

Nono, reaprendemos, por fim, a importância das liberdades individuais que nos habituamos a ver como adquiridas nas últimas décadas, e dos limites que um vírus lhes coloca. Como sociedade, fomos colocados perante escolhas nem sempre fáceis. Escolhas onde o benefício individual de comportamentos de risco colide com a necessidade coletiva (e que acabará por levar a custos individuais – o custo de contrair a Covid-19). A forma como os comportamentos individuais se juntam e geram controlo ou descontrolo da pandemia tornou a saúde coletiva uma questão de todos nós, e não um problema que o Ministério da Saúde tem para resolver.

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