10 Jan, 2020

Médicos colocam-se na pele de doentes com Neuropatia Periférica

Através de uma experiência de realidade virtual, os especialistas em Medicina Geral e Familiar puderam sentir alguns dos desafios diários das pessoas com neuropatia periférica em tarefas simples

Neuropatia periférica: uma doença que afeta milhões de pessoas

A neuropatia periférica é uma doença crónica que pode ter várias causas e afetar diferentes tipos de nervos: os nervos motores – que são responsáveis pelo controlo da força muscular e dos movimentos -, os nervos sensitivos – que são responsáveis pela perceção sensitiva do toque, da vibração, do calor ou da dor – e, ainda, os nervos autonómicos que controlam funções involuntárias ou semi-involuntárias como a frequência cardíaca, a pressão arterial,  a função gastrointestinal e a sudorese. Entre os principais sintomas desta patologia incluem-se formigueiros, ardores, tremores, movimentos involuntários, aumento da transpiração ou arrefecimento das extremidades dos membros. Além de causarem grande desconforto, estes sintomas incapacitam a execução de tarefas simples do dia-a-dia, tendo um forte impacto na qualidade de vida dos doentes.

Na pele do doente

O desafio de se colocarem na pele dos doentes, com estas dificuldades da vida quotidiana, foi precisamente a proposta de Neurobion e da Procter & Gamble Health aos presentes no 23.º Congresso Nacional de Medicina Geral e Familiar, que decorreu no passado mês de setembro. Através de uma experiência de realidade virtual, os especialistas em Medicina Geral e Familiar puderam sentir alguns dos desafios diários das pessoas com neuropatia periférica em tarefas simples como servir e beber um copo de leite e colocar cubos em cima uns dos outros.

“Esta experiência permitiu ter uma melhor noção prática do que um doente pode sentir quando não tem sensibilidade dos movimentos finos”, sublinhou Tiago Ferreira, da USF São Marcos

A falta de noção da dificuldade em executar tarefas simples e o ficar mais sensibilizado para a doença e para as queixas dos doentes foram alguns dos aspetos mais referidos pelos especialistas após a experiência de realidade virtual.

Tiago Ferreira, da USF São Marcos destacou que “foi um desafio complicado. Não tinha noção da dificuldade que existe em fazer coisas muito simples, como colocar cubos uns em cima dos outros, ou o movimento de deitar leite num copo. São coisas básicas, mas muito difíceis. Esta experiência permitiu ter uma melhor noção prática do que um doente pode sentir quando não tem sensibilidade dos movimentos finos”.

Já Inês Vidreiro, da USF Travessa da Saúde referiu ter sido “interessante poder perceber, na prática, o que os doentes se queixam e poder assimilar as dificuldades que sentem no dia a dia e que para nós, por vezes, podem ser um pouco desvalorizadas, mas que são uma limitação muito grande. Entendo, ou consigo tornar-me mais próxima, das queixas do doente, principalmente em pessoas com neuropatia mais avançada”.

“Foi uma experiência diferente, falamos muitas vezes com doentes e não sabemos muito bem sobre o que estamos a falar porque não experienciamos na pele. Foi uma sensação completamente nova. É sempre importante nós conseguirmos pôr-nos na pele dos doentes e conseguirmos criar empatia com eles, algo que às vezes é difícil porque não estamos nessa situação, não experienciamos aquilo que eles experienciam. Portanto, para fazermos o nosso trabalho bem, se conseguirmos perceber o que estão a sentir estamos mais sensibilizados e ficamos também mais alerta para o tratamento e para tentar fazer com que a vida deles seja melhor”, concluiu Filipa Órfão, da USF Cuidar Saúde Almada Seixal.

Causas e importância do diagnóstico precoce

A neuropatia periférica pode ter múltiplas causas, desde causas genéticas, tóxicas, infeciosas, neoplásicas, carenciais a metabólicas.  No entanto, é dentro das metabólicas que se insere a principal causa desta doença:  a diabetes mellitus – responsável por 34,8% dos casos de neuropatia periférica. “10% dos doentes diabéticos tipo 2 já têm neuropatia diabética periférica no momento do diagnóstico e 50% dos diabéticos vão acabar por desenvolver essa neuropatia durante a sua vida”, afirma o Prof. Doutor Pereira Monteiro, médico neurologista.

O diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais detetando e tratando os danos nos nervos numa fase inicial, quando a regeneração ainda é possível. O diagnóstico precoce permite alterações no estilo de vida do doente, uma melhoria do controlo terapêutico e alívio sintomático adequado, uma otimização das medidas preventivas da progressão da doença e a redução do risco de consequências irreversíveis, como o pé diabético ou amputações que acarretam custos elevados e a perda da qualidade de vida. “Quanto mais cedo fizermos o diagnóstico mais bem-sucedidos vamos ser nas atitudes terapêuticas e melhor vai ficar o nosso doente”, referiu o especialista.

Após o diagnóstico de neuropatia periférica, estando o doente numa fase inicial, é necessário, de acordo com o especialista, “implementar medidas que evitem que ele passe para a fase mais avançada e, aí, temos de fazer alterações no estilo de vida e pode, caso existam já sintomas dolorosos, haver a necessidade de fazer tratamento sintomático da dor utilizando os fármacos mais adequados nas doses apropriadas e ajustadas a cada doente. Mas é importante salientar que é possível ir mais longe utilizando um tratamento adjuvante constituído por vitaminas do complexo B”.

Papel das vitaminas do complexo B

O médico acrescenta que “as vitaminas do complexo B são um auxiliar importante para o tratamento destes doentes porque atuam na neuroativação, na neuroregeneração e neurotransmissão”. Se os danos ainda não tiverem progredido muito, estas vitaminas, que atuam em sinergia bioquímica, podem ajudar a recuperar a função nervosa ou mesmo regenerar fibras nervosas danificadas. Estes dados são reforçados pelos estudos clínicos existentes. De salientar um estudo1 com 411 doentes com neuropatia periférica de diversas etiologias aos quais foi administrada a associação das três vitaminas, durante 12 semanas, e no qual se verificou que existia uma melhoria significativa dos sintomas – dor penetrante, dor tipo queimadura, parestesia e dormência – ao longo do estudo. “Neste mesmo estudo analisaram um subgrupo de doentes com neuropatia diabética periférica e verificaram que havia eficácia com melhoria significativa de todos os seus sintomas e, o mais interessante, é que se verificou que esses efeitos já eram notórios ao fim de 14 dias, ou seja, duas semanas depois, 24% dos doentes já revelavam melhoria sintomática e, ao fim de 3 meses, 66% já tinham evidência de melhoria clínica”, referiu o Prof. Doutor Pereira Monteiro. “Este conjunto de fármacos, melhorando os sintomas, acaba por interferir também na qualidade de vida. No estudo de Hakim2, após 12 semanas de tratamento, verificou-se uma melhoria da componente física da qualidade de vida dos doentes de 15,7% e ao fim de 90 dias verificou-se também uma melhoria da condição física e da parte psicológica”, acrescentou. Para o neurologista, “este tratamento adjuvante, utilizando as vitaminas B, tem também outro efeito benéfico na medida em que ajuda a não utilizar doses tão altas de anticonvulsivantes e antidepressivos – que são indicados para o alívio sintomático da dor neuropática – e cujos efeitos secundários estão muitas vezes relacionados com o abandono da terapêutica”.

Sendo a neuropatia periférica uma complicação frequente, especialmente em doentes diabéticos, é importante, quer os doentes quer os profissionais de saúde, estarem atentos aos sintomas que são um sinal de alarme muito importante e que requerem um relatório clínico apropriado. “O prognóstico vai depender muito da precocidade em que é feito o diagnóstico e em que são implementadas medidas gerais, medidas terapêuticas para os sintomas álgicos e também os tratamentos adjuvantes que podem ajudar a recuperar estes doentes sobretudo se for feita numa fase muito inicial”, reforçou o médico neurologista.

1 Hakim M, Kurniani N, et al. Medika. Vol. 4, No.2, March 2018

2 Hakim, et al. J Clin Trials 2018;8:2.

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