Médico de Família

Marta Temido: o elogio

“A constância nas nossas opiniões seria geralmente embaraço e oposição ao progresso e melhoramento da nossa inteligência.”Marquês de Maricá

             Como declaração de conflito de interesses peço ao leitor, caso lhe interesse, que se dê ao trabalho de ler os penúltimo e antepenúltimo artigos por mim assinados no SaúdeOonline. Não renegando o que escrevi no contexto de então, acho que a presente conjuntura veio mudar muita coisa. Por exemplo, a minha opinião sobre a nossa ministra Marta Temido, que julgo merecer ser enaltecida. Em democracia, somos bem mais avaros em elogios que em críticas.

Mesmos os criticantes terão de fazer-lhe a justiça de reconhecer que tem dado uma imagem pública de serenidade, clareza suficiente e assertividade. O mesmo considero poder dizer da Diretora Geral da Saúde e os outros dirigentes que têm dado a face diariamente.

A atual situação carateriza-se por (i) ser totalmente nova e, consequentemente, por exigir medidas inovadoras, nunca testadas, (ii) a serem implementadas a curto prazo e (iii) afetando áreas muito amplas da atividade usual de todas as instituições. Para conseguir lidar com este cenário é necessária uma liderança forte e focada nas soluções, liberta do ruído de polémicas públicas dispensáveis.

Postas estas duas premissas, não será lícito manter o grau de exigência face ao poder político idêntico ao de tempos normais, nem extravasar para o domínio público reparos, discordâncias ou sugestões que se queiram fazer chegar ao poder central. Se os partidos políticos têm sido sensatamente parcos na sua visibilidade, já o mesmo se não poderá dizer doutros setores da sociedade.

Relembro o apelo do nosso Bastonário de 8 de março: “É o momento de colocar as divergências de lado e centrar os nossos esforços em servir a verdadeira causa pública que são as pessoas e o país, e ajudar a Autoridade de Saúde Nacional (DGS) e o Governo a garantir uma resposta adequada ao evoluir da situação epidémica.” Não me parece que a adesão a este chamamento esteja a ser expressiva.

O tema do uso de máscaras, por exemplo, atingiu níveis de polémica, perfeitamente escusados nas atuais circunstâncias. Trazer para a arena dos media assuntos em que haja divergências técnicas com a política seguida desgasta a autoridade do estado e não é certo que autoridade científica dos técnicos que vieram a terreiro contrariar o status quo fique incólume. Menos certo é que a população tenha ficado esclarecida. Sujeitar a ciência ao plebiscito popular ou à pressão da opinião pública é arriscado, mormente em tempos de natural exaltação e dada a iliteracia científica, que se estende aos próprios profissionais da comunicação social. O mutismo é indefensável, mas a discussão deveria, neste período, ser feita internamente.

Mas, mais grave tem sido a atuação de vários presidentes de município que viram nesta pandemia uma oportunidade para acirrar hostilidades crónicas contra o poder central. Em abono da verdade deve realçar-se o louvável esforço a que muitos autarcas se têm entregue na defesa dos seus munícipes, o que, todavia, não legitima o tom das censuras ao poder central. Tanto mais lamentáveis quanto, na qualidade de políticos, sabem bem que a política é a arte do possível e o governo central enfrenta tarefas de dimensão gigantesca. Queixas de atrasos na realização de testes, por exemplo, são bem injustas. Portugal está 16º lugar de realização de testes por população a nível mundial. Mas, se excluirmos países e territórios com menos de meio milhão de habitantes, ou/e áreas muito reduzidas, logisticamente muito favorecidos, como São Marino, Islândia ou as Ilhas Faeroe, apenas somos batidos pela Noruega, Suíça, Bahrein, Estónia, Luxemburgo, Emiratos Árabes Unidos e Chipre. (Isto no momento em que escrevo: 19 de abril). Para o poder local a pandemia não é o inimigo principal, mas sim um meio mais para denegrir o governo da nação.

De enaltecer, de um modo geral, o papel dos pivots das cadeias televisivas e da prestação dos meios de comunicação sociais. Já entre a plêiade de comentadores o direito a aplauso é desigual. As críticas à Direção Geral da Saúde, enquanto profissional   com mais de três décadas de experiência, pareceram-me despropositadas e reveladoras de ignorância, secundária à ousadia de quem se habituou a debitar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. O que lhes falta em conhecimento para avaliar os méritos de Marta Temido e de Graça Freitas, sobra-lhes em acanhamento para elogiar o poder quando o merece.

Quanto aos profissionais que trabalham nos cuidados de saúde secundários (e sobretudo estes, entre os quais não me situo) o qualificativo de heróis deixou de ser metafórico. De Itália chegam-nos exemplos de bravura, espírito de sacrifício e galhardia, só comparáveis a militares ou bombeiros debaixo dos respetivos fogos e a uma ou outra profissão de alto risco expostas a situações limite.

Pouco se tem falado dos colegas de saúde pública. São poucos, mas muito bons. Autênticos guarda-costas dos que estão nas linhas da frente, têm feito um trabalho notável, mas pouco reconhecido. Permita-se-me um obrigado em nome pessoal, para quem sinto proteger-me na retaguarda.

 

Os abutres e hienas, abutrezinhos e hienazinhas  

 

“Muitas vezes uma cidade inteira pagou por um homem mau”. – Hesíodo

“Em que consiste a vossa maldade? Nisto: já não percebeis que cometeis pecados.”São João Crisóstemo

Mas não há só boas gentes nestes tempos sombrios de pandemia.

Por cá, os casinos on-line aproveitam a ocasião (de ouro) para filarem as garras nos cidadãos forçados à ociosidade e engordarem as hostes dos dependentes do jogo e esvaziando-lhes, en passant, os bolsos. Menos sinistros, mas também lamentáveis, são os vendilhões de suplementos “milagrosos”, mas sem suporte científico.

Já agora: num país que mergulha na pandemia de pobreza, será aceitável que haja ex-banqueiros (entre cujos “méritos” se contam afundar bancos e serem condenados por crimes passíveis de prisão) a auferir de reformas de dezenas de milhares de euros mensais? Não haverá decretos, aproveitando o estado de exceção, para pôr cobro a este despautério?

Do estrangeiro, continua a surpreender o negacionismo dum Bolsonaro, que, a bem dizer, deveria já ter sido indiciado por crimes contra a Humanidade pelo TPI.

Por seu lado, Donald Trump vê a pandemia como uma oportunidade para ganhar pontos no concerto mundial, fanaticamente agarrado ao seu conceito (mal-amanhado) darwiniano da política nacionalista e antiglobalização. Ansioso por aproveitar a desgraça mundial para ganhar dinheiro, acabou por ser responsável pela patética imagem duma superpotência de joelhos perante o vírus. Nova Iorque devastada, com profissionais de saúde a revelarem ao mundo condições de trabalho mais consentâneas com países da América Latina do que duma nação sofisticada e rica. Se até há pouco, gostasse-se ou não, o mundo podia contar com a liderança dos ‘states’ em momentos de crise, apercebemo-nos que estes estão em apuros e incapazes ideológica e materialmente de ajudar seja quem for.

Se em anterior artigo mostrei admiração pela forma como a China, tal como outros países asiáticos, lidou com esta pandemia, tal admiração não exclui algum ceticismo sobre a boa-fé da solidariedade chinesa.

 

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