15 Jan, 2023

Manuel Carrageta. “Cardiologia e MGF estão de mãos dadas e quem mais ganha é o doente”

As 37.as Jornadas de Cardiologia, Hipertensão e Diabetes realizaram-se entre 12 e 14 de janeiro, em Sesimbra. Manuel Carrageta recorda os primeiros tempos de uma iniciativa que começou por ser apenas local, mas fala também de algumas das temáticas abordadas no evento como reabilitação cardíaca e o benefício do Perdão na saúde cardiovascular.

Estas Jornadas têm 37 anos. Na primeira edição imaginou que pudessem manter-se vivas durante tantos anos?

De alguma forma, sim, porque a iniciativa parte de um grupo de jovens cardiologistas e de médicos de família que resolveram juntar-se para otimizarem a sua prática clínica. Sempre se quis um encontro onde se pudesse atualizar os conhecimentos em Cardiologia, Hipertensão e Diabetes, além de se criarem laços de amizade. Inicialmente, era uma iniciativa apenas local, mas face ao sucesso começámos a contar com a presença de colegas de diferentes partes do país. Os bons resultados também levaram à sua replicação noutras especialidades, o que é um elogio.

E foram inovadores se se tiver em conta que estas jornadas são organizadas com, e não para, os médicos de família…

Sim, os médicos de família têm um papel fundamental, nomeadamente na prevenção e tratamento dos fatores de risco de doença cardiovascular. Participam tal como os especialistas hospitalares na organização e nas conferências, promovendo-se assim a atualização de conhecimentos e partilha de experiências. O mais beneficiado é, sem dúvida, o doente.

É curioso como nestas jornadas contamos com a presença de médicos que nos acompanham há muito tempo. Exemplo disso é o Dr. João Carlos Sequeira, que começou por vir ao evento com a sua mãe [Regina Sequeira Carlos], ainda como aluno de Medicina. Desde então, além de especialista, já foi inclusive presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Um dos fundadores destas jornadas, e que é da área da MGF, o Dr. Mário Moura, também foi presidente da APMGF. Aliás, temos todos os anos o Prémio Mário Moura, atribuído à melhor comunicação oral e ao melhor poster. Esta ligação ao passado é essencial.

“… os médicos de família têm um papel fundamental, nomeadamente na prevenção e tratamento dos fatores de risco de doença cardiovascular”

Mas os especialistas hospitalares aceitaram bem umas jornadas com os médicos de família? Não foi ir contra a corrente?

Esta filosofia sempre existiu, de facto. Mas aceitaram e isso vê-se pelo crescimento das jornadas. Na altura, estava-se no início da carreira da especialidade de MGF e o que imperava era a ideia de que os MGF tinham de aprender com os do hospital. Mas os médicos de família queixavam-se por sua vez da falta de colaboração e de formação da parte de quem trabalhava no hospital. No fundo, as duas áreas não se conheciam mutuamente. E com este evento quisemos mudar essa realidade. Cardiologia e Medicina Geral e Familiar estão de mãos dadas desde a primeira edição e quem mais ganha com isso é o doente.

Relativamente à hipertensão e à diabetes mellitus, passaram-se 37 anos, mas são fatores de risco cardiovascular que continuam a ser uma preocupação…

Infelizmente, é verdade. Daí que seja fundamental esta interligação entre Cardiologia e MGF, porque, hoje em dia, são os médicos de família que controlam a maioria dos casos de hipertensão e diabetes, tendo a competência para o fazer. São patologias frequentes que acabam por ter de ser tratadas na proximidade, ficando somente uma pequena percentagem de casos mais complexos para os cuidados dos especialistas hospitalares. Os especialistas de MGF dominam perfeitamente os problemas de hipertensão e diabetes, tendo ainda um papel fundamental na prevenção, por estarem mais próximos da população e por terem uma visão mais global da sua saúde. Por isso mesmo debatemos todos os anos casos clínicos, onde domina a visão do MGF.

O facto de continuarem a ser patologias frequentes, poder-se-á dever à ideia de que atualmente há mais fármacos que ajudam a controlar a doença?

Pode ser, mas é uma visão errada. Não basta tomar o comprimido. Não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de estilos de vida saudáveis. O que é determinante na esperança média de vida é ter-se uma vida saudável, com exercício e atividade física, alimentação saudável com pouca gordura, açúcar e sal, dormir bem e as horas necessárias, não fumar…Nestes quase 40 anos temos assistido a grandes avanços terapêuticos – e ainda bem, porque evitam-se muitas mortes -, mas o seu objetivo é ajudar a controlar a doença, e sempre associados a estilos de vida equilibrados.

“Os idosos são diferentes, têm particularidades a que o médico – independentemente da sua especialidade – deve estar atento”

Nestas jornadas abordaram-se vários temas. Um deles foi o dos idosos e das suas particularidades…

A população está a envelhecer e os tratamentos têm sido estudados apenas em pessoas mais novas, daí ser importante abordar esta temática. Os idosos são diferentes, têm particularidades a que o médico – independentemente da sua especialidade – deve estar atento. As diferenças face a um adulto mais novo notam-se nas manifestações da doença, que são diferentes, e também na resposta aos fármacos, por causa das alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas que ocorrem no nosso organismo ao longo dos anos.

Outro tema em debate foi a associação da gripe a doenças cardiovasculares. De que forma o vírus influenza afeta a saúde do coração?

À medida que envelhecemos, o nosso sistema imunitário entra em declínio num processo chamado de imunossenescência, que leva a que as pessoas mais velhas fiquem, não só mais vulneráveis às infeções e suas complicações, como a responder menos eficientemente às vacinas usuais. A gripe tem um papel muito importante no desencadear de eventos cardiovasculares, como o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e o acidente vascular cerebral (AVC). O vírus vai provocar um processo sistémico inflamatório e trombótico, daí que no inverno e nos picos da gripe as unidades coronárias dos hospitais fiquem sobrelotadas com EAM e AVC. Este risco aumenta ainda mais quando já existem lesões significativas nas artérias coronárias e ou cerebrais, sendo assim fundamental a vacinação, nomeadamente com a vacina quadrivalente, que este ano foi administrada a residentes em lares. Esperemos que esta nova vacina chegue à restante população idosa no próximo ano, porque foi desenvolvida precisamente para estimular o sistema imunológico das pessoas mais velhas, de modo a superar a imunosenescência.

“Todas estas atitudes espirituais conduzem à libertação de endorfinas e hormonas que vão ter uma ação benéfica nas nossas artérias, no coração e até no sistema imunológico”

“Reabilitação Cardíaca” é outro ponto em destaque. Como avalia a implementação desta valência em Portugal?

Infelizmente, está muito pouco desenvolvida. A reabilitação cardíaca é uma modalidade terapêutica fundamental que tem o objetivo de ajudar o doente a adotar estilos de vida saudáveis e a controlar os fatores de risco, não só para evitar novo acidente cardiovascular, mas também para voltar à plenitude da vida. Muitos doentes têm receio de praticar exercício após um EAM, por exemplo, mas se experimentarem fazê-lo num programa de reabilitação cardíaca vão aprender exercícios adequados à sua condição física e melhorar a sua saúde e qualidade de vida. Este tipo de intervenção implica investimento, nomeadamente comparticipação da parte do Estado, que tem de reconhecer esta terapêutica como custo-efetiva para que possa chegar a todos os doentes.

E as alterações climáticas, de que forma têm impacto na saúde cardiovascular?

Sabe-se há muito que ocorrem picos de mortalidade nos dias mais frios e também nos mais quentes, pelo que é preciso refletir sobre este fator de doença e de mortalidade. O aparelho cardiovascular tem um papel fundamental na regulação da homeostasia face aos extremos de temperaturas, associados às alterações climáticas. A grande sobrecarga a que é submetido nessas alturas explica em grande parte o aumento da mortalidade que ocorre durante as ondas de calor e vagas de frio.

Um tema nada habitual nestes eventos é a Espiritualidade. Gratidão, compaixão e perdão são mais três pontos importantes na prevenção cardiovascular?

A espiritualidade tem a ver com o sentido da vida, com essas atitudes que são importantes para todos os seres humanos. Não se trata de religião, mas de propósito de vida, sociabilidade, etc., inerente a qualquer um de nós. É sabido que o perdão beneficia mais a pessoa que perdoa do que a que é perdoada e isso é demonstrado em estudos. Hoje sabe-se que a inexistência do perdão, da gratidão e da compaixão interfere de forma muito negativa na nossa saúde, tal como por exemplo a alimentação pouco saudável. Todas estas atitudes espirituais conduzem à libertação de endorfinas e hormonas que vão ter uma ação benéfica nas nossas artérias, no coração e até no sistema imunológico.

Para concluir, que palavras gostaria de deixar ao Dr. Mário Moura, médico de família e cofundador destas Jornadas?

O Dr. Mário Moura é um príncipe da Medicina e um visionário da Sociedade, teve um papel fundamental na criação da especialidade de MGF, foi presidente da APMGF – atualmente é presidente de Honra. Merece toda a nossa admiração e respeito e é um orgulho saber que estas jornadas foram criadas com o seu contributo.

SO

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