19 Out, 2020

Hepatite C. Consulta descentralizada leva tratamento a população vulnerável

Já foi inaugurada a consulta de Hepatite C no INMouraria, uma iniciativa essencial para aproximar a população mais vulnerável dos cuidados de saúde.

Hepatite C. Consulta descentralizada leva tratamento a população vulnerável

Era um momento há muito esperado pelo Grupo de Ativistas em Tratamento (GAT). Depois de um longo processo, recheado de dificuldades burocráticas, foi finalmente inaugurada, esta quinta-feira (24 de setembro) a consulta descentralizada de Hepatite C no INMouraria, um espaço que foi criado para apoiar utilizadores de drogas num dos bairros mais emblemáticos de Lisboa.

O INMouraria é um centro de base comunitária de respostas integradas dirigido a pessoas que usam drogas para o rastreio rápido, anónimo, confidencial e gratuito do VIH, hepatite B, hepatite C e sífilis, com a finalidade de reduzir os riscos e danos associados ao consumo de drogas.

O projeto de consulta descentralizada de hepatite C conta com a participação ativa do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC), na pessoa do gastrenterologista Filipe Calinas: “Este é um projeto pioneiro, na medida em que existe uma articulação bem realizada com o CHULC”, referiu o especialista.

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Dr. Filipe Calinas, gastrenterologista

A partir desta semana, e todas as quintas-feiras, médicos do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, irão deslocar-se até este espaço para tratar doentes infetados com o vírus da Hepatite C. A iniciativa, que conta com o apoio da Biofarmacêutica AbbVie, é essencial para aproximar uma população vulnerável dos cuidados de saúde.

“Espera-se que, com esta consulta, se consiga realizar o tratamento na comunidade. [Esta iniciativa] vai fazer com que as pessoas que têm mais dificuldade em fazer o tratamento no SNS o possam fazer aqui”, diz Ricardo Fernandes, diretor-executivo do GAT, que espera que sejam tratadas pelo menos 100 pessoas naquele espaço.

Para além da consulta, também a recolha de sangue, o chamado Fibroscan (uma elastografia que permite avaliar a presença de fibrose no fígado) e a entrega da medicação são feitos no espaço INMouraria, que garante um acompanhamento próximo de todo o processo. Já o CHULC assegura a consulta médica e o transporte das colheitas, dos exames e da medicação.

A Hepatite C tem uma grande prevalência em utilizadores ou ex- utilizadores  de drogas, uma população com grandes dificuldades sociais e económicas, tradicionalmente afastada do circuito convencional de cuidados de saúde, e que não atribui importância a uma doença que pode manter-se assintomática durante largos anos.

Luís Mendão, presidente do GAT

“Quando dizemos a um doente que ele pode vir a morrer dentro de 10 anos por causa da Hepatite C, o doente entende que é muito tempo, sobretudo quando não sabe onde vai dormir esta noite”, explicou Filipe Calinas. Na maior parte dos casos (cerca de 70%), os sintomas – febre, cansaço, icterícia, perda de apetite, dores no fígado – só se manifestam em fases avançadas da doença, quando os doentes já desenvolveram cirrose ou um cancro hepático.

Para além de constituir um grave problema de saúde pública, a Hepatite C tem custos económicos e sociais significativos. Pode dar origem a várias complicações, como a cirrose hepática, que pode evoluir para descompensação hepática ou carcinoma hepatocelular e levar à necessidade de transplante de fígado e mesmo à morte. Os custos médios diretamente associados aos estádios mais avançados da doença são, naturalmente, muito elevados.

Com a implementação da consulta descentralizada no InMouraria, apenas uma pequena percentagem das pessoas infetadas – aquelas que forem identificadas com graus de doença mais avançados – vão continuar a precisar de ser seguidas no hospital. “Temos um protocolo com o CHULC, para o qual todas as pessoas que necessitem são encaminhadas para tratamento”, diz Ricardo Fernandes.

O tratamento da Hepatite evoluiu muito com a introdução no mercado dos novos antivirais de ação direta, que garantem taxas de cura acima dos 95% e permitem um tratamento num período de 8 ou 12 semanas com poucos efeitos secundários.

No entanto, e até chegarem ao momento de tomar a medicação, os doentes têm de se deslocar quatro a cinco vezes até ao hospital para consultas e exames. Um processo necessário mas que muitos abandonam a meio ou nem sequer chegam a iniciar, criando grandes problemas de adesão ao tratamento que lhes garante a cura. “O SNS não está adaptado às necessidades destas pessoas”, sublinha o diretor executivo do GAT. “Isto leva a que muitas pessoas com infeção detetada não sejam tratadas e continuem a transmitir o vírus a outras”, acrescenta. “O problema é que as regras hospitalares são complicadas”, disse Luís Mendão, presidente do GAT.

“Poder adaptar os cuidados às pessoas, onde elas estão, é muito importante. É um passo em frente na capacidade de tratamento”, frisou o vereador da Câmara Municipal de Lisboa Manuel Grilo, que esteve presente na inauguração da consulta.

Diogo Bento, diretor-médico da AbbVie Portugal

Os especialistas concordam que só a eliminação da infeção em grupos de risco, como os utilizadores de drogas, também designada de micro-eliminação, vai permitir a Portugal atingir os objetivos com que se comprometeu a nível internacional e que passam por eliminar a hepatite C enquanto problema de saúde pública até 2030.

“Não há outra forma [de chegar à eliminação em 2030] que não a descentralização e promoção de maior acessibilidade aos cuidados médicos e tratamentos”, garantiu Diogo Bento, diretor médico da AbbVie, biofarmacêutica que apoiou a aquisição de equipamentos para a concretização da consulta e que vai colaborar num estudo observacional, coordenado pelo GAT, que pretende estudar a retenção na cascata de tratamento da hepatite C em doentes que usam drogas quando estes são seguidos numa consulta descentralizada, num centro de base comunitária como o INMouraria.

“Aquilo que queremos demonstrar é que, através desta estratégia de descentralização, é possível manter esta população particular de doentes no tratamento até à confirmação da cura”, refere Diogo Bento.

Tem-se assistido a uma “despriorização do tema no contexto político”, sublinhou o diretor-médico da AbbVie. Para Diogo Bento, o objetivo de eliminar a doença em Portugal até 2030 só será concretizado se existir uma estratégia clara de combate à Hepatite C, que permita identificar as pessoas que ainda estão por tratar (estima-se que rondem as 40 mil), se for garantida a disponibilização imediata dos tratamentos nas farmácias hospitalares e se forem replicadas iniciativas que facilitem o acesso de populações mais vulneráveis aos cuidados de saúde.

TC/SO

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