6 Out, 2020

IC. “Não há estratégia nacional, diagnóstico é tardio”

Diagnóstico é tardio, continuidade de cuidados não é assegurada, não há estratégia nacional, diz grupo de trabalho para insuficiência cardíaca, que apresenta oito medidas "prementes".

O documento “Consenso Estratégico para a Insuficiência Cardíaca” identifica as principais lacunas no acompanhamento dos doentes com IC e apresentando “medidas urgentes” para diminuir a carga da doença no SNS.

Embora tenha sido desenvolvido ainda no período pré-pandemia, o documento, cuja elaboração tem por base uma falta de preparação “dramática” do sistema de saúde português para lidar com a insuficiência cardíaca (IC), identifica algumas “dificuldades destacadas ou provocadas pela pandemia” como medidas “prementes” que inicialmente não tinham sido consideradas urgentes.

“Apesar do impacto significativo da IC em Portugal, não existe uma estratégia nacional para dar resposta à problemática. O diagnóstico é frequentemente tardio, não existem protocolos clínicos que assegurem uma continuidade dos cuidados, as infraestruturas e as ferramentas de financiamento são inadequadas e não existem métodos de monitorização e avaliação das iniciativas implementadas”, descrevem, advogando a necessidade de tornar uma regra os “bons exemplos”.

 

“É crucial implementar iniciativas baseadas na evidência e custo-efetivas”

 

Verificando uma “falta de sensibilização” para a IC por parte dos decisores políticos, profissionais de saúde e da sociedade e consequente inexistência de uma “estratégia nacional para dar resposta à problemática”, o grupo defende oito medidas, entre as quais “uma campanha de informação sobre a IC”, o financiamento de testes de diagnóstico para a síndrome nos cuidados de saúde primários, protocolos integrativos com uma rede de referenciação clara, a avaliação e a valorização financeira adequada dos cuidados prestados no âmbito da IC.

“Antecipando uma recessão e de forma a fortalecer o nosso SNS, é crucial implementar iniciativas baseadas na evidência e custo-efetivas para limitar a carga pessoal desnecessária e os gastos com hospitalizações evitáveis, o que é frequentemente observado na IC”, salientam.

Para Luís Filipe Pereira, presidente da Associação de Apoio aos Doentes com IC e antigo ministro da Saúde, a pandemia tornou claro que, “a qualquer momento, uma doença infeciosa pode monopolizar o SNS” e que “a implementação de uma estratégia para lidar eficazmente com a IC é imprescindível”. Por esse motivo, espera que este documento “possa atuar como um catalisador para o desenvolvimento de novas políticas de saúde” e reformular o modo como Portugal dará resposta à crescente carga da doença.

Em Portugal, estima-se que existam 400 mil pessoas com IC, prevendo-se que atinja o meio milhão em 2060. Ademais, a IC é reportada como a terceira causa mais comum de hospitalização, sendo que um quinto dos doentes hospitalizados é readmitido pelo menos uma vez no período de um ano após a alta, o que representa um custo anual de cerca de 27 milhões ao SNS.

No país, os custos associados à doença representam cerca de 2,6% da despesa pública em saúde, contribuindo as hospitalizações para cerca de 30% destes gastos.

LUSA/SO

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