24 Fev, 2026

“Falar de dor é falar de cuidado, de escuta e de respostas mais humanas e integradas”

A dor continua a ser uma das dimensões mais invisíveis e normalizadas no cancro da mama. No 5.º Congresso do Cancro da Mama do Algarve, que se realiza a 27 de fevereiro, em Lagos, o tema ganha centralidade para promover uma abordagem mais humana, integrada e consciente. Em entrevista, a fisioterapeuta Jacqueline Tavares, cofundadora do CCMA e presidente da Associação Mamativa, explica por que é urgente falar de dor — física, emocional e social — e escutar quem a vive.

“Falar de dor é falar de cuidado, de escuta e de respostas mais humanas e integradas”

O congresso deste ano escolhe a dor como tema central. Porque é que sentiram necessidade de colocar este assunto no centro do debate?
A dor é um tema que nos impacta a todos, ao longo da nossa vida, nas suas mais diferentes vertentes, e quem é confrontado com um diagnóstico não passa impune. Muito pelo contrário.  A dor não se vê nas análises, como acontece com outros parâmetros, mas impacta a vida de cada um. É uma realidade constante para doentes oncológicos, para os seus familiares e cuidadores, e também para os profissionais de saúde que os acompanham.

Por isso, sentimos a necessidade de fazer esta edição com o tema “Dor: Ciência, Emoção e Futuro”.  Falar de dor é falar de cuidado, de escuta e de respostas mais humanas e integradas. Ao trazermos este tema para o centro do debate, procuramos contribuir para um processo mais leve, mais compreendido e mais apoiado, não só para o doente, mas também para toda a sua rede de suporte.

Este tema vem também mostrar que falar de dor exige coragem, empatia e transparência. Apesar de ser uma realidade complexa e muitas vezes silenciada, acompanha de forma inevitável o percurso de quem enfrenta o cancro da mama, tornando essencial trazê-la para o centro da reflexão e da ação.

 

Que diferentes dimensões da dor — física, emocional ou social — vão ser abordadas ao longo do congresso?
A dor constitui mais vertentes do que muitas vezes imaginamos. No 5.º CCMA queremos chegar a todas as suas dimensões, abordando não apenas a dor física, mas também a emocional, relacional/social e existencial.

A dor física é, tendencialmente, a mais reconhecida, sobretudo após o diagnóstico, quando surgem os tratamentos oncológicos e eventuais cirurgias. Contudo, também as esferas emocional, psicológica, social e familiar podem sofrer alterações profundas, e todas elas representam dimensões legítimas da dor. Reconhecê-las e discuti-las é essencial para promover uma abordagem verdadeiramente integrada e centrada na pessoa.

 

“A dor constitui mais vertentes do que muitas vezes imaginamos. No 5.º CCMA queremos chegar a todas as suas dimensões”

 

Este é um congresso que junta profissionais de saúde, doentes e cuidadores. O que ganha o debate quando estas vozes se cruzam?
Quando diferentes perspetivas se encontram, o debate torna-se mais rico, real e transformador. A presença conjunta de profissionais de saúde, doentes e cuidadores permite cruzar conhecimento científico com experiência vivida na primeira pessoa, criando uma compreensão mais completa e autêntica do percurso oncológico.

Os profissionais contribuem com evidência, prática clínica e inovação terapêutica, os doentes trazem os testemunhos e dúvidas, e os cuidadores acrescentam a visão de quem acompanha diariamente os desafios físicos e emocionais da doença. Este diálogo promove empatia, desfaz preconceitos e ajuda a construir respostas mais ajustadas às necessidades reais.

No fundo, quando estas vozes se escutam mutuamente, deixa-se de falar apenas sobre a doença para passarmos a falar com quem a vive e é nesse espaço de escuta e partilha que nascem cuidados mais humanos, eficazes e centrados na pessoa.

 

De que forma este congresso pode contribuir para uma maior literacia em saúde e para que as pessoas deixem de normalizar a dor no cancro da mama?
Durante a nossa prática clínica, percebemos que ainda existe uma lacuna significativa de literacia em saúde, tanto na população em geral como, de forma mais evidente, entre doentes oncológicos e cuidadores. Observamos também a escassez de eventos científicos e informativos dedicados a esta área na região Sul, o que reforçou a vontade de criar uma iniciativa capaz de aproximar conhecimento, profissionais e comunidade.

O Congresso do Cancro da Mama do Algarve (CCMA) nasce precisamente com esse propósito: promover a partilha de informação clara, acessível e baseada na evidência, ajudando a desmistificar tabus e a combater a tendência para normalizar a dor no cancro da mama. Ao incentivar o diálogo aberto entre especialistas, doentes e cuidadores, contribuímos para uma jornada oncológica mais informada e consciente.

Esta iniciativa pretende ainda reforçar a importância de olhar para o processo oncológico de forma holística, colocando a pessoa no centro dos cuidados e não apenas a doença ou os sintomas. Ao integrar ciência, experiência clínica e dimensão emocional, como propõe o tema desta edição “Dor: Ciência, Emoção e Futuro”, o CCMA uma abordagem mais humana, integrada e empoderadora no cuidar.

 

“O CCMA nasce precisamente com este propósito: promover a partilha de informação clara, acessível e baseada na evidência, ajudando a desmistificar tabus e a combater a tendência para normalizar a dor no cancro da mama”

 

Que impacto espera que este encontro tenha em quem vive com cancro da mama ou acompanha de perto este percurso?
Esperamos que este encontro tenha um impacto verdadeiramente inspirador, empoderador e transformador para quem vive com cancro da mama e para quem acompanha de perto esse percurso.

Mais do que um espaço de partilha científica, o congresso pretende ser um espaço de acolhimento, esclarecimento e reconhecimento, onde dúvidas encontram respostas, experiências encontram validação e emoções encontram compreensão. Ao promover conhecimento e diálogo aberto, queremos que cada participante saia mais informado, mais confiante e menos sozinho no seu caminho.

No fundo, o impacto que procuramos é simples, mas profundo: contribuir para que quem vive esta realidade se sinta mais apoiado, mais escutado e mais preparado para enfrentar o percurso com maior qualidade de vida e esperança.

 

Sílvia Malheiro

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