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Além do cancro do colo do útero, que outras neoplasias do foro ginecológico podem ser causadas pela infecção por HPV?

O HPV é o vírus responsável pela infeção de transmissão sexual mais frequente no mundo, com 75 – 80% das pessoas sexualmente ativas a contrair a infeção, em algum momento das suas vidas.

A infeção por este vírus é causa necessária, embora não suficiente, de 5% dos cancros em humanos, 10% dos cancros em mulheres e 15% em mulheres nos países subdesenvolvidos.

A nível ginecológico, além do cancro cervical, este vírus é responsável por cerca de 90% dos cancros da vagina e 40 – 50% dos cancros da vulva. É igualmente de salientar o seu papel etiológico, na quase totalidade das neoplasias intraepiteliais vaginais (VAIN) e das neoplasias intraepiteliais vulvares, de tipo usual (u VIN).

No que diz respeito, por exemplo, aos cancros da vulva e da vagina, existem estimativas quanto à sua prevalência em Portugal? Sabe-se que percentagem destes dois cancros são causados pelo HPV?

Os cancros da vulva e da vagina são relativamente raros. Segundo os últimos dados do Registo Oncológico Nacional de 2018, em Portugal, tivemos 222 casos de carcinoma da vulva, 1.6 por 100.000 mulheres/ano, e 33 casos de cancro vaginal, 0.15 por 100.000 mulheres/ano. Estes números são relativamente constantes nos últimos 10 anos.

A infeção por HPV é responsável pela maioria dos cancros vaginais (80– 90%) e quase metade (40 – 50%) dos cancros da vulva.

Qual o prognóstico destes dois tipos de cancro? O diagnóstico é difícil?

O principal fator de prognóstico, após um diagnóstico de cancro invasivo da vulva ou da vagina, diz respeito à existência ou não de metastização ganglionar que depende, fundamentalmente, das dimensões do tumor e da profundidade da invasão.

A taxa de sucesso terapêutico do carcinoma da vulva é relativamente elevada, quando diagnosticado nos estadios I e II da FIGO, apresentando sobrevivências superiores a 90% aos 5 anos. Estas taxas descem para 30-40% na doença localmente avançada, que diz respeito aos estadios III e IV da FIGO.

O carcinoma da vagina no estadio I da FIGO apresenta também elevadas taxas de cura, diminuindo bastante em estadios mais avançados. Segundo o 26th Volume do Annual Report, a sobrevida aos 5 anos de 224 casos de carcinoma da vagina é a seguinte: estádio I 77.6%; estádio II 52.2%; estádio III 42.5% ; estádio IVA  20.5%; estádio IVB 12.9 %.

O diagnóstico é feito através de uma biópsia, dirigida a uma área suspeita, sendo este procedimento fácil de realizar numa consulta de ginecologia. A maioria das doentes são sintomáticas, apresentando, no caso do cancro da vulva, prurido, úlcera ou massa tumoral, e, no caso do cancro da vagina, hemorragia e/ou leucorreia. Infelizmente, muitas destas doentes sintomáticas não procuram com a celeridade devida uma consulta adequada. Como consequência, o diagnóstico é mais tardio e a probabilidade de cura mais baixa.

Qual a(s) faixa(s) etárias mais afetadas?

Os carcinomas da vulva e da vagina são, sobretudo, neoplasias da pós-menopausa. O cancro da vulva tem um pico de incidência por volta dos 65 – 70 anos. Depois dos 80 anos, a frequência do cancro da vulva supera a do conjunto do cancro do colo e endométrio. Há cerca de duas décadas, verifica-se um aumento do número de carcinomas da vulva em mulheres mais jovens ( ≤ 50 anos ). Estas neoplasias estão relacionadas com a infeção por HPV, muitas vezes na forma de carcinoma in situ e de localização multifocal. O carcinoma epidermóide da vagina apresenta uma idade média de 67 anos e é muito raro antes dos 40 anos.

Qual o tratamento standard usado tanto no cancro da vagina como no da vulva?

O tratamento destes cancros é individualizado e deve ser instituído por uma equipa multidisciplinar. O tratamento habitual do carcinoma da vulva localizado será a exérese alargada da lesão, com avaliação do gânglio sentinela, seguida ou não de terapêutica complementar, com radioterapia e/ou quimioterapia, em função das margens cirúrgicas e do estado ganglionar. O tratamento habitual nos carcinomas localmente avançados será a combinação de radioterapia e quimioterapia. Nestes casos, a individualização do tratamento é ainda mais acentuada tendo indicação, em determinadas situações, do emprego de cirurgia altamente especializada associada ou não á quimioterapia e radioterapia. O tratamento habitual do cancro epidermóide da vagina será a quimioradioterapia.

Quais as suas expectativas para a 2ª edição do HPV Clinical Cases?

Atendendo aos resultados da edição de 2019, 92 casos clínicos, de 64 autores, as minhas expectativas são, pelo menos, que esta edição tenha os mesmos excelentes resultados da 1ª.

Esta feliz iniciativa da MSD vai permitir concentrar a atenção, quer dos colegas em formação quer dos colegas especialistas, para a problemática das doenças provocadas pela infecção por HPV, levando à atualização de conceitos e atitudes importantes para a prática clínica diária.

Quão importante é mostrar a transversalidade das lesões provocadas pelo HPV, abrangendo experiência de várias especialidades médicas?

Como já acentuei anteriormente, a infeção por HPV é extremamente frequente e, embora a maioria cure de forma espontânea, é o fator etiológico necessário ao aparecimento de lesões benignas e malignas, em diferentes locais anatómicos. Assim, a partilha de experiências entre as várias áreas de especialidades envolvidas nestas patologias só pode resultar em ganhos de conhecimento, que levarão à melhoria da prevenção, do diagnóstico e da orientação terapêutica destes doentes.

TC/SO

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